Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A13

"É natural priorizar os nossos."

A resposta em uma frase

a parcialidade permite preferir, não permite explorar. Podemos salvar primeiro o próprio filho num incêndio, mas isso não nos autoriza a ferir o filho do vizinho para o nosso ter um lanche. O argumento troca um caso de conflito trágico, em que só um pode ser salvo, por uma prática cotidiana em que não há conflito nenhum: comer animais não salva nenhum humano.

Resposta curta

Ter preferência pelos nossos é normal e legítimo em conflitos reais: num incêndio, posso salvar meu filho antes de um desconhecido. Mas preferir não é o mesmo que poder explorar. Ninguém acha que amar o próprio filho autoriza ferir o filho do vizinho. E comer animais não é um conflito trágico: nenhum humano é salvo quando alguém escolhe frango em vez de feijão.

Para crianças

Todo mundo gosta mais da própria família, e isso é bom. Se a sua mãe e uma pessoa desconhecida precisassem de ajuda ao mesmo tempo, você ajudaria a sua mãe primeiro. Mas gostar mais da sua família não deixa você machucar a família dos outros. Com os animais é igual: gostar mais das pessoas não deixa ninguém machucar um porquinho só porque ele não é da nossa família.

Devolva com uma pergunta

"Amar a própria família te autoriza a machucar a família dos outros?"

Como pode aparecer

"Primeiro minha família, depois o resto."
Conversa cotidiana
"Espécie é família."
Conversa cotidiana
"É natural proteger os nossos."
Conversa cotidiana
"Prefiro salvar uma criança a mil vacas."
Redes sociais
"Você salvaria seu filho ou um porco?" (que é F2)
Pergunta retórica
"Primeiro os humanos."
Versão política
"Relações especiais geram deveres especiais, e a humanidade é uma delas."
Versão acadêmica
"Cada um cuida dos seus."
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Primeiro a minha família, depois o resto. É natural cuidar dos nossos antes."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Temos deveres especiais com quem está próximo de nós: família, amigos, comunidade.
  2. P2A espécie é a nossa comunidade mais ampla, e a solidariedade entre humanos é um desses vínculos especiais.
  3. P3Quem tem vínculo especial conosco pode receber prioridade sobre quem não tem.
  4. CLogo, podemos priorizar os interesses humanos sobre os dos animais.

P1 é verdadeira, e a filosofia moral a leva a sério: uma ética que exigisse indiferença total entre o próprio filho e um desconhecido seria irreal. O problema está em P2 e, sobretudo, no que a conclusão autoriza.

O argumento é válido se a conclusão for "podemos dar prioridade em conflitos". Ele falha quando a conclusão vira "podemos usar os de fora como quisermos", que é o que a prática exige.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento junta duas coisas diferentes:

    O que a parcialidade permiteO que a parcialidade não permite
    Dar prioridade aos próximos quando não dá para ajudar todosCausar dano aos de fora para obter um benefício menor
    Dedicar mais tempo e recursos a quem amamosTratar os de fora como recursos
    Salvar primeiro o próprio filho num incêndioFerir o filho do vizinho para o nosso brincar

    A prioridade vale em situações de conflito trágico, em que só um pode ser ajudado. O consumo de animais não é uma delas: o que está de um lado é a vida do animal, e do outro uma preferência de cardápio.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Preferir não é explorar.

    A parcialidade é uma permissão para favorecer os próximos, não uma licença para prejudicar os distantes. Pais que amam os filhos não ganham, por isso, o direito de agredir outras crianças.

    2. Não há conflito.

    Comer animais não salva nenhum humano. A comparação com o incêndio, em que só um pode ser salvo, não descreve uma escolha de supermercado (F2).

    3. A espécie não é uma família.

    Vínculos especiais nascem de relações reais: convivência, cuidado, dependência. A espécie é uma categoria biológica que reúne bilhões de desconhecidos. Muita gente tem com o próprio cão um vínculo mais forte do que com qualquer humano de outro continente.

    4. A mesma lógica já justificou o pior.

    "Primeiro os nossos" foi usado para justificar a exclusão de estrangeiros, de outras etnias e de outros grupos. O círculo dos "nossos" sempre foi traçado por quem estava dentro dele.

