Este guia pede comedimento em duas direções. Na página Pare de dizer isso, pede que veganos corrijam os próprios argumentos ruins sem transformar a crítica interna no assunto principal. Aqui, o pedido é outro: que quem usa argumentos indiretos, de saúde, ambiente ou economia, se contenha no uso deles e dê lugar aos argumentos diretos, que tratam do que importa: os animais são alguém, e não algo.
O problema não é só a fraqueza
Os argumentos indiretos têm partes verdadeiras e podem ser úteis para corrigir desinformação. O problema mais profundo é que eles podem fundamentar o princípio errado. Quem deixa de comer carne porque faz mal à saúde aprende que o critério é o próprio interesse. Quem deixa porque emite gases aprende que o critério é o planeta. Em nenhum dos casos aprende que o animal importa.
| Argumento indireto | Princípio que ele ensina | Para onde esse princípio pode levar |
|---|---|---|
| "Carne faz mal à saúde" | O que importa é o meu bem-estar | Peixe, frango "magro" e cápsulas de óleo de peixe; abandono do veganismo se a pessoa se sentir pior (G10) |
| "A pecuária destrói o planeta" | O que importa é o impacto ambiental | Carne "regenerativa", criação de insetos, caça de espécies invasoras, trocar boi por frango ou camarão (H3, H11, H14) |
| "É mais barato" | O que importa é o preço | Volta à carne quando ela ficar mais barata (J1) |
A troca de carne bovina por frango, peixe ou camarão mostra bem o risco. Como um boi rende muito mais carne que um frango ou um peixe, essa troca pode reduzir a emissão por quilo e, ao mesmo tempo, multiplicar o número de animais criados e mortos. Um argumento ambiental bem-sucedido pode piorar a situação dos animais.
Fortalecer o adversário
O antropocentrismo e o ambientalismo como visão moral estão entre as principais razões pelas quais os animais são excluídos (O que sustenta a ética animal). Um argumento que só funciona dentro dessas visões pode ganhar uma conversa e, ao mesmo tempo, reforçar a ideia de que os animais importam só pelo que fazem a nós ou ao ecossistema. Outros movimentos que defendem grupos prejudicados não argumentam que a discriminação é ruim porque faz mal à saúde de quem discrimina ou ao clima.
Há também um sinal na prática. Num levantamento da Faunalytics com ex-vegetarianos e ex-veganos, a saúde foi a única motivação citada pela maioria (58%) dos que abandonaram a dieta. O dado não prova causa, mas é coerente com a ideia de que uma mudança apoiada no próprio interesse se desfaz quando o interesse parece mudar.
Como usar sem se perder
- Use fatos para corrigir fatos. Se alguém diz que a dieta vegana é perigosa ou que a soja dos veganos desmata a Amazônia, corrija com evidência. É uma resposta a uma objeção, não o fundamento.
- Volte sempre à questão moral. Depois de corrigir o fato, pergunte: mesmo que fosse verdade, isso justificaria o que é feito com os animais?
- Não prometa o que não depende de você. Dizer que o veganismo vai deixar a pessoa mais saudável ou salvar o planeta transforma a causa numa aposta empírica que pode ser perdida (Pare de dizer isso).
- Comece pelo fundamental. Senciência, relevância, imparcialidade e o teste de aplicar a mesma regra a humanos são argumentos que funcionam em qualquer cenário e protegem contra o sofrimento futuro, inclusive dos animais selvagens e de novas mentes.
Comedimento não é proibição
Não se trata de proibir quem chegou ao veganismo pela saúde ou pelo clima, nem de desprezar essas pessoas. Muitos chegam por um caminho e ficam por outro. Trata-se de não deixar que o argumento indireto ocupe o lugar do direto, e de não ensinar, sem perceber, os princípios que mantêm os animais fora do círculo moral.