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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M10

"Usar remédios e genética para acabar com o sofrimento é brincar de Deus"

A resposta em uma frase

já usamos anestesia, analgésicos, vacinas e antidepressivos para reduzir sofrimentos naturais, e ninguém chama isso de brincar de Deus. A ideia de usar biotecnologia para reduzir o sofrimento de humanos e animais levanta perguntas sérias de segurança, consentimento e justiça, e elas precisam ser respondidas. Mas "a dor é natural" não é uma delas: se fosse, a anestesia teria sido um erro.

Resposta curta

A anestesia também mexeu com algo natural, e muita gente agradece. Usar a ciência para reduzir o sofrimento não é novidade; é o que a medicina faz há séculos. Os riscos são reais, por isso o que se defende é pesquisa cuidadosa, voluntária e com regras, não imposição. O que não serve como objeção é dizer que a dor é natural.

Para crianças

Quando você vai ao dentista, ele usa um remédio para você não sentir dor. Isso é bom, não é? Antigamente não existia esse remédio, e as pessoas sofriam muito. Algumas pessoas acharam errado inventar remédio para dor, mas hoje quase todo mundo agradece. Usar a ciência com cuidado para que pessoas e bichos sofram menos é parecido com isso.

Devolva com uma pergunta

"Você recusaria anestesia numa cirurgia porque a dor é natural?"

Como pode aparecer

"Isso é brincar de Deus."
Conversa cotidiana
"Isso é eugenia."
Conversa cotidiana
"O sofrimento faz parte da condição humana e animal."
Conversa cotidiana
"Querem transformar leão em vegano por engenharia genética?"
Redes sociais
"A abolição do sofrimento ameaça o sentido da vida e a autenticidade."
Versão acadêmica
"Sofrimento e morte fazem parte da natureza." (que é M2)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Mexer nos genes para ninguém sofrer? Isso é brincar de Deus. O sofrimento faz parte da vida."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1A dor e o sofrimento são produtos da evolução e cumprem funções importantes.
  2. P2Alterar a biologia de humanos e animais para reduzi-los teria consequências imprevisíveis.
  3. P3Tentativas anteriores de "melhorar" seres vivos pela genética, como a eugenia, levaram a abusos terríveis.
  4. CLogo, não devemos usar biotecnologia para reduzir o sofrimento.

P1, P2 e P3 são verdadeiras e precisam ser levadas a sério. O problema é a conclusão: os riscos pedem cautela, consentimento e regras, não a proibição de qualquer tentativa.

O argumento é inválido na forma forte: dos riscos de uma tecnologia não se segue que todo uso seja errado, como mostra a própria medicina.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento reúne objeções de natureza muito diferente:

    ObjeçãoTipoPeso
    "A dor é natural"Apelo à naturezaNenhum: tratamos dores naturais o tempo todo
    "Pode dar errado"RiscoReal: pede pesquisa, testes e cautela
    "Lembra a eugenia"Abuso históricoReal: pede consentimento, liberdade e justiça
    "A dor tem função"BiológicaReal: a dor protege; eliminá-la por completo seria perigoso

    As três últimas são razões para fazer bem, não para não fazer.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Já fazemos isso.

    Anestesia, analgésicos, vacinas, antidepressivos e tratamentos para dor crônica são formas de alterar a biologia para reduzir o sofrimento. Quando a anestesia surgiu no parto, em meados do século XIX, houve objeções religiosas a ela; hoje quase ninguém as defende.

    2. A dor pode ser regulada sem ser eliminada.

    Pessoas que nascem sem sentir dor correm graves riscos, o que mostra que a dor protege. Mas há casos raros de pessoas com dor e ansiedade muito reduzidas que vivem bem, como a escocesa estudada por pesquisadores em 2019, com uma variante no gene FAAH-OUT. A proposta séria é reduzir sofrimentos inúteis, preservando a função de alerta.

    3. Eugenia é outra coisa.

    A eugenia histórica foi coercitiva, discriminatória e baseada em hierarquias de valor entre pessoas. Uma terapia voluntária para reduzir a dor de quem a escolhe não tem nenhuma dessas características. O abuso passado pede regras e direitos, não a proibição de toda medicina genética.

    4. O teste humano.

    Se existisse um tratamento seguro e voluntário que reduzisse a dor crônica de milhões de pessoas, ninguém o recusaria dizendo "é brincar de Deus". Recusar a mesma lógica para os animais, cujo sofrimento é imenso e que não podem buscar tratamento, é usar a espécie como critério.

    5. Já existem ferramentas sendo testadas.

    Técnicas de gene drive são estudadas para reduzir populações de mosquitos transmissores de malária. Isso mostra que intervenções genéticas em populações selvagens já estão em debate científico sério, com toda a cautela que exigem.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Pearce, *The Hedonistic Imperative* (1995)Defende usar biotecnologia para abolir o sofrimento involuntário de todos os seres sencientes, mantendo gradientes de bem-estarEm inglês; a proposta mais conhecida da área
    Habib et al., 2019Descreve uma paciente com insensibilidade à dor e baixa ansiedade associadas a uma microdeleção no gene FAAH-OUTBritish Journal of Anaesthesia
    Esvelt et al., 2014Discute o uso de gene drives guiados por RNA para alterar populações selvagens, com seus riscoseLife, 3
    Questão de Ética, vol. VII, cap. 28Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais selvagensVer também cap. 31, sobre predação
  4. d

    A melhor réplica: o sofrimento dá sentido à vida

    A versão mais séria diz: superar dificuldades, sentir perdas e enfrentar dores é parte do que torna a vida significativa. Uma vida sem sofrimento seria rasa, e uma humanidade que eliminasse a dor perderia algo valioso.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ninguém propõe eliminar todos os desafios.

    A proposta é reduzir o sofrimento involuntário e extremo, como dor crônica, depressão grave ou a morte por fome de filhotes, não tornar a vida sem desafios.

    O sentido não depende da dor extrema.

    Podemos encontrar sentido em amar, aprender e criar sem precisar de agonia.

    O argumento não vale para os animais.

    Um filhote que morre de fome no primeiro dia não ganha sentido nenhum com isso.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Apelo à natureza
Se a dor é natural, não deve ser alterada
Culpa por associação
Equipara terapia voluntária à eugenia coercitiva
Falso dilema
Ou aceitamos todo o sofrimento, ou eliminamos toda a dor

Moral

O critério é coerente?

Dois pesos
Aceita reduzir a dor humana com tecnologia e recusa o mesmo para animais

Vieses

Apelo à natureza

O natural parece sagrado ou intocável

Ligado a C1 e M2

Viés do status quo

O nível atual de sofrimento parece o normal

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Viés de omissão

Não agir parece mais seguro que agir

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Extrapolações

O princípio testado é: "não devemos usar a ciência para alterar sofrimentos que são naturais".

Se valesse para…AnestesiaToque para ver

Cirurgias deveriam ser feitas sem ela

Ninguém aceita

Se valesse para…DepressãoToque para ver

Antidepressivos seriam errados

Rejeitado

Se valesse para…Doenças genéticasToque para ver

Não deveríamos tratá-las

Contraria a medicina atual

Contradições

Usa anestesia e analgésicos.

Que alteram a biologia para reduzir a dor.

Apoia vacinas.

Que mexem no sistema imunológico para evitar sofrimento natural.

Aceita tratamentos para doenças genéticas.

Que já são medicina genética.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta muito: a dor tem funções vitais, a biotecnologia tem riscos enormes, e a história da eugenia mostra o perigo de usar a ciência para impor ideais. Qualquer proposta nessa área precisa de consentimento, liberdade, justiça e pesquisa cuidadosa. Também é legítimo que muitas pessoas, inclusive veganos, desconfiem dessas ideias.

Mas

Mas nenhuma dessas preocupações vem da ideia de que a dor é natural e por isso intocável. Elas pedem fazer bem, não deixar de fazer. E, se aceitamos reduzir a dor humana com ciência, falta explicar por que a dos animais não contaria.