    5. O argumento concede o essencial.

    Se os animais precisam ser postos "depois", então eles estão na fila. Isso já é admitir que seus interesses contam, e a questão passa a ser como pesá-los, não se podem ser ignorados.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Caviola, Everett e Faber, 2019O especismo, medido por escala própria, se correlaciona com racismo, sexismo e orientação à dominância socialMostra que "primeiro os nossos" tem a mesma estrutura de outras preferências de grupo
    Williams, "Persons, Character and Morality", em *Moral Luck* (1981)Defende que relações pessoais justificam parcialidade, com o exemplo de salvar a própria esposaBase filosófica da versão forte; o exemplo da esposa é resumido no verbete "Impartiality" da Stanford Encyclopedia of Philosophy
  4. d

    A melhor réplica: comunidade moral humana

    A versão mais séria não fala de família. Diz que a moral nasceu entre humanos, para regular a vida em comum, e que é razoável que os membros dessa comunidade tenham deveres mais fortes entre si. Os animais ficariam protegidos por deveres mais fracos, mas não teriam a mesma prioridade.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Deveres mais fracos ainda são deveres.

    Mesmo nessa visão, causar sofrimento e morte por um prazer de paladar não passa pelo filtro mínimo.

    A comunidade moral sempre se expandiu.

    Ela já excluiu mulheres, estrangeiros e pessoas escravizadas, e cada expansão foi reconhecida depois como correção (A9).

    Quem não pode participar já está protegido.

    Bebês e pessoas com deficiência cognitiva profunda não participam de acordo nenhum, e ninguém aceita deixá-los com deveres "mais fracos" (A7).

    Prioridade em conflito não é o caso em discussão.

    Mesmo concedida, ela não se aplica a uma prática sem conflito.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Mudança de questão
Troca "posso explorar?" por "posso preferir?"
Falsa analogia
Compara uma escolha de cardápio com um conflito trágico

Epistemológico

A evidência sustenta?

Categoria tratada como vínculo
Trata a espécie como se fosse uma família

Moral

O critério é coerente?

Parcialidade como licença
Usa a permissão de favorecer como permissão de prejudicar
Círculo traçado por quem está dentro
Define "os nossos" de modo a excluir quem é usado

Vieses

Viés de grupo

Valorizar os "nossos" e descontar os de fora

Caviola, Everett e Faber, 2019

Proximidade afetiva

O que está perto pesa mais, independentemente da gravidade

Literatura sobre o efeito da vítima identificável

Racionalização pelos 4Ns

A prioridade humana funciona como justificativa pronta

Piazza et al., 2015

Extrapolações

O princípio testado é: "quem é dos nossos pode usar quem não é para benefícios menores".

Se valesse para…FamíliasToque para ver

Pais poderiam ferir filhos alheios em benefício dos próprios

Ninguém aceita

Se valesse para…NaçõesToque para ver

Estrangeiros poderiam ser explorados pelos nacionais

É a lógica do colonialismo

Se valesse para…Grupos étnicosToque para ver

O grupo majoritário poderia usar os demais

Reconhecido como racismo

Se valesse para…EspéciesToque para ver

Uma espécie mais forte poderia nos usar

Quem rejeita isso rejeita a premissa

Contradições

Não aceita que a família autorize agredir outros.

Amar os filhos nunca justificou ferir os filhos do vizinho.

Ama o próprio cão mais que desconhecidos.

O vínculo real não segue a fronteira da espécie.

Condena o "primeiro os nossos" entre humanos.

A mesma frase, aplicada a nacionalidade ou etnia, é reconhecida como preconceito.

Prioriza sem que haja conflito.

Ninguém deixa de ajudar um humano por não comer carne.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A parcialidade é parte legítima da vida moral. Amar mais a própria família, cuidar primeiro de quem está perto e dar prioridade aos próximos em conflitos reais são coisas que qualquer ética razoável precisa acomodar.

Mas

Mas a parcialidade só autoriza preferir quando não dá para ajudar todos. Ela nunca autorizou prejudicar quem está fora do círculo para ganhos menores. Os animais podem não ser da nossa família, e isso não nos dá o direito de tratá-los como comida.

Conexões

Costuma vir antes

A10 São só animais.Troca o critério pela parcialidade afetiva
A7 Quem não tem deveres não tem direitos.Troca contrato por laço afetivo
A13este argumento

Costuma vir depois

F2 Se um cão e uma criança se afogassem, quem você salvaria?A preferência vira um dilema de vida ou morte
J6 Há problemas humanos mais importantes.A prioridade vira uma fila de causas
L6 Veganos se importam mais com animais que com humanos.Acusa quem não prioriza do mesmo jeito

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências