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"O normal da espécie humana é ser racional."
julgar um indivíduo pelo que outros membros de sua espécie têm não é uma razão, é uma troca de sujeito. Se a regra valesse, teríamos de dizer que um bebê anencefálico é inteligente porque humanos são inteligentes. E a mesma regra, aplicada com coerência, condenaria a criação industrial, que impede cada porco de viver o que é normal para um porco.
É a saída mais usada contra o argumento da sobreposição de espécies, citada em A1, A2, A7, A8 e A10
Resposta curta
Trocar o indivíduo pelo grupo não funciona em nenhum outro contexto. Não dizemos que um bebê anencefálico é inteligente porque a espécie humana é inteligente. Não admitimos alguém na universidade pela média da espécie, e sim pela capacidade da pessoa. Esse critério coletivo aparece exatamente uma vez: quando precisamos justificar o que fazemos com os animais.
E há uma volta interessante: se o padrão de cada espécie define o que é devido a seus membros, então o normal para um porco inclui explorar, chafurdar, viver em grupo e cuidar dos filhotes. A criação industrial viola esse padrão todos os dias.
Para crianças
Imagine que sua turma é muito boa em matemática. Isso faz de você bom em matemática, mesmo que você nunca tenha aprendido? Claro que não. Cada pessoa é do jeito que é, e não do jeito que o grupo dela é. Quando alguém diz "esse bebê conta porque humanos são inteligentes", está falando do grupo, e não do bebê. O que protege o bebê é outra coisa: ele sente, como você e como os animais.
"Se o normal da espécie decide, você aceitaria ser julgado pelo que é típico do seu grupo, e não pelo que você é?"
Como pode aparecer
"Mesmo sem falar, ela continua sendo um ser humano."
"O ser humano é racional por natureza; o animal, não."
"Uma exceção não muda a regra da espécie."
"Você está comparando uma pessoa doente com um animal saudável?"
"Deficiente deixa de ser gente?"
"A racionalidade é relevante no nível do tipo, e não do indivíduo." (Cohen)
"O bem de cada ser é definido pela sua forma de vida."
"A dignidade humana não depende do que cada um consegue fazer."
A versão mais forte
"Um bebê ou uma pessoa com deficiência continuam sendo humanos, e o humano é racional por natureza."
Versão mais forte (steelman). É conhecida como argumento do tipo, ou argumento da norma da espécie. Carl Cohen a resumiu assim: a capacidade de juízo moral "não é um teste a ser aplicado a seres humanos um a um", pois "a questão é de tipo".
- P1O tratamento devido a um indivíduo é determinado pelas características normais da sua espécie, e não pelas capacidades que ele mesmo tem.
- P2A racionalidade é a característica normal da espécie humana.
- P3Nenhuma espécie animal tem a racionalidade como norma.
- CTodo humano, inclusive quem não é racional, tem status pleno; nenhum animal tem.
Há uma variante filosoficamente mais refinada, de inspiração aristotélica, associada a Philippa Foot: o que é bom ou ruim para um ser vivo depende da sua forma de vida, e não de um cálculo individual de capacidades. Essa versão é tratada em (d), e aí está uma surpresa: ela funciona melhor a favor dos animais.
O argumento é válido. A solidez falha em P1, que troca o indivíduo pelo grupo, e em P2, que depende de um sentido de "normal" que ninguém consegue fixar sem circularidade.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento faz uma substituição: atribui ao indivíduo as propriedades do grupo. Isso tem um nome em lógica, a falácia da divisão, e um teste simples, formulado por Carlos Naconecy: troque "dignidade moral" por "inteligência" e veja o que acontece.
Formulação Soa aceitável? "Este bebê tem dignidade porque a espécie humana é racional" Muita gente aceita sem estranhar "Este bebê é inteligente porque a espécie humana é inteligente" Ninguém aceita A única diferença entre as duas frases é a propriedade atribuída. Se a segunda é um erro, a primeira também é, a menos que se explique por que a dignidade seria transferível de um indivíduo para outro e a inteligência não. Essa explicação nunca vem.
Há ainda a pergunta sobre o que significa "normal". As três leituras possíveis falham:
Sentido de "normal" Problema Estatístico (a maioria dos membros tem) O status moral passaria a depender de proporções demográficas, que mudam Teleológico (é a finalidade da espécie) Espécies não têm finalidades; isso é herança pré-darwiniana Ideal (o melhor exemplar) Compara indivíduos reais com uma abstração e chama o resultado de razão moral - b
Onde o argumento quebra
1. É aplicado uma única vez.
Usamos capacidades individuais para admitir em universidade, conceder habilitação, definir responsabilidade penal e avaliar consentimento médico. Como observa Naconecy, ninguém aprova um aluno porque a espécie humana sabe álgebra. A norma coletiva aparece só quando precisamos justificar o tratamento dado aos animais.
2. Julgar o indivíduo pelo grupo é justamente o que condenamos.
Estereótipos funcionam assim: atribuem a uma pessoa as características atribuídas ao seu grupo. Quando o grupo é racial, nacional ou de gênero, reconhecemos o erro imediatamente.
3. Espécies não têm essências.
A biologia evolutiva substituiu o pensamento tipológico pelo pensamento populacional: espécies são populações com variação, não tipos ideais com desvios. A "norma da espécie" é uma média estatística, não uma propriedade que cada indivíduo carrega.
4. A escolha da norma é circular.
Por que a norma relevante é a racionalidade, e não a senciência, que também é normal na espécie humana e em muitas outras? Porque a racionalidade produz o resultado desejado. A norma é selecionada depois da conclusão.
5. A regra, aplicada com coerência, protege os animais.
Se o que é devido a um indivíduo depende do padrão da sua espécie, então cada animal tem direito ao que é normal para a sua: uma porca constrói ninho antes de parir, uma galinha cisca e se empoleira, um bovino pasta e forma laços sociais estáveis. Gaiolas, celas de gestação e confinamento violam a norma de cada espécie de modo sistemático. O argumento, levado a sério, vira acusação.
6. E se surgisse uma espécie cuja norma nos superasse?
Pelo mesmo critério, seus membros teriam status superior ao nosso, inclusive os menos capazes entre eles, e nós ficaríamos na posição dos animais. Quem rejeita essa consequência não acredita mesmo na premissa.
- c
Dados e fontes
Fonte O que traz Observação Cohen, 1986, NEJM "A capacidade de juízo moral que distingue humanos de animais não é um teste a ser aplicado a seres humanos um a um. A questão é de tipo." Formulação mais citada do argumento Naconecy, Ética e animais (2006), p. 165-166 Propõe o teste da substituição ("seria correto considerar que bebês anencefálicos são inteligentes porque a espécie humana é inteligente?") e observa que o critério do tipo não é usado, por exemplo, para admissão em universidade Livro de referência deste guia; a citação de Kaufman (1998) aparece na mesma passagem Horta, 2014, sobre a sobreposição de espécies Sistematiza as respostas ao argumento, incluindo a do tipo Journal of Applied Philosophy, 2014 Biologia evolutiva, pensamento populacional Espécies são populações com variação contínua, e não tipos com desvios Consenso da biologia desde a síntese moderna; ver o verbete "Species" da Stanford Encyclopedia of Philosophy Foot, Natural Goodness (2001) O bem de um ser vivo se avalia pela sua forma de vida Usada aqui como a versão forte da réplica; Oxford University Press - d
A melhor réplica: a forma de vida
A versão mais séria não fala em média estatística. Diz que julgamos seres vivos por sua forma de vida: um cão de três patas é um cão com uma deficiência, e não um animal de três patas perfeitamente normal. Essa é a ideia neoaristotélica de Philippa Foot. Aplicada à moral, sugeriria que devemos a cada ser o respeito devido à sua forma de vida, e que a forma de vida humana, sendo racional, atrai um respeito específico, mesmo quando um indivíduo não exerce essa capacidade.
Há também uma versão afetiva, associada a Cora Diamond: nossos conceitos morais nascem da ideia de "semelhante", de companheiro de viagem, e não de um cálculo de capacidades. Por isso enterramos nossos mortos e não os comemos, mesmo quando eles nada mais podem perder.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
A forma de vida protege os dois lados.
Se o bem de cada ser depende da sua forma de vida, então impedir uma porca de fazer ninho ou uma galinha de ciscar é dano, pelo mesmo critério. A réplica compra uma proteção para humanos ao preço de uma acusação contra a pecuária industrial.
Explicar não é justificar.
Cora Diamond explica por que nossos conceitos morais são assim. Isso não mostra que estão certos, e a própria Diamond usa a ideia de "companheiro de criação" para argumentar contra comer animais, e não a favor.
Continua sem responder ao caso do indivíduo.
O que se deve a este ser, que sente dor agora, não pode depender do que outros membros da sua espécie conseguem fazer.
A versão forte não é a que se usa no debate.
Na prática, A11 aparece como uma saída de emergência para manter bebês dentro e animais fora, e não como uma teoria sobre o florescimento de cada forma de vida.
Senciência também é forma de vida.
Sofrer faz parte da forma de vida de qualquer animal senciente. Se a forma de vida importa, a dor deles importa.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falácia da divisão
Petição de princípio
Aplicação seletiva
Ambiguidade
Epistemológico
A evidência sustenta?
