Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A11

"O normal da espécie humana é ser racional."

A resposta em uma frase

julgar um indivíduo pelo que outros membros de sua espécie têm não é uma razão, é uma troca de sujeito. Se a regra valesse, teríamos de dizer que um bebê anencefálico é inteligente porque humanos são inteligentes. E a mesma regra, aplicada com coerência, condenaria a criação industrial, que impede cada porco de viver o que é normal para um porco.

É a saída mais usada contra o argumento da sobreposição de espécies, citada em A1, A2, A7, A8 e A10

Resposta curta

Trocar o indivíduo pelo grupo não funciona em nenhum outro contexto. Não dizemos que um bebê anencefálico é inteligente porque a espécie humana é inteligente. Não admitimos alguém na universidade pela média da espécie, e sim pela capacidade da pessoa. Esse critério coletivo aparece exatamente uma vez: quando precisamos justificar o que fazemos com os animais.

E há uma volta interessante: se o padrão de cada espécie define o que é devido a seus membros, então o normal para um porco inclui explorar, chafurdar, viver em grupo e cuidar dos filhotes. A criação industrial viola esse padrão todos os dias.

Para crianças

Imagine que sua turma é muito boa em matemática. Isso faz de você bom em matemática, mesmo que você nunca tenha aprendido? Claro que não. Cada pessoa é do jeito que é, e não do jeito que o grupo dela é. Quando alguém diz "esse bebê conta porque humanos são inteligentes", está falando do grupo, e não do bebê. O que protege o bebê é outra coisa: ele sente, como você e como os animais.

Devolva com uma pergunta

"Se o normal da espécie decide, você aceitaria ser julgado pelo que é típico do seu grupo, e não pelo que você é?"

Como pode aparecer

"Mesmo sem falar, ela continua sendo um ser humano."
Conversa cotidiana
"O ser humano é racional por natureza; o animal, não."
Conversa cotidiana
"Uma exceção não muda a regra da espécie."
Conversa cotidiana
"Você está comparando uma pessoa doente com um animal saudável?"
Redes sociais
"Deficiente deixa de ser gente?"
Pergunta retórica
"A racionalidade é relevante no nível do tipo, e não do indivíduo." (Cohen)
Versão acadêmica
"O bem de cada ser é definido pela sua forma de vida."
Versão neoaristotélica
"A dignidade humana não depende do que cada um consegue fazer."
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Um bebê ou uma pessoa com deficiência continuam sendo humanos, e o humano é racional por natureza."

Versão mais forte (steelman). É conhecida como argumento do tipo, ou argumento da norma da espécie. Carl Cohen a resumiu assim: a capacidade de juízo moral "não é um teste a ser aplicado a seres humanos um a um", pois "a questão é de tipo".

  1. P1O tratamento devido a um indivíduo é determinado pelas características normais da sua espécie, e não pelas capacidades que ele mesmo tem.
  2. P2A racionalidade é a característica normal da espécie humana.
  3. P3Nenhuma espécie animal tem a racionalidade como norma.
  4. CTodo humano, inclusive quem não é racional, tem status pleno; nenhum animal tem.

Há uma variante filosoficamente mais refinada, de inspiração aristotélica, associada a Philippa Foot: o que é bom ou ruim para um ser vivo depende da sua forma de vida, e não de um cálculo individual de capacidades. Essa versão é tratada em (d), e aí está uma surpresa: ela funciona melhor a favor dos animais.

O argumento é válido. A solidez falha em P1, que troca o indivíduo pelo grupo, e em P2, que depende de um sentido de "normal" que ninguém consegue fixar sem circularidade.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento faz uma substituição: atribui ao indivíduo as propriedades do grupo. Isso tem um nome em lógica, a falácia da divisão, e um teste simples, formulado por Carlos Naconecy: troque "dignidade moral" por "inteligência" e veja o que acontece.

    FormulaçãoSoa aceitável?
    "Este bebê tem dignidade porque a espécie humana é racional"Muita gente aceita sem estranhar
    "Este bebê é inteligente porque a espécie humana é inteligente"Ninguém aceita

    A única diferença entre as duas frases é a propriedade atribuída. Se a segunda é um erro, a primeira também é, a menos que se explique por que a dignidade seria transferível de um indivíduo para outro e a inteligência não. Essa explicação nunca vem.

    Há ainda a pergunta sobre o que significa "normal". As três leituras possíveis falham:

    Sentido de "normal"Problema
    Estatístico (a maioria dos membros tem)O status moral passaria a depender de proporções demográficas, que mudam
    Teleológico (é a finalidade da espécie)Espécies não têm finalidades; isso é herança pré-darwiniana
    Ideal (o melhor exemplar)Compara indivíduos reais com uma abstração e chama o resultado de razão moral
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. É aplicado uma única vez.

    Usamos capacidades individuais para admitir em universidade, conceder habilitação, definir responsabilidade penal e avaliar consentimento médico. Como observa Naconecy, ninguém aprova um aluno porque a espécie humana sabe álgebra. A norma coletiva aparece só quando precisamos justificar o tratamento dado aos animais.

