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"O que importa é a espécie, não o indivíduo."
espécies não sentem, indivíduos sentem. Quem sofre no abatedouro é uma galinha específica, e não a espécie Gallus gallus, que, aliás, nunca esteve tão numerosa. Preocupar-se com a extinção é legítimo, mas não responde à pergunta sobre o que se deve a cada animal: não aceitaríamos que a abundância de humanos tornasse aceitável matar um deles.
Resposta curta
Espécies não sentem dor, indivíduos sentem. Quem sofre no abatedouro é uma galinha específica, e não a espécie. E as galinhas nunca estiveram tão longe da extinção: hoje, cerca de 70% da massa de todas as aves do planeta é de aves de criação. Com humanos, ninguém diz que matar uma pessoa não é problema porque há bilhões de nós.
Para crianças
Existem milhões de crianças no mundo. Isso quer dizer que, se uma criança se machucar, tudo bem, porque ainda tem muitas? Claro que não! Cada criança sente a própria dor. Com as galinhas é igual: existem muitas, mas cada uma sente medo e dor sozinha.
"Se a humanidade não está em extinção, matar uma pessoa deixa de ser um problema?"
Como pode aparecer
"Galinha não está em extinção."
"Enquanto a espécie existir, tudo bem."
"Tem boi demais no mundo."
"Se ninguém comesse, as vacas sumiriam." (que leva a B6)
"Você vai chorar por uma galinha entre bilhões?"
"Preservamos ecossistemas, não cada bicho."
"O valor moral relevante está nas populações, não nos organismos."
"A caça controla populações." (que é H11)
A versão mais forte
"Galinha não está em extinção. Enquanto a espécie existir, não tem problema."
Versão mais forte (steelman):
- P1O que tem valor na natureza são as espécies e os ecossistemas, não cada organismo.
- P2Espécies de criação, como galinhas, porcos e bois, não estão ameaçadas: existem aos bilhões.
- CLogo, matar indivíduos dessas espécies não é um problema moral.
P2 é verdadeira. A versão forte se apoia numa visão ambientalista legítima, que valoriza a biodiversidade. O problema está em P1, quando ela é usada para responder a uma pergunta sobre indivíduos.
O argumento é válido. A solidez falha em P1: espécies são categorias, e categorias não podem ser prejudicadas. Quem tem interesses é o indivíduo.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento troca o sujeito da pergunta:
Pergunta Sujeito Quem pode ser prejudicado A espécie está ameaçada? A espécie Ninguém, no sentido de sentir: é uma categoria É errado matar este animal? O indivíduo O próprio animal A preocupação com espécies é uma questão de conservação. A questão do veganismo é sobre o que se faz com cada indivíduo que sente.
- b
Onde o argumento quebra
1. Espécies não têm experiências.
Uma espécie não sente medo, dor nem prazer. Só indivíduos sentem. Dizer que a espécie está bem não diz nada sobre como está cada um de seus membros.
2. A abundância é criada pela própria exploração.
As espécies de criação existem em números enormes porque são criadas para serem mortas. Em 2018, um levantamento da biomassa do planeta estimou que os animais de criação somam cerca de 60% da massa de todos os mamíferos, e as aves de criação, cerca de 70% da massa de todas as aves.
3. Ninguém aplica a regra a humanos.
A humanidade também não está em extinção. Se a abundância da espécie tornasse aceitável matar indivíduos, o mesmo valeria para nós.
4. Conservação e ética animal respondem a perguntas diferentes.
É possível valorizar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que cada animal importa. O erro é usar uma para anular a outra.
5. A preocupação com a espécie costuma ser seletiva.
O argumento aparece para defender a criação de espécies abundantes, e raramente para proteger as espécies ameaçadas que a pecuária ajuda a pressionar, por desmatamento e perda de habitat.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Bar-On, Phillips e Milo, 2018, *PNAS* Animais de criação somam cerca de 60% da biomassa de mamíferos, humanos 36% e mamíferos selvagens 4%; aves de criação, cerca de 70% da biomassa de aves Percentuais conferidos em resumos do artigo Our World in Data, animais abatidos Cerca de 73,8 bilhões de frangos abatidos em 2021 Mostra que a espécie não está ameaçada, ao contrário dos indivíduos - d
A melhor réplica: o valor da natureza é coletivo
A versão mais séria vem da ética ambiental holística, associada a Aldo Leopold: o que é certo é o que preserva a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. Nessa visão, o indivíduo importa na medida em que contribui para o todo, e o sofrimento de um animal não seria, por si, a questão central.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
A pecuária não preserva a comunidade biótica.
Ela é uma das maiores causas de desmatamento e perda de biodiversidade. Pelo critério holístico, a pecuária seria condenada, e não defendida.
O holismo puro prova demais.
Se só o todo importasse, seria aceitável sacrificar humanos em nome do ecossistema. Quase ninguém aceita.
O ambiente é meio, não fim.
Preservar ou modificar um ecossistema faz sentido moral na medida em que melhora a vida de seres sencientes reais (veja Além do veganismo).
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de sujeito
Falácia da divisão
Epistemológico
A evidência sustenta?
Categoria tratada como ser
Moral
O critério é coerente?
Conceito abstrato acima do indivíduo
Vieses
Vítima identificável
A espécie não tem rosto, e o indivíduo desaparece nela
Literatura sobre o efeito da vítima identificável
Raciocínio motivado
A preocupação com a espécie aparece só onde dispensa a mudança
Literatura geral sobre cognição motivada
Extrapolações
O princípio testado é: "se a espécie não está ameaçada, matar seus indivíduos não é problema".
Se valesse para…HumanosToque para ver
Matar uma pessoa seria aceitável, porque somos bilhões
Ninguém aceita
Se valesse para…CãesToque para ver
Matar cães seria aceitável, porque são muito numerosos
A lei e a moral comum dizem o contrário
Se valesse para…Espécies ameaçadasToque para ver
Só elas teriam proteção, e só enquanto raras
A proteção sumiria quando a espécie se recuperasse
Contradições
Ninguém aceita matar uma pessoa porque a humanidade é numerosa.
A existência de milhões de cães não consola ninguém que perdeu o seu.
A preocupação com a espécie aparece só para as espécies de criação.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A preocupação com espécies e ecossistemas é legítima, e a extinção é uma perda real. A conservação da biodiversidade merece atenção, e há casos em que proteger populações exige decisões difíceis.
Mas
Mas a pergunta sobre o que devemos a cada animal não se resolve olhando para a espécie. Quem sofre é sempre alguém, e não uma categoria. A abundância das galinhas não torna a vida de cada uma menos dela.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Espécies possuem interesses? Vol. VI, cap. 13
- Questionando os pressupostos ambientalistas Vol. V, cap. 10
Referências
Ciência
- The biomass distribution on Earth. *PNAS*, 115(25).
- How many animals get slaughtered every day? *Our World in Data*.
Filosofia
- A Sand County Almanac, ensaio "A ética da terra".