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"Humanos são superiores, então podemos usar os inferiores."
ser superior em algumas capacidades não dá a ninguém o direito de usar quem as tem em menor grau. O argumento confunde descrição com valor, escolhe como medida justamente os traços em que humanos se destacam e, levado a sério, autorizaria a exploração de humanos "inferiores" e a nossa por qualquer ser "superior".
Resposta curta
Superior em quê? Voamos pior que andorinhas e farejamos pior que cães. "Superior" só faz sentido em relação a uma medida, e escolher como medida as capacidades em que humanos se destacam é decidir o resultado antes da disputa. Mesmo que fôssemos superiores em tudo, isso não daria direito de usar ninguém: um adulto supera uma criança em quase tudo, e é exatamente por isso que deve protegê-la.
Para crianças
Você é maior e mais forte que uma criança pequena. Isso te dá o direito de pegar o lanche dela ou de empurrá-la? Não! Quem é maior e sabe mais tem mais responsabilidade de cuidar, e não mais permissão para machucar. Com os animais é igual: nós sabemos muito mais coisas que uma galinha, e é justamente por isso que podemos escolher não fazê-la sofrer.
"Se chegasse à Terra uma espécie muito superior a nós, ela teria o direito de nos criar para comer?"
Como pode aparecer
"Somos a espécie dominante."
"O ser humano é o rei da criação."
"Estamos acima deles, é simples."
"Se os animais fossem superiores, eles nos comeriam."
"Humanos foram à Lua. Galinhas não."
"Você acha que uma vaca vale o mesmo que uma pessoa?"
"Deus nos fez à Sua imagem e semelhança."
"Somos o ápice da evolução."
"Quem pode mais, manda."
"O status moral vem em graus, e os interesses de pessoas pesam mais que os de outros animais."
"Não digo que animais não importam, só que humanos importam mais." (verdadeiro ou falso, não autoriza o uso)
A versão mais forte
"Humanos são superiores, então podemos usar os animais."
Versão mais forte (steelman):
- P1Humanos são superiores aos outros animais em inteligência, linguagem, cultura, tecnologia e moralidade.
- P2Seres superiores têm valor moral maior que seres inferiores.
- P3Se um ser tem valor moral muito maior, pode usar seres de valor muito menor para seus fins.
- CLogo, humanos podem usar os outros animais.
O argumento circula em três variantes, que o capítulo trata juntas:
- Teológica:o ser humano é o topo da criação, feito à imagem de Deus (desenvolvida em D4).
- Do poder:podemos porque temos poder para isso, o que ecoa a tese de Trasímaco na República de Platão, de que a justiça é a vantagem do mais forte (desenvolvida em C6).
- Acadêmica:o status moral vem em graus, conforme as capacidades de cada ser, e os interesses de quem tem status maior pesam mais. É a visão hierárquica defendida por Shelly Kagan (2019), a versão filosoficamente mais séria.
O argumento é válido. Os problemas estão na solidez: P1 é ambígua e parcialmente falsa, P2 não é justificada e P3 não se segue nem mesmo se P2 for aceita.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento depende de uma palavra que muda de sentido no meio do caminho. "Superior" pode ser descritivo (ter mais de uma capacidade X) ou valorativo (valer mais). A passagem de um sentido para o outro é exatamente o que precisaria ser demonstrado, e não é.
Sentido de "superior" O que acontece com P1 O que acontece com P2 Descritivo: tem mais da capacidade X Verdadeira para alguns traços e falsa para outros Não se segue: ser melhor em matemática não faz a dor de alguém contar mais Valorativo: vale mais Já é a própria conclusão P1 passa a pressupor o que o argumento deveria provar (petição de princípio) Há ainda uma falácia da divisão escondida: mesmo que a espécie humana, em média, superasse as outras em certas capacidades, isso não faria cada humano superior a cada animal. Um recém-nascido humano não supera um chimpanzé adulto em nenhuma das capacidades listadas em P1.
- b
Onde o argumento quebra
1. "Superior" só existe em relação a uma medida (P1).
Cães têm olfato muito mais sensível que o nosso, morcegos se orientam por ecolocalização, aves migratórias navegam por milhares de quilômetros, abelhas enxergam o ultravioleta. Nenhuma dessas capacidades entra na lista de P1, e a razão é simples: a lista foi feita com os traços em que humanos se destacam. É como declarar peixes superiores a pássaros usando o nado como critério.
A ideia de uma escada da natureza, com o ser humano no topo, vem da scala naturae da filosofia antiga e medieval, não da biologia. Na teoria da evolução, todas as espécies vivas são ramos de uma mesma árvore, com a mesma história evolutiva desde o ancestral comum, e nenhuma é o "ápice". Darwin teria anotado para si mesmo que nunca usasse as palavras "superior" e "inferior" ao falar de espécies.
2. Superioridade de capacidades não gera superioridade de valor (P2).
Entre humanos, rejeitamos essa passagem sem hesitar: ninguém aceita que uma pessoa com doutorado tenha mais direito de não ser torturada que alguém que mal sabe ler. O princípio da igual consideração de interesses explica por quê: o peso de uma dor depende da dor, e não das outras habilidades de quem a sente. Capacidades diferentes podem mudar o que prejudica um ser (ver A1, bloco 11), mas não decidem se o prejuízo conta.
3. Poder não é direito (P3).
Na República, Trasímaco defende que a justiça é a vantagem do mais forte. Boa parte da história da ética pode ser lida como resposta a essa tese, e boa parte do progresso moral consistiu em limitar o poder dos mais fortes sobre os mais vulneráveis: pessoas escravizadas, mulheres, crianças, pessoas com deficiência. Há também uma inversão no argumento: as capacidades que P1 celebra, como a reflexão moral, são justamente o que nos torna agentes morais, capazes de ter deveres. Um leão não pode escolher não matar; nós podemos. A superioridade invocada gera responsabilidade, não licença.
4. Mesmo uma hierarquia moral não autoriza a exploração real.
Suponha, para argumentar, que interesses humanos pesem mais. Uma hierarquia ajusta pesos, não zera interesses. Para justificar a prática atual seria preciso que o sofrimento prolongado e a morte de um animal pesassem menos que o prazer de uma refeição que tem substitutos, repetido bilhões de vezes por ano. O próprio Kagan, principal defensor filosófico da hierarquia, conclui que nosso tratamento atual dos animais é uma atrocidade moral que precisa acabar.
- c
Dados e fontes
Achado Fonte Confiabilidade Uso no argumento Em cinco estudos, o especismo se correlacionou com racismo, sexismo, homofobia, orientação à dominância social e justificação do sistema; as pessoas desvalorizaram certas espécies mesmo controlando o que pensavam sobre sua inteligência e senciência Caviola, Everett e Faber, 2019 Moderada a alta (escala validada; dados correlacionais) Mostra que a "superioridade" costuma ser racionalização, e não conclusão tirada das capacidades Quem acredita numa divisão rígida entre humanos e animais tende a desumanizar mais os imigrantes; textos que enfatizavam a semelhança entre humanos e animais aumentaram a humanização de imigrantes, inclusive entre pessoas muito preconceituosas Costello e Hodson, 2010 Moderada (inclui experimento) Liga a hierarquia humano-animal à hierarquia entre humanos Filósofo que defende hierarquia de status moral conclui que o tratamento atual dos animais é uma atrocidade Kagan, 2019; resenha de Sebo, 2019 Fonte filosófica, não empírica A melhor versão da premissa P2 não sustenta a conclusão Chimpanzé jovem (Ayumu) superaria humanos em memória de trabalho Inoue e Matsuzawa, 2007 Baixa: humanos com treino igualaram ou superaram o desempenho (Cook e Wilson, 2010) Não usar como prova. Exemplo de dado popular entre defensores dos animais que não se sustentou - d
A melhor réplica: a hierarquia de status moral
A versão mais sofisticada abandona o "podemos porque podemos" e propõe uma hierarquia gradual. Para Shelly Kagan (2019), o status moral vem em graus e depende das capacidades de cada ser, sobretudo a capacidade de bem-estar e a de agir por razões. Os interesses de um ser com status maior pesam mais. Para não rebaixar bebês e pessoas com deficiência intelectual profunda, Kagan recorre à personalidade modal: esses humanos manteriam status elevado porque poderiam ter sido, ou vir a ser, pessoas plenas.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Não autoriza a exploração.
Uma hierarquia pondera interesses; não os apaga. Seu próprio autor chama o tratamento atual dos animais de atrocidade moral.
A personalidade modal é um remendo ad hoc.
O remendo revela o problema.
Sem ele, a visão hierárquica ordenaria humanos por capacidade. Ter de criar uma exceção especial para evitar essa consequência é sinal de que o princípio de base falha no teste da parcimônia.
As intuições usadas como dados são enviesadas.
Jeff Sebo (2019) observa que a hierarquia se apoia em intuições sobre casos, e essas intuições são moldadas por preferência pela própria espécie e por conveniência. O estudo de Caviola e colegas reforça o ponto: as pessoas desvalorizam espécies mesmo quando se controla o que pensam sobre suas capacidades.
A resposta senciocentrista permanece.
O que funda a inclusão moral é haver alguém para quem as coisas importam. A complexidade de uma mente pode mudar o que a prejudica, mas não torna seu sofrimento descontável.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Equivocação
Petição de princípio
Falácia da divisão
Non sequitur
Lei de Hume
Epistemológico
A evidência sustenta?
Progressivismo evolutivo
Evidência seletiva
Intuições enviesadas como dados
Moral
O critério é coerente?
Poder como direito
Inversão da responsabilidade
Violação da igual consideração
Vieses
Orientação à dominância social
Preferência por hierarquias entre grupos, aplicada também entre espécies
Associada ao especismo (Caviola et al., 2019) e à rejeição da semelhança humano-animal (Costello e Hodson, 2010)
Justificação do sistema
Leva a ver a ordem existente como natural e merecida
Correlacionada com especismo (Caviola et al., 2019)
Viés de autofavorecimento
A medida de superioridade é escolhida para favorecer o próprio grupo
Padrão bem documentado em julgamentos sobre o próprio grupo
Viés de grupo
Amplia a distância entre "nós" e "eles"
Base comum de especismo e preconceitos entre humanos (Caviola et al., 2019)
Excepcionalismo humano
Leva a ver humanos como fora da natureza, não como parte dela
Contradito pela biologia evolutiva
Pensamento de escada (scala naturae)
Leva a imaginar as espécies ordenadas numa escada com topo
Ideia pré-darwiniana que persiste no senso comum
Extrapolações
O princípio testado é: "quem é superior em capacidades vale mais e pode usar quem é inferior".
Se valesse para…Hierarquias entre humanosToque para ver
Humanos com mais capacidades poderiam usar humanos com menos. Como inteligência, instrução e habilidade variam em grau, haveria uma escala de valor entre pessoas: alguém com doutorado estaria acima de alguém que mal sabe ler, e seus interesses prevaleceriam em qualquer conflito
O racismo científico dos séculos XIX e XX tentou exatamente isso, medindo crânios para "provar" a superioridade de alguns grupos (Gould, 1981)
Se valesse para…CriançasToque para ver
Adultos poderiam usar crianças para seus fins. Um adulto supera uma criança pequena em força, conhecimento, linguagem e planejamento; se superioridade gera direito de uso, essa diferença bastaria
Aceitamos o oposto: quanto maior a diferença de poder, maior o dever de proteção
Se valesse para…Pessoas com deficiênciaToque para ver
Teriam menos valor que as demais. Se o valor acompanha as capacidades, quem tem capacidades reduzidas vale menos, e sua vida pode ser sacrificada em favor de quem tem mais
Foi o raciocínio do programa nazista Aktion T4, que matou pessoas com deficiência classificadas como "vidas indignas de serem vividas"
Se valesse para…Povos com menos tecnologiaToque para ver
Povos tecnologicamente mais avançados poderiam dominar os demais. Tecnologia é uma das "provas" de superioridade citadas em P1
O colonialismo justificou-se como "missão civilizatória" com base nessa ideia
Se valesse para…Uma espécie ou inteligência artificial superiorToque para ver
Poderia criar humanos para consumo ou experimentos. A distância entre ela e nós justificaria o mesmo tratamento que damos aos animais, e não teríamos do que reclamar
Quem responde "mas nós sentimos e sofremos" está apelando à senciência
Contradições
A mesma pessoa que diz "somos superiores, logo podemos usar" não aceita que quem tem mais estudo ou inteligência possa usar quem tem menos.
Repudia o abuso de crianças, a exploração de trabalhadores e o assédio de quem tem menos poder, mas aplica aos animais exatamente o princípio que condena nesses casos.
Se o que nos torna superiores é a capacidade moral, essa superioridade deveria se traduzir em comportamento melhor, e não em licença para causar sofrimento desnecessário, algo que a própria pessoa diz condenar.
Se a superioridade dá direito de uso, uma espécie superior teria direito de nos usar. Quase ninguém aceita isso.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Humanos têm, de fato, capacidades únicas ou muito mais desenvolvidas que as de outros animais: linguagem com gramática recursiva, ciência, cultura acumulada ao longo de gerações, reflexão moral. Negar isso seria desonesto e enfraqueceria o guia. Essas capacidades também importam moralmente: tornam humanos responsáveis por seus atos e podem tornar certas perdas mais graves, como a de projetos de vida de longo prazo. Em conflitos trágicos e raros, uma ponderação que leve isso em conta pode ser defensável.
Mas
O argumento erra ao transformar essas capacidades em licença. A reflexão moral que nos distingue é exatamente o que nos permite reconhecer o sofrimento de outros seres e escolher não causá-lo. A superioridade que o argumento invoca é, no fim, a melhor razão contra ele.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- O apelo a graus diferenciados de status moral Vol. I, cap. 14
Referências
Os links levam às fontes conferidas na redação deste capítulo.
Filosofia
- How to Count Animals, more or less. Oxford University Press.
- A República, livro I (tese de Trasímaco).
- Resenha de How to Count Animals, more or less.
- Animal Liberation.
História e biologia
- On the Origin of Species.
- The Mismeasure of Man. W. W. Norton. (Ed. bras.: A Falsa Medida do Homem.)
Psicologia
- The moral standing of animals: towards a psychology of speciesism. Journal of Personality and Social Psychology, 116(6).
- Do young chimpanzees have extraordinary working memory? Psychonomic Bulletin & Review, 17(4).
- Exploring the roots of dehumanization: the role of animal-human similarity in promoting immigrant humanization. Group Processes & Intergroup Relations, 13(1).
- Working memory of numerals in chimpanzees. Current Biology, 17(23).