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"É natural priorizar os nossos."
a parcialidade permite preferir, não permite explorar. Podemos salvar primeiro o próprio filho num incêndio, mas isso não nos autoriza a ferir o filho do vizinho para o nosso ter um lanche. O argumento troca um caso de conflito trágico, em que só um pode ser salvo, por uma prática cotidiana em que não há conflito nenhum: comer animais não salva nenhum humano.
Resposta curta
Ter preferência pelos nossos é normal e legítimo em conflitos reais: num incêndio, posso salvar meu filho antes de um desconhecido. Mas preferir não é o mesmo que poder explorar. Ninguém acha que amar o próprio filho autoriza ferir o filho do vizinho. E comer animais não é um conflito trágico: nenhum humano é salvo quando alguém escolhe frango em vez de feijão.
Para crianças
Todo mundo gosta mais da própria família, e isso é bom. Se a sua mãe e uma pessoa desconhecida precisassem de ajuda ao mesmo tempo, você ajudaria a sua mãe primeiro. Mas gostar mais da sua família não deixa você machucar a família dos outros. Com os animais é igual: gostar mais das pessoas não deixa ninguém machucar um porquinho só porque ele não é da nossa família.
"Amar a própria família te autoriza a machucar a família dos outros?"
Como pode aparecer
"Primeiro minha família, depois o resto."
"Espécie é família."
"É natural proteger os nossos."
"Prefiro salvar uma criança a mil vacas."
"Você salvaria seu filho ou um porco?" (que é F2)
"Primeiro os humanos."
"Relações especiais geram deveres especiais, e a humanidade é uma delas."
"Cada um cuida dos seus."
A versão mais forte
"Primeiro a minha família, depois o resto. É natural cuidar dos nossos antes."
Versão mais forte (steelman):
- P1Temos deveres especiais com quem está próximo de nós: família, amigos, comunidade.
- P2A espécie é a nossa comunidade mais ampla, e a solidariedade entre humanos é um desses vínculos especiais.
- P3Quem tem vínculo especial conosco pode receber prioridade sobre quem não tem.
- CLogo, podemos priorizar os interesses humanos sobre os dos animais.
P1 é verdadeira, e a filosofia moral a leva a sério: uma ética que exigisse indiferença total entre o próprio filho e um desconhecido seria irreal. O problema está em P2 e, sobretudo, no que a conclusão autoriza.
O argumento é válido se a conclusão for "podemos dar prioridade em conflitos". Ele falha quando a conclusão vira "podemos usar os de fora como quisermos", que é o que a prática exige.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento junta duas coisas diferentes:
O que a parcialidade permite O que a parcialidade não permite Dar prioridade aos próximos quando não dá para ajudar todos Causar dano aos de fora para obter um benefício menor Dedicar mais tempo e recursos a quem amamos Tratar os de fora como recursos Salvar primeiro o próprio filho num incêndio Ferir o filho do vizinho para o nosso brincar A prioridade vale em situações de conflito trágico, em que só um pode ser ajudado. O consumo de animais não é uma delas: o que está de um lado é a vida do animal, e do outro uma preferência de cardápio.
- b
Onde o argumento quebra
1. Preferir não é explorar.
A parcialidade é uma permissão para favorecer os próximos, não uma licença para prejudicar os distantes. Pais que amam os filhos não ganham, por isso, o direito de agredir outras crianças.
2. Não há conflito.
Comer animais não salva nenhum humano. A comparação com o incêndio, em que só um pode ser salvo, não descreve uma escolha de supermercado (F2).
3. A espécie não é uma família.
Vínculos especiais nascem de relações reais: convivência, cuidado, dependência. A espécie é uma categoria biológica que reúne bilhões de desconhecidos. Muita gente tem com o próprio cão um vínculo mais forte do que com qualquer humano de outro continente.
4. A mesma lógica já justificou o pior.
"Primeiro os nossos" foi usado para justificar a exclusão de estrangeiros, de outras etnias e de outros grupos. O círculo dos "nossos" sempre foi traçado por quem estava dentro dele.
5. O argumento concede o essencial.
Se os animais precisam ser postos "depois", então eles estão na fila. Isso já é admitir que seus interesses contam, e a questão passa a ser como pesá-los, não se podem ser ignorados.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Caviola, Everett e Faber, 2019 O especismo, medido por escala própria, se correlaciona com racismo, sexismo e orientação à dominância social Mostra que "primeiro os nossos" tem a mesma estrutura de outras preferências de grupo Williams, "Persons, Character and Morality", em *Moral Luck* (1981) Defende que relações pessoais justificam parcialidade, com o exemplo de salvar a própria esposa Base filosófica da versão forte; o exemplo da esposa é resumido no verbete "Impartiality" da Stanford Encyclopedia of Philosophy - d
A melhor réplica: comunidade moral humana
A versão mais séria não fala de família. Diz que a moral nasceu entre humanos, para regular a vida em comum, e que é razoável que os membros dessa comunidade tenham deveres mais fortes entre si. Os animais ficariam protegidos por deveres mais fracos, mas não teriam a mesma prioridade.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Deveres mais fracos ainda são deveres.
Mesmo nessa visão, causar sofrimento e morte por um prazer de paladar não passa pelo filtro mínimo.
A comunidade moral sempre se expandiu.
Ela já excluiu mulheres, estrangeiros e pessoas escravizadas, e cada expansão foi reconhecida depois como correção (A9).
Quem não pode participar já está protegido.
Bebês e pessoas com deficiência cognitiva profunda não participam de acordo nenhum, e ninguém aceita deixá-los com deveres "mais fracos" (A7).
Prioridade em conflito não é o caso em discussão.
Mesmo concedida, ela não se aplica a uma prática sem conflito.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de questão
Falsa analogia
Epistemológico
A evidência sustenta?
Categoria tratada como vínculo
Moral
O critério é coerente?
Parcialidade como licença
Círculo traçado por quem está dentro
Vieses
Proximidade afetiva
O que está perto pesa mais, independentemente da gravidade
Literatura sobre o efeito da vítima identificável
Extrapolações
O princípio testado é: "quem é dos nossos pode usar quem não é para benefícios menores".
Se valesse para…FamíliasToque para ver
Pais poderiam ferir filhos alheios em benefício dos próprios
Ninguém aceita
Se valesse para…NaçõesToque para ver
Estrangeiros poderiam ser explorados pelos nacionais
É a lógica do colonialismo
Se valesse para…Grupos étnicosToque para ver
O grupo majoritário poderia usar os demais
Reconhecido como racismo
Se valesse para…EspéciesToque para ver
Uma espécie mais forte poderia nos usar
Quem rejeita isso rejeita a premissa
Contradições
Amar os filhos nunca justificou ferir os filhos do vizinho.
O vínculo real não segue a fronteira da espécie.
A mesma frase, aplicada a nacionalidade ou etnia, é reconhecida como preconceito.
Ninguém deixa de ajudar um humano por não comer carne.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A parcialidade é parte legítima da vida moral. Amar mais a própria família, cuidar primeiro de quem está perto e dar prioridade aos próximos em conflitos reais são coisas que qualquer ética razoável precisa acomodar.
Mas
Mas a parcialidade só autoriza preferir quando não dá para ajudar todos. Ela nunca autorizou prejudicar quem está fora do círculo para ganhos menores. Os animais podem não ser da nossa família, e isso não nos dá o direito de tratá-los como comida.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
Referências
Filosofia
- Persons, Character and Morality, em Moral Luck.
- The Expanding Circle.