Essencialismo de espécie
Teleologia residual
Moral
O critério é coerente?
Substituição do sujeito
Estereótipo moral
Vieses
Essencialismo psicológico
Faz a espécie parecer uma essência interna que cada indivíduo carrega, mesmo sem a capacidade
Medin e Ortony, 1989; Gelman, 2003
Pensamento tipológico
Trata a média como tipo real e os indivíduos como desvios
Contrariado pela biologia populacional
Estereotipagem
Transfere características de grupo para o indivíduo
Mecanismo conhecido em psicologia social
Raciocínio motivado
O critério coletivo é adotado exatamente onde ele salva a conclusão desejada
Literatura geral sobre cognição motivada
Extrapolações
O princípio testado é: "o que vale para um indivíduo é o que é normal na espécie dele".
Se valesse para…Capacidades, e não só dignidadeToque para ver
Teríamos de dizer que um bebê anencefálico é inteligente, porque a espécie humana é inteligente. A propriedade do grupo passaria para o indivíduo em todos os casos, e não apenas quando convém
Teste proposto por Naconecy; ninguém aceita a conclusão
Se valesse para…Seleção e responsabilidadeToque para ver
Universidades admitiriam pela média da espécie e tribunais julgariam pela norma do grupo. Se o tipo decide, a capacidade individual deixa de importar
Fazemos o oposto em todas essas instituições
Se valesse para…Grupos humanosToque para ver
Cada pessoa seria julgada pelo que é típico do seu grupo, e não pelo que ela é. É a estrutura exata do estereótipo
Reconhecemos o erro de imediato quando o grupo é racial, nacional ou de gênero
Se valesse para…Animais de criaçãoToque para ver
Cada animal teria direito ao que é normal para a sua espécie: ninho para a porca, poleiro e banho de areia para a galinha, pasto e vínculos sociais para o bovino
A criação industrial viola essa norma de forma sistemática, o que transforma o argumento em acusação
Se valesse para…Uma espécie mais capaz que a nossaToque para ver
Seus membros teriam status superior ao nosso, inclusive os menos capazes entre eles, e nós ficaríamos na posição dos animais
Quem rejeita a conclusão está rejeitando a premissa
Contradições
Universidade, habilitação, contrato, responsabilidade penal e consentimento médico dependem do que a pessoa consegue, não da média da espécie.
Julgar uma pessoa pelo que é típico do grupo dela é considerado injusto em qualquer outro contexto.
A mesma pessoa diz que "cada cão é diferente" e que "tem gente muito mais inteligente que outra".
Se a norma da espécie define o que é devido, o padrão de vida de um porco deveria valer para os porcos. Ninguém que usa A11 defende isso.
Um humano abaixo da norma continua com status pleno; um animal acima da norma da sua espécie, como um cão que aprendeu centenas de palavras, não ganha nada com isso.
O que o argumento acerta
O que é verdade
O argumento nasce de uma preocupação legítima e importante: proteger seres humanos vulneráveis contra qualquer critério que gradue o valor das pessoas por desempenho. Essa preocupação é correta, e o movimento pelos direitos das pessoas com deficiência tem razão de desconfiar de teorias que medem o valor de uma vida pela capacidade cognitiva. Qualquer ética decente precisa blindar esses casos.
Há também algo certo na ideia de forma de vida: faz sentido dizer que um ser está privado de algo que sua espécie normalmente tem, e isso é uma ferramenta útil para avaliar bem-estar.
Mas
O que o argumento não consegue é usar essa preocupação para excluir os animais. A proteção dos humanos vulneráveis não precisa da norma da espécie: ela se apoia na senciência, que eles têm de sobra, e que os animais também têm. O critério senciocentrista protege exatamente quem A11 quer proteger, sem precisar transferir propriedades de um indivíduo para outro.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- O que importa é pertencer à mesma espécie dos que têm certas capacidades? Vol. I, cap. 6
- O que é o argumento da sobreposição das espécies? Vol. II, cap. 2
Referências
Os links levam às fontes conferidas na redação deste capítulo.
Filosofia
- The case for the use of animals in biomedical research. New England Journal of Medicine, 315.
- Eating meat and eating people. Philosophy, 53.
- Natural Goodness. Oxford University Press.
- The scope of the argument from species overlap. Journal of Applied Philosophy, 31(2).
- Speciesism and the argument from misfortune. Journal of Applied Philosophy, 15(2).
- The Ethics of Killing.
- Ética e animais: um guia de argumentação filosófica, p. 165-166.
Psicologia
- The moral standing of animals. Journal of Personality and Social Psychology, 116(6).
- The Essential Child; Psychological essentialism.