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"Eu respeito os animais, mas os humanos vêm primeiro"
dizer que os humanos vêm primeiro em qualquer conflito é atribuir a eles um status especial, uma espécie de carta trunfo, que vale mesmo quando o dano para o animal é muito maior. Ninguém explica de onde vem esse trunfo, e ele não passaria no teste da imparcialidade: se você não soubesse se nasceria humano ou animal, não aceitaria uma regra que ignora o seu sofrimento só por causa da espécie. O peso de um interesse deve depender do tamanho do dano, não de quem o sofre.
Resposta curta
"Vir primeiro" pode querer dizer duas coisas. Se for "o dano maior tem prioridade", concordo, e quase sempre o dano maior está do lado do animal: um prato de carne contra uma vida inteira. Se for "o humano ganha mesmo quando perde menos", aí é um trunfo que ninguém explica. Você aceitaria essa regra se não soubesse se ia nascer humano ou galinha?
Para crianças
Imagine que, antes de nascer, você não soubesse se ia ser uma criança ou um cachorro. E que alguém dissesse: "As crianças sempre vêm primeiro, mesmo que o cachorro sofra muito e a criança só perca um docinho." Você ia achar essa regra justa, sabendo que podia nascer cachorro? Gostar dos animais é bom. Mas gostar de verdade é não deixar que eles sofram muito para a gente ganhar pouco.
"Vir primeiro significa que o humano ganha até quando o que está em jogo para ele é só o sabor de uma refeição?"
Como pode aparecer
"Eu respeito os animais, só acho que os humanos vêm primeiro."
"A vida humana vale mais."
"Humanos têm dignidade, animais não."
"Animal é importante, mas não é gente."
"Humanos têm status moral pleno; animais, um status moral parcial."
"Há problemas humanos mais importantes." (que é J6)
"Humanos são superiores, então podemos usar os inferiores." (que é A2)
A versão mais forte
"Eu gosto de animais, não sou contra eles. Só acho que, quando tem que escolher, os humanos vêm primeiro."
Versão mais forte (steelman):
- P1Os animais têm algum valor moral: não se deve fazê-los sofrer sem motivo.
- P2Os humanos têm um status moral superior, a dignidade, que os animais não têm.
- P3Quem tem status superior deve ser priorizado em conflitos de interesse, mesmo quando perderia menos do que o outro.
- CLogo, é aceitável usar animais em benefício dos humanos.
Na filosofia, essa posição é chamada de tese do status especial. Ela tem uma versão total (o humano sempre vem primeiro, não importa o tamanho do dano ao animal) e uma versão com limite (o humano vem primeiro, exceto quando o dano ao animal passa de certo ponto).
O argumento é válido. A solidez falha em P2, que não diz o que é a dignidade nem por que só humanos a teriam, e em P3, que contraria a ideia de que danos maiores pesam mais.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
A frase mistura duas ideias que precisam ser separadas:
Ideia O que diz Problema Tese da magnitude Danos maiores pesam mais, seja qual for a espécie Nenhum: é a igual consideração Tese do status especial Certos indivíduos vêm primeiro mesmo quando perderiam menos Precisa justificar o trunfo Quem aceita a primeira ideia não tem como justificar a exploração animal no dia a dia, porque o que os humanos ganham (sabor, conveniência, hábito) é muito menor do que o que os animais perdem (bem-estar e vida). Só a segunda ideia sustenta a conclusão, e é ela que precisa ser examinada.
- b
Onde o argumento quebra
1. O trunfo não é explicado.
2. Não passa no véu da ignorância.
Proposto por John Harsanyi em 1955 e popularizado por John Rawls em 1971, o teste pergunta se aceitaríamos uma regra sem saber qual posição ocuparíamos. Mark Rowlands observou que a espécie, como a raça ou o talento, é resultado da loteria natural, e por isso também deveria ficar atrás do véu. Há cerca de 8 bilhões de humanos e, segundo algumas estimativas, entre 1 e 10 quintilhões de animais sencientes. Atrás do véu, a chance de nascer humano seria mínima, e ninguém aceitaria uma regra que o põe sempre em segundo lugar.
3. A mesma lógica rebaixaria humanos.
Algumas versões dão o status especial só a quem é capaz de autonomia. Por essa regra, bebês e pessoas com certas deficiências também viriam depois. Quase ninguém aceita isso, o que mostra que o critério real é só a espécie (A10).
4. Mesmo um peso menor não autoriza explorar.
Suponha que cada animal contasse menos. Daí não se segue que se pode criá-lo e matá-lo. Uma coisa é dizer que um interesse pesa menos; outra é dizer que ele pode ser sacrificado por um ganho trivial.
5. "Vir primeiro" raramente está em jogo.
Os conflitos reais da vida cotidiana não são "salvar uma criança ou um porco" (F2). São "comer este prato ou outro".
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Questão de Ética, vol. I, cap. 14 Distingue a tese da magnitude da tese do status especial e aplica a esta o véu da ignorância Fonte principal deste capítulo Rawls, *Uma Teoria da Justiça* (1971) Propõe a posição original e o véu da ignorância Rawls limitava a justiça a quem tem senso de justiça, como resume a Stanford Encyclopedia of Philosophy Rowlands, *Animal Rights: A Philosophical Defence* (1998) Estende o véu da ignorância à espécie, por ser resultado da loteria natural Capítulo "Contractarianism and Animal Rights", Palgrave Macmillan - d
A melhor réplica: a dignidade vem da autonomia, não da espécie
A versão mais séria não fala em espécie. Diz que o status especial vem da capacidade de tomar decisões autônomas, de escolher fins para a própria vida, e que isso é moralmente relevante: quem pode conduzir a própria vida tem algo a mais a perder.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Exclui humanos.
Bebês e pessoas sem autonomia ficariam sem o status especial. Ou se aceita essa consequência, ou o critério real era a espécie.
A autonomia também é sorte.
Ninguém mereceu nascer com ela, e qualquer um pode perdê-la por doença ou acidente.
Explica no máximo diferenças de dano.
Se a autonomia aumenta o que alguém perde em certos casos, isso já está incluído na tese da magnitude. Não é preciso um trunfo.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Petição de princípio
Equívoco
Moral
O critério é coerente?
Parcialidade
Desproporção
Vieses
Viés de grupo
Favorece quem pertence ao próprio grupo
Literatura geral sobre favoritismo endogrupal
Raciocínio motivado
A conclusão desejada (continuar comendo carne) escolhe a premissa
Extrapolações
O princípio testado é: "quem tem um status que eu atribuo vem primeiro, mesmo quando perde menos".
Se valesse para…NacionalidadeToque para ver
O conforto de um cidadão valeria mais que a vida de um estrangeiro
Rejeitado como xenofobia
Se valesse para…Capacidade cognitivaToque para ver
O lazer de um adulto valeria mais que a saúde de um bebê
Ninguém aceita
Se valesse para…EspécieToque para ver
O sabor de uma refeição humana valeria mais que a vida de um animal
É a conclusão do argumento
Contradições
E aceita que sofram e morram por um ganho pequeno.
Mas aceita uma hierarquia pela espécie que tem a mesma estrutura.
E usa a autonomia para justificar o status especial.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Em conflitos reais e raros, em que vidas estão em jogo dos dois lados, pode haver razões para priorizar quem perderia mais, e às vezes esse será o humano. Também é verdade que temos laços especiais com quem está perto de nós.
Mas
Mas nada disso transforma "humanos vêm primeiro" numa licença para usar animais no dia a dia, quando o que está em jogo de um lado é o sabor e, do outro, a vida.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- O apelo a graus diferenciados de status moral Vol. I, cap. 14
- Um panorama geral do debate sobre a consideração moral dos animais Vol. I, cap. 1
Referências
Filosofia
- O apelo a graus diferenciados de status moral. In *Uma Jornada pela Ética Animal*, vol. I.
- Uma Teoria da Justiça.
- Animal Rights: A Philosophical Defence.