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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M2

"Sofrimento e morte fazem parte da natureza"

A resposta em uma frase

fazer parte da natureza não torna algo bom nem indiferente para quem sofre. Doenças, parasitas e morte no parto também fazem parte da natureza humana, e nunca foram razão para não tratá-los. A falta de culpado importa para julgar agentes, não para medir o dano das vítimas.

Resposta curta

Doença também faz parte da natureza, e mesmo assim tratamos. Ninguém deixa uma criança com infecção sem remédio porque bactérias são naturais. Que ninguém tenha culpa pelo sofrimento não o torna menos ruim para quem sofre. A pergunta é se podemos ajudar sem causar mais dano.

Para crianças

Ficar gripado faz parte da vida, né? Mesmo assim, quando você fica doente, alguém cuida de você, te dá remédio e um chá quentinho. Ninguém diz "deixa, é natural". O que é natural pode doer do mesmo jeito. E, quando dói, a gente ajuda se puder.

Devolva com uma pergunta

"Se uma doença é natural, você deixaria de tratá-la?"

Como pode aparecer

"A natureza é cruel mesmo, faz parte."
Conversa cotidiana
"A natureza não é boa nem má."
Conversa cotidiana
"Sofrimento faz parte da vida."
Conversa cotidiana
"Querer acabar com o sofrimento na natureza é negar a vida."
Redes sociais
"O sofrimento natural é moralmente neutro, porque não resulta de escolhas."
Versão acadêmica
"É o ciclo da vida." (que é C7)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"A natureza é assim mesmo. Uns comem os outros, uns adoecem, outros morrem. Faz parte."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Só faz sentido falar em mal moral quando há um agente responsável.
  2. P2Na natureza, o sofrimento é causado por processos sem intenção: predação, doença, clima.
  3. C1Logo, o sofrimento natural não é um mal moral.
  4. C2E o que não é um mal moral não nos dá razão para agir.

P1 e P2 são aceitáveis se falamos de culpa: um furacão não é culpado de nada. O problema está em C2, que pula da ausência de culpado para a ausência de vítima.

O argumento é inválido: de "ninguém é culpado" não se segue "ninguém foi prejudicado".

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento confunde duas perguntas:

    PerguntaDepende deExemplo
    Alguém é culpado?Haver um agente que escolheuUm incendiário é culpado; um raio, não
    Alguém foi prejudicado?Haver uma vítima que sofreuA floresta queimada pelo raio tem tantas vítimas quanto a queimada pelo incendiário

    Para quem sofre, a origem do sofrimento não muda o que ele sente.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Neutro para quem?

    A natureza não tem intenções, mas os animais têm experiências. O sofrimento de um animal devorado vivo por parasitas não é neutro para ele.

    2. Natural não é critério de bom.

    No ensaio Nature, John Stuart Mill observou que a natureza faz, todos os dias, coisas pelas quais um ser humano seria preso ou enforcado. Copiar a natureza nunca foi bom guia moral (C1).

    3. Já intervimos no natural o tempo todo.

    Vacinas, antibióticos, óculos, anestesia, abrigos contra o frio: boa parte da civilização consiste em reduzir sofrimentos naturais.

    4. O teste humano.

    Diante de uma epidemia ou de um terremoto, ninguém diz "faz parte da natureza, não vamos ajudar". A falta de culpado nunca foi motivo para negar socorro a humanos. Negá-lo aos animais pelo mesmo motivo é usar um critério que aplicamos só a eles.

    5. Não há agente, mas há quem possa ajudar.

    A ética não pergunta só quem causou, mas também o que nós, que podemos agir, devemos fazer.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Mill, Nature (1874)A natureza mata, tortura e destrói o tempo todo; imitá-la não é critério moralPublicado em Three Essays on Religion
    Animal Ethics, "Why wild animal suffering matters"O sofrimento importa para quem o sofre, independentemente da causaEm inglês
    Questão de Ética, vol. VIIDiscute se o sofrimento natural é neutro e se a indiferença da natureza nos dispensa de ajudarCapítulos 13, 15 e 16
  4. d

    A melhor réplica: o sofrimento tem função

    A versão mais séria diz que a dor é útil: ensina a evitar perigos, e a seleção natural depende dela. Acabar com o sofrimento natural seria destruir algo que dá sentido à vida dos animais.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Função não é bem-estar.

    A dor serve à sobrevivência dos genes, não ao bem do indivíduo. Para o filhote que morre no primeiro dia, ela não ensina nada.

    Aceitamos aliviar dores com função.

    A dor do parto e a dor de uma fratura têm função, e mesmo assim usamos anestesia.

    Ninguém propõe acabar com toda dor de uma vez.

    A proposta séria é reduzir sofrimentos evitáveis com pesquisa e cautela (M5, M10).

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Apelo à natureza
Do natural conclui o aceitável
Non sequitur
De "ninguém é culpado" conclui "ninguém foi prejudicado"

Moral

O critério é coerente?

Confusão entre culpa e dano
Mede o dano da vítima pela intenção do causador
Dois pesos
Aceita tratar o natural em humanos, mas não em animais

Vieses

Apelo à natureza

O natural parece bom ou inevitável

Ligado a C1 e C7

Viés de omissão

Não agir parece menos grave que agir

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Viés de intenção

O dano só parece grave quando alguém quis causá-lo

Tomasik, "Intention-based moral reactions distort intuitions about wild animals"

Extrapolações

O princípio testado é: "o sofrimento que faz parte da natureza não precisa ser aliviado".

Se valesse para…Doenças humanasToque para ver

Não deveríamos tratar infecções, câncer ou malária

Ninguém aceita

Se valesse para…PartoToque para ver

A anestesia seria um erro

Já houve quem dissesse isso, e perdeu o debate

Se valesse para…Desastres naturaisToque para ver

Não deveríamos socorrer vítimas

A ajuda humanitária existe justamente para isso

Contradições

Toma remédio.

E a doença era natural.

Apoia ajuda humanitária em desastres.

Terremotos e secas não têm culpado.

Leva o próprio animal ao veterinário.

Sem dizer que a doença dele "faz parte".

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que a natureza não é um agente moral e que não faz sentido culpar leões ou vírus. Também acerta que a dor tem funções biológicas importantes e que mexer nisso exige muito cuidado.

Mas

Mas a pergunta não é se a natureza é culpada. É se nós, que podemos agir, temos razão para ajudar quem sofre. E a origem natural do sofrimento nunca foi, em nenhum outro contexto, motivo para deixar de ajudar.

Conexões

Costuma vir antes

M1 Os animais selvagens vivem livres e felizesQuando a idílica cai, o sofrimento é declarado natural
C7 É o ciclo da vida.O mesmo apelo, agora para não ajudar
M2este argumento

Costuma vir depois

M5 Mexer na natureza é errado, podemos piorar tudoSe é natural, mexer seria arriscado
C1 É natural comer carne.O apelo à natureza volta para o prato

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências