Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A18

"O que importa é a espécie, não o indivíduo."

A resposta em uma frase

espécies não sentem, indivíduos sentem. Quem sofre no abatedouro é uma galinha específica, e não a espécie Gallus gallus, que, aliás, nunca esteve tão numerosa. Preocupar-se com a extinção é legítimo, mas não responde à pergunta sobre o que se deve a cada animal: não aceitaríamos que a abundância de humanos tornasse aceitável matar um deles.

Resposta curta

Espécies não sentem dor, indivíduos sentem. Quem sofre no abatedouro é uma galinha específica, e não a espécie. E as galinhas nunca estiveram tão longe da extinção: hoje, cerca de 70% da massa de todas as aves do planeta é de aves de criação. Com humanos, ninguém diz que matar uma pessoa não é problema porque há bilhões de nós.

Para crianças

Existem milhões de crianças no mundo. Isso quer dizer que, se uma criança se machucar, tudo bem, porque ainda tem muitas? Claro que não! Cada criança sente a própria dor. Com as galinhas é igual: existem muitas, mas cada uma sente medo e dor sozinha.

Devolva com uma pergunta

"Se a humanidade não está em extinção, matar uma pessoa deixa de ser um problema?"

Como pode aparecer

"Galinha não está em extinção."
Conversa cotidiana
"Enquanto a espécie existir, tudo bem."
Conversa cotidiana
"Tem boi demais no mundo."
Conversa cotidiana
"Se ninguém comesse, as vacas sumiriam." (que leva a B6)
Redes sociais
"Você vai chorar por uma galinha entre bilhões?"
Pergunta retórica
"Preservamos ecossistemas, não cada bicho."
Versão ambientalista
"O valor moral relevante está nas populações, não nos organismos."
Versão acadêmica
"A caça controla populações." (que é H11)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Galinha não está em extinção. Enquanto a espécie existir, não tem problema."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1O que tem valor na natureza são as espécies e os ecossistemas, não cada organismo.
  2. P2Espécies de criação, como galinhas, porcos e bois, não estão ameaçadas: existem aos bilhões.
  3. CLogo, matar indivíduos dessas espécies não é um problema moral.

P2 é verdadeira. A versão forte se apoia numa visão ambientalista legítima, que valoriza a biodiversidade. O problema está em P1, quando ela é usada para responder a uma pergunta sobre indivíduos.

O argumento é válido. A solidez falha em P1: espécies são categorias, e categorias não podem ser prejudicadas. Quem tem interesses é o indivíduo.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento troca o sujeito da pergunta:

    PerguntaSujeitoQuem pode ser prejudicado
    A espécie está ameaçada?A espécieNinguém, no sentido de sentir: é uma categoria
    É errado matar este animal?O indivíduoO próprio animal

    A preocupação com espécies é uma questão de conservação. A questão do veganismo é sobre o que se faz com cada indivíduo que sente.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Espécies não têm experiências.

    Uma espécie não sente medo, dor nem prazer. Só indivíduos sentem. Dizer que a espécie está bem não diz nada sobre como está cada um de seus membros.

    2. A abundância é criada pela própria exploração.

    As espécies de criação existem em números enormes porque são criadas para serem mortas. Em 2018, um levantamento da biomassa do planeta estimou que os animais de criação somam cerca de 60% da massa de todos os mamíferos, e as aves de criação, cerca de 70% da massa de todas as aves.

    3. Ninguém aplica a regra a humanos.

    A humanidade também não está em extinção. Se a abundância da espécie tornasse aceitável matar indivíduos, o mesmo valeria para nós.

    4. Conservação e ética animal respondem a perguntas diferentes.

    É possível valorizar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que cada animal importa. O erro é usar uma para anular a outra.

