Objeções políticas
O que cada teoria ética ou política costuma dizer para deixar os animais de fora, e por que essa exclusão contradiz o princípio da própria teoria.
Toda teoria ética ou política parte de um princípio: proteger a liberdade dos indivíduos, acabar com a exploração, reduzir o sofrimento, tratar os casos iguais de forma igual, cuidar dos vulneráveis. Na maior parte da história, essas teorias aplicaram o princípio só aos humanos. Esta seção reúne as objeções que costumam vir de cada uma delas e mostra por que excluir os animais não decorre do princípio, e sim de um corte feito antes dele. O ponto não é que todas as teorias digam a mesma coisa, mas que nenhuma delas oferece, nos próprios termos, uma razão para deixar de fora quem pode ser prejudicado.
"A liberdade é um direito de indivíduos racionais; animais não são sujeitos de direitos liberais."
Proteger os indivíduos contra danos causados por outros e garantir que cada um possa viver a própria vida. Para Mill, o único motivo legítimo para limitar a liberdade de alguém é evitar dano a outros.
Libertarianismo e anarcocapitalismo"O que é meu é meu: animais são propriedade, e a liberdade de usar a propriedade é sagrada."
A posse de si mesmo e o princípio da não agressão: ninguém pode iniciar violência contra outro indivíduo.
Marxismo, socialismo e comunismo"Exploração é uma relação entre classes humanas. Animais não são trabalhadores, e a luta é outra."
Acabar com a exploração e com a transformação de seres e vidas em mercadoria.
Anarquismo"O anarquismo combate a dominação entre pessoas; animais não fazem parte disso."
Rejeitar hierarquias e formas de dominação que não se justificam.
Utilitarismo"Os prazeres humanos valem mais: é melhor ser um humano insatisfeito do que um porco satisfeito."
Maximizar o bem-estar e minimizar o sofrimento de todos os afetados, contando o interesse de cada um igualmente.
Contratualismo e justiça rawlsiana"A justiça vale entre quem tem senso de justiça e pode fazer acordos."
Escolher as regras de uma sociedade de forma imparcial, como se não soubéssemos que posição ocuparíamos nela.
Deontologia e kantismo"Só seres racionais são fins em si mesmos; com os animais temos, no máximo, deveres indiretos."
Tratar os seres que têm valor próprio como fins, e nunca apenas como meios.
Comunitarismo"Os deveres nascem da comunidade e de suas tradições, e os animais não são membros dela."
A moral se constrói nos vínculos e nas práticas de uma comunidade.
Igualitarismo e prioritarismo"A igualdade é entre cidadãos humanos; os animais estão em outra categoria."
Reduzir desigualdades injustas e dar prioridade a quem está em pior situação.
Ética do cuidado"O cuidado vale para as relações próximas, e não para animais desconhecidos."
Responder às necessidades dos vulneráveis e dos dependentes com atenção e responsabilidade.
Ética das virtudes"A virtude é sobre o caráter humano; tratar bem os animais importa só porque nos torna melhores."
Cultivar virtudes como compaixão, justiça e temperança, e evitar vícios como a crueldade.
Feminismo"O feminismo é sobre as mulheres; falar de vacas e galinhas é desviar o foco, ou até ofender."
Acabar com a opressão ligada ao sexo e com o controle sobre o corpo e a reprodução.
Antirracismo, anticapacitismo e luta contra outras discriminações"Comparar especismo com racismo ou capacitismo é ofensivo; são coisas diferentes."
Não dar menos peso aos interesses de alguém por um traço que não muda o quanto ele pode ser prejudicado, como raça, deficiência, origem ou aparência.
Esquerda progressista e multiculturalismo"A causa animal é pauta de classe média branca e acaba atacando as práticas culturais de minorias."
Defender os grupos vulneráveis, combater a dominação e respeitar a diversidade cultural.
Pacifismo e não violência"A não violência é um compromisso entre pessoas, e não com os animais."
Recusar a violência como meio de resolver conflitos e de alcançar objetivos.
Altruísmo eficaz"Os recursos para fazer o bem são limitados, e devem ir primeiro para os humanos."
Usar evidências e razão para fazer o maior bem possível com os recursos disponíveis.
A seção parte do livro An Introduction to Animals and Political Theory, de Alasdair Cochrane, do artigo Animal Rights, Multiculturalism, and the Left, de Will Kymlicka e Sue Donaldson, e de dois textos de Julio Cesar Prava, revistos: as afirmações foram conferidas e as analogias, ajustadas para não dizer mais do que a evidência permite.