    2. Julgar o indivíduo pelo grupo é justamente o que condenamos.

    Estereótipos funcionam assim: atribuem a uma pessoa as características atribuídas ao seu grupo. Quando o grupo é racial, nacional ou de gênero, reconhecemos o erro imediatamente.

    3. Espécies não têm essências.

    A biologia evolutiva substituiu o pensamento tipológico pelo pensamento populacional: espécies são populações com variação, não tipos ideais com desvios. A "norma da espécie" é uma média estatística, não uma propriedade que cada indivíduo carrega.

    4. A escolha da norma é circular.

    Por que a norma relevante é a racionalidade, e não a senciência, que também é normal na espécie humana e em muitas outras? Porque a racionalidade produz o resultado desejado. A norma é selecionada depois da conclusão.

    5. A regra, aplicada com coerência, protege os animais.

    Se o que é devido a um indivíduo depende do padrão da sua espécie, então cada animal tem direito ao que é normal para a sua: uma porca constrói ninho antes de parir, uma galinha cisca e se empoleira, um bovino pasta e forma laços sociais estáveis. Gaiolas, celas de gestação e confinamento violam a norma de cada espécie de modo sistemático. O argumento, levado a sério, vira acusação.

    6. E se surgisse uma espécie cuja norma nos superasse?

    Pelo mesmo critério, seus membros teriam status superior ao nosso, inclusive os menos capazes entre eles, e nós ficaríamos na posição dos animais. Quem rejeita essa consequência não acredita mesmo na premissa.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que trazObservação
    Cohen, 1986, NEJM"A capacidade de juízo moral que distingue humanos de animais não é um teste a ser aplicado a seres humanos um a um. A questão é de tipo."Formulação mais citada do argumento
    Naconecy, Ética e animais (2006), p. 165-166Propõe o teste da substituição ("seria correto considerar que bebês anencefálicos são inteligentes porque a espécie humana é inteligente?") e observa que o critério do tipo não é usado, por exemplo, para admissão em universidadeLivro de referência deste guia; a citação de Kaufman (1998) aparece na mesma passagem
    Horta, 2014, sobre a sobreposição de espéciesSistematiza as respostas ao argumento, incluindo a do tipoJournal of Applied Philosophy, 2014
    Biologia evolutiva, pensamento populacionalEspécies são populações com variação contínua, e não tipos com desviosConsenso da biologia desde a síntese moderna; ver o verbete "Species" da Stanford Encyclopedia of Philosophy
    Foot, Natural Goodness (2001)O bem de um ser vivo se avalia pela sua forma de vidaUsada aqui como a versão forte da réplica; Oxford University Press
  4. d

    A melhor réplica: a forma de vida

    A versão mais séria não fala em média estatística. Diz que julgamos seres vivos por sua forma de vida: um cão de três patas é um cão com uma deficiência, e não um animal de três patas perfeitamente normal. Essa é a ideia neoaristotélica de Philippa Foot. Aplicada à moral, sugeriria que devemos a cada ser o respeito devido à sua forma de vida, e que a forma de vida humana, sendo racional, atrai um respeito específico, mesmo quando um indivíduo não exerce essa capacidade.

    Há também uma versão afetiva, associada a Cora Diamond: nossos conceitos morais nascem da ideia de "semelhante", de companheiro de viagem, e não de um cálculo de capacidades. Por isso enterramos nossos mortos e não os comemos, mesmo quando eles nada mais podem perder.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A forma de vida protege os dois lados.

    Se o bem de cada ser depende da sua forma de vida, então impedir uma porca de fazer ninho ou uma galinha de ciscar é dano, pelo mesmo critério. A réplica compra uma proteção para humanos ao preço de uma acusação contra a pecuária industrial.

    Explicar não é justificar.

    Cora Diamond explica por que nossos conceitos morais são assim. Isso não mostra que estão certos, e a própria Diamond usa a ideia de "companheiro de criação" para argumentar contra comer animais, e não a favor.

    Continua sem responder ao caso do indivíduo.

    O que se deve a este ser, que sente dor agora, não pode depender do que outros membros da sua espécie conseguem fazer.

    A versão forte não é a que se usa no debate.

    Na prática, A11 aparece como uma saída de emergência para manter bebês dentro e animais fora, e não como uma teoria sobre o florescimento de cada forma de vida.

    Senciência também é forma de vida.

    Sofrer faz parte da forma de vida de qualquer animal senciente. Se a forma de vida importa, a dor deles importa.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falácia da divisão
Atribui ao indivíduo o que é propriedade do grupo
Petição de princípio
A norma relevante é escolhida depois de saber o resultado desejado
Aplicação seletiva
O critério do tipo só aparece neste debate
Ambiguidade
"Normal" oscila entre estatístico, teleológico e ideal

Epistemológico

A evidência sustenta?

Essencialismo de espécie
Trata espécies como tipos fixos, contra o pensamento populacional
Teleologia residual
Supõe que espécies têm finalidades próprias

Moral

O critério é coerente?

Substituição do sujeito
Decide sobre este ser com base em outros seres
Estereótipo moral
Usa a média do grupo como medida do indivíduo, o que condenamos em outros contextos

Vieses

Essencialismo psicológico

Faz a espécie parecer uma essência interna que cada indivíduo carrega, mesmo sem a capacidade

Medin e Ortony, 1989; Gelman, 2003

Pensamento tipológico

Trata a média como tipo real e os indivíduos como desvios

Contrariado pela biologia populacional

Estereotipagem

Transfere características de grupo para o indivíduo

Mecanismo conhecido em psicologia social

Raciocínio motivado

O critério coletivo é adotado exatamente onde ele salva a conclusão desejada

Literatura geral sobre cognição motivada

Viés de grupo

Reformula a fronteira da espécie com vocabulário técnico

Caviola, Everett e Faber, 2019

Extrapolações

O princípio testado é: "o que vale para um indivíduo é o que é normal na espécie dele".

Se valesse para…Capacidades, e não só dignidadeToque para ver

Teríamos de dizer que um bebê anencefálico é inteligente, porque a espécie humana é inteligente. A propriedade do grupo passaria para o indivíduo em todos os casos, e não apenas quando convém

Teste proposto por Naconecy; ninguém aceita a conclusão

Se valesse para…Seleção e responsabilidadeToque para ver

Universidades admitiriam pela média da espécie e tribunais julgariam pela norma do grupo. Se o tipo decide, a capacidade individual deixa de importar

Fazemos o oposto em todas essas instituições

Se valesse para…Grupos humanosToque para ver

Cada pessoa seria julgada pelo que é típico do seu grupo, e não pelo que ela é. É a estrutura exata do estereótipo

Reconhecemos o erro de imediato quando o grupo é racial, nacional ou de gênero

Se valesse para…Animais de criaçãoToque para ver

Cada animal teria direito ao que é normal para a sua espécie: ninho para a porca, poleiro e banho de areia para a galinha, pasto e vínculos sociais para o bovino

A criação industrial viola essa norma de forma sistemática, o que transforma o argumento em acusação

Se valesse para…Uma espécie mais capaz que a nossaToque para ver

Seus membros teriam status superior ao nosso, inclusive os menos capazes entre eles, e nós ficaríamos na posição dos animais

Quem rejeita a conclusão está rejeitando a premissa

Contradições

Usa capacidades individuais em todo o resto da vida.

Universidade, habilitação, contrato, responsabilidade penal e consentimento médico dependem do que a pessoa consegue, não da média da espécie.

Condena estereótipos.

Julgar uma pessoa pelo que é típico do grupo dela é considerado injusto em qualquer outro contexto.

Reconhece variação quando convém.

A mesma pessoa diz que "cada cão é diferente" e que "tem gente muito mais inteligente que outra".

Não aplica a norma da espécie aos animais.

Se a norma da espécie define o que é devido, o padrão de vida de um porco deveria valer para os porcos. Ninguém que usa A11 defende isso.

Protege a exceção humana e ignora a exceção animal.

Um humano abaixo da norma continua com status pleno; um animal acima da norma da sua espécie, como um cão que aprendeu centenas de palavras, não ganha nada com isso.

O que o argumento acerta

O que é verdade

O argumento nasce de uma preocupação legítima e importante: proteger seres humanos vulneráveis contra qualquer critério que gradue o valor das pessoas por desempenho. Essa preocupação é correta, e o movimento pelos direitos das pessoas com deficiência tem razão de desconfiar de teorias que medem o valor de uma vida pela capacidade cognitiva. Qualquer ética decente precisa blindar esses casos.

Há também algo certo na ideia de forma de vida: faz sentido dizer que um ser está privado de algo que sua espécie normalmente tem, e isso é uma ferramenta útil para avaliar bem-estar.

Mas

O que o argumento não consegue é usar essa preocupação para excluir os animais. A proteção dos humanos vulneráveis não precisa da norma da espécie: ela se apoia na senciência, que eles têm de sobra, e que os animais também têm. O critério senciocentrista protege exatamente quem A11 quer proteger, sem precisar transferir propriedades de um indivíduo para outro.

Conexões

Costuma vir antes

A24 Espécie é biologia, raça é construção socialAs capacidades voltam a ser atribuídas à espécie
A11este argumento

Costuma vir depois

A12 Bebês humanos têm o potencial de ser racionais.Segunda tentativa de proteger os mesmos casos
A13 É natural priorizar os nossos.Terceira tentativa, agora pela via afetiva
A18 O que importa é a espécie, não o indivíduo.Radicaliza o deslocamento do indivíduo para o grupo
A10 São só animais.Quando a norma é desmontada, resta a fronteira nua

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências

Os links levam às fontes conferidas na redação deste capítulo.

Filosofia

Psicologia