    5. A preocupação com a espécie costuma ser seletiva.

    O argumento aparece para defender a criação de espécies abundantes, e raramente para proteger as espécies ameaçadas que a pecuária ajuda a pressionar, por desmatamento e perda de habitat.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Bar-On, Phillips e Milo, 2018, *PNAS*Animais de criação somam cerca de 60% da biomassa de mamíferos, humanos 36% e mamíferos selvagens 4%; aves de criação, cerca de 70% da biomassa de avesPercentuais conferidos em resumos do artigo
    Our World in Data, animais abatidosCerca de 73,8 bilhões de frangos abatidos em 2021Mostra que a espécie não está ameaçada, ao contrário dos indivíduos
  4. d

    A melhor réplica: o valor da natureza é coletivo

    A versão mais séria vem da ética ambiental holística, associada a Aldo Leopold: o que é certo é o que preserva a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. Nessa visão, o indivíduo importa na medida em que contribui para o todo, e o sofrimento de um animal não seria, por si, a questão central.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A pecuária não preserva a comunidade biótica.

    Ela é uma das maiores causas de desmatamento e perda de biodiversidade. Pelo critério holístico, a pecuária seria condenada, e não defendida.

    O holismo puro prova demais.

    Se só o todo importasse, seria aceitável sacrificar humanos em nome do ecossistema. Quase ninguém aceita.

    O ambiente é meio, não fim.

    Preservar ou modificar um ecossistema faz sentido moral na medida em que melhora a vida de seres sencientes reais (veja Além do veganismo).

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Mudança de sujeito
Responde sobre a espécie quando a pergunta é sobre o indivíduo
Falácia da divisão
Atribui ao indivíduo o bem-estar da espécie

Epistemológico

A evidência sustenta?

Categoria tratada como ser
Fala da espécie como se ela pudesse ser prejudicada

Moral

O critério é coerente?

Conceito abstrato acima do indivíduo
Trata seres capazes de sofrer como meios para um fim coletivo

Vieses

Insensibilidade à escala

Bilhões de indivíduos viram uma abstração estatística

Ligado a K1

Vítima identificável

A espécie não tem rosto, e o indivíduo desaparece nela

Literatura sobre o efeito da vítima identificável

Raciocínio motivado

A preocupação com a espécie aparece só onde dispensa a mudança

Literatura geral sobre cognição motivada

Extrapolações

O princípio testado é: "se a espécie não está ameaçada, matar seus indivíduos não é problema".

Se valesse para…HumanosToque para ver

Matar uma pessoa seria aceitável, porque somos bilhões

Ninguém aceita

Se valesse para…CãesToque para ver

Matar cães seria aceitável, porque são muito numerosos

A lei e a moral comum dizem o contrário

Se valesse para…Espécies ameaçadasToque para ver

Só elas teriam proteção, e só enquanto raras

A proteção sumiria quando a espécie se recuperasse

Contradições

Não aplica a regra a humanos.

Ninguém aceita matar uma pessoa porque a humanidade é numerosa.

Lamenta a morte do próprio animal.

A existência de milhões de cães não consola ninguém que perdeu o seu.

Ignora o impacto da pecuária sobre espécies ameaçadas.

A preocupação com a espécie aparece só para as espécies de criação.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A preocupação com espécies e ecossistemas é legítima, e a extinção é uma perda real. A conservação da biodiversidade merece atenção, e há casos em que proteger populações exige decisões difíceis.

Mas

Mas a pergunta sobre o que devemos a cada animal não se resolve olhando para a espécie. Quem sofre é sempre alguém, e não uma categoria. A abundância das galinhas não torna a vida de cada uma menos dela.

Conexões

Costuma vir antes

A10 São só animais.Desloca do indivíduo para a coletividade
A11 O normal da espécie humana é ser racional.Radicaliza o deslocamento do indivíduo para o grupo
A24 Espécie é biologia, raça é construção socialA espécie vira o próprio objeto de valor
A18este argumento

Costuma vir depois

B6 Sem a criação, esses animais nem existiriam.A espécie continua graças à criação
H11 A caça controla populações.Usa o equilíbrio de populações como critério
A10 São só animais.Quando o indivíduo volta ao centro, resta a espécie

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências