O veganismo e a ética animal não dependem de gostar de bichos nem de uma teoria ética específica. Dependem de alguns princípios que quase todos já aceitam em outros contextos. Quando esses princípios são levados a sério, a conclusão vem junto. Quando são abandonados, ela some, e outras causas justas costumam ir embora com ela.
O que sustenta
| Princípio | O que diz | Onde aparece neste guia |
|---|---|---|
| Razão crítica e coerência lógica | Aceitar as conclusões que se seguem das premissas que já aceitamos, e tratar casos iguais de modo igual | Falácias, A11 |
| Relevância | Um critério só pode decidir quem é prejudicado se tiver relação com a capacidade de ser prejudicado. A espécie, a cor ou a inteligência não têm | A1, A10 |
| Imparcialidade | Julgar como se não soubéssemos em que posição nasceríamos: o véu da ignorância | A21 |
| Universalidade | Uma regra moral vale para todos os casos iguais, não só para os que nos convêm | A13, A24 |
| Senciência e interesses | Quem pode ter experiências boas ou ruins tem interesses que contam, venha o dano de onde vier | A5, família M |
| Círculo moral e progresso | A história moral é, em boa parte, a inclusão de quem antes era excluído | A9 |
| Justiça | Não impor a outros danos graves para obter benefícios pequenos | J11 |
| Bem comum | Pensar no conjunto dos afetados, inclusive os que não votam, não falam e ainda não nasceram | M11 |
O que enfraquece
| Atitude | Como enfraquece | Onde aparece neste guia |
|---|---|---|
| Racionalidade só instrumental | Usar a razão apenas para conseguir o que se quer, sem perguntar se o fim é justo | J11, E12 |
| Incoerência lógica | Aceitar um princípio num caso e rejeitá-lo no caso igual, quando a conclusão incomoda | E8 |
| Fuga do que é relevante | Trocar a pergunta "isso prejudica alguém?" por outras: tradição, sabor, saúde, quem está falando | Parte IND |
| Parcialidade | Dar peso maior aos interesses de quem se parece conosco | A21 |
| Relativismo | Tratar a pergunta sobre causar dano a outros como questão de gosto | E2 |
| Visões em conflito com a senciência | Antropocentrismo, ambientalismo como visão moral e biocentrismo colocam no centro algo que não é a capacidade de sentir | Antiespecismo e senciocentrismo, M7 |
| Estagnação moral e cultural | Tomar o costume atual como limite do que é certo | D1 |
| Sacralização de abstrações | Tratar como sagrado algo que não sente, como "o natural", um sistema, uma tradição ou conceitos como espécie e ecossistema, e colocá-lo acima dos seres que sentem | M2, M7, A18 |
| Blindagem de ideias | Proteger certas crenças de qualquer revisão. Esse conservadorismo moral impede de buscar o melhor para todos os seres sencientes, porque descarta de antemão propostas novas, como ajudar animais selvagens ou usar a ciência contra o sofrimento | M5, M10 |
| Falta de motivação e vontade fraca | Saber o que é certo e não agir, porque hábito, prazer ou pressão social vencem a crença moral | E12, E8 |
| Injustiça | Aceitar que o mais forte use o mais fraco porque pode | C6 |
| Tribalismo | Dividir o mundo entre "os nossos" e "os outros" e reservar a moral para o próprio grupo | A13 |
| Egoísmo | Medir tudo pelo próprio interesse | E1 |
| Capacitismo | Medir o valor de alguém pela inteligência ou pela capacidade, o mesmo critério que exclui pessoas com deficiência | A1, A11 |
Por que isso importa
Os princípios da primeira tabela são os mesmos que sustentam os direitos humanos, a luta contra o racismo, o sexismo e o capacitismo, e o cuidado com as gerações futuras. As atitudes da segunda tabela são as mesmas que, ao longo da história, serviram para excluir humanos do círculo moral. Por isso a defesa dos animais não compete com as outras causas justas: apoia-se nos mesmos fundamentos e enfrenta os mesmos adversários.
Saber não basta, mas ajuda
Há quem conheça bem a ética animal e continue comendo animais. Isso não mostra que crenças morais não motivam ninguém. Mostra que elas não decidem o comportamento sozinhas: a pessoa pode achar que o erro não é grave, pode ter outras motivações mais fortes, como hábito, prazer e pressão social, ou pode simplesmente escolher não agir. Como argumenta Luciano Carlos Cunha, a persuasão emocional enfrenta os mesmos limites, e a persuasão racional tem a vantagem de explicar por que uma prática deve ser rejeitada. Por isso, além de argumentos, ajuda criar condições que facilitem a ação: ambientes, hábitos e grupos que tornem mais fácil fazer o que já se sabe ser certo.
Também por isso vale a pena escolher bem os argumentos. Um argumento que convence alguém por egoísmo, tribalismo ou antropocentrismo pode ganhar uma conversa e, ao mesmo tempo, fortalecer exatamente o que enfraquece a causa. É o tema da página Comedimento com os argumentos indiretos.
Fontes e leituras
- O argumento da relevância
- The Expanding Circle
- Moral Tribes
- Crenças morais, motivação para agir e o caso de especialistas em ética animal que consomem animais
- Beasts of Burden: Animal and Disability Liberation
- Eclipse of Reason
- A Theory of Justice