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"Humanos sofrem mais que os animais"
em alguns casos, uma mente mais complexa sofre mais, por exemplo quando antecipa uma ameaça ou relembra uma violência. Em muitos outros, é o contrário: quem não entende o que está acontecendo sofre mais, como o animal ou o bebê que entra em pânico ao ser medicado. E, mesmo que os humanos sofressem mais, isso só daria prioridade em conflitos reais. Não autorizaria ignorar o sofrimento de quem sofre menos.
Resposta curta
Às vezes humanos sofrem mais, porque antecipam e lembram. Mas muitas vezes é o contrário: um animal capturado para ser tratado entra em pânico porque acha que vai morrer, e não pode se consolar pensando que logo vai passar. E, mesmo que sofrêssemos mais, isso só diria quem priorizar quando não dá para ajudar os dois. Não autoriza fazer outro ser sofrer por um sabor.
Para crianças
Quando um cachorro vai ao veterinário, ele não sabe que a injeção é para ajudar. Ele só sente a picada e fica com muito medo. Uma criança grande entende que a vacina protege e fica mais tranquila. Então, às vezes, entender as coisas faz a gente sofrer menos, e não mais. E mesmo quem sofre um pouco menos não merece sofrer à toa.
"Se alguém sofre menos do que você, isso torna aceitável fazê-lo sofrer?"
Como pode aparecer
"Humanos sofrem mais porque entendem o que acontece com eles."
"O animal vive o momento, não sofre como a gente."
"Peixe nem lembra do anzol."
"A cognição superior amplifica o sofrimento humano."
"Animais não têm consciência nem sentem dor como nós." (que é A5)
"Cérebro de peixe é pequeno, ele sente pouco." (que leva a A6)
A versão mais forte
"Humano sofre muito mais, porque entende o que está acontecendo. O animal sente na hora e esquece."
Versão mais forte (steelman):
- P1A intensidade do sofrimento depende das capacidades cognitivas: quem antecipa, lembra e compreende sofre também com o passado e o futuro.
- P2Humanos têm capacidades cognitivas mais sofisticadas que os outros animais.
- P3Logo, humanos sofrem mais em situações equivalentes.
- CPor isso, está justificado priorizar os humanos e dar menos peso ao sofrimento animal, inclusive na criação para consumo.
O argumento parte de algo verdadeiro: só quem entende que será morto daqui a uma semana sofre por antecipação.
O argumento não é válido: de "sofrem mais" não se segue "o sofrimento dos outros pode ser ignorado". A solidez também falha em P1, que generaliza o que só vale em alguns casos.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento depende de dois passos:
Passo O que afirma Situação Empírico Mais cognição significa mais sofrimento Verdadeiro em alguns casos, falso em outros Moral Quem sofre menos pode ser desconsiderado Não se segue do primeiro passo Mesmo que o passo empírico fosse sempre verdadeiro, o passo moral não acompanharia.
- b
Onde o argumento quebra
1. Às vezes, entender diminui o sofrimento.
Animais e crianças pequenas costumam sofrer mais com uma injeção, porque não sabem que ela vai ajudar. Quem entende também pode aliviar a dor presente lembrando de coisas boas ou esperando que ela passe, algo impossível para quem não tem essa capacidade.
2. Menos cognição costuma significar mais vulnerabilidade.
É por isso que bebês e pessoas com deficiências cognitivas precisam de mais cuidado, e não de menos. A menor capacidade de entender aumenta a exposição ao dano.
3. A intensidade pode ser até maior em mentes simples.
Para um animal com menos recursos cognitivos, a dor e o prazer podem ser os únicos motores do comportamento. Por isso há quem sustente que, nesses animais, a dor precisa ser intensa para cumprir sua função (veja A6).
4. Sofrer menos não é não sofrer.
Mesmo se o argumento estivesse certo sobre a intensidade, ele justificaria no máximo dar prioridade aos humanos quando não é possível evitar os dois danos. Na exploração animal não há esse conflito: o dano ao animal serve a um benefício pequeno e evitável.
5. O argumento é usado de forma seletiva.
Ninguém aceita que um adulto possa causar sofrimento a uma criança porque ela "entende menos".
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Questão de Ética, vol. II, cap. 9 Maior cognição às vezes aumenta e às vezes diminui o sofrimento; menor cognição aumenta a vulnerabilidade Fonte principal deste capítulo Questão de Ética, vol. VI, cap. 8 Discute se cérebros mais simples implicam menos senciência Base do ponto 3 Singer, *Ética Prática*, cap. 3 Mostra que a diferença de cognição corta nos dois sentidos Cambridge University Press; capítulo "Igualdade para os animais?" - d
A melhor réplica: em média, a vida humana tem mais sofrimento possível
A versão mais séria admite os contraexemplos, mas diz que, em média, uma mente humana pode sofrer de mais formas: humilhação, desespero, perda de sentido. Por isso, numa escala geral, o sofrimento humano pesaria mais.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Mais formas de sofrer não é sofrer mais em cada caso.
A dor de um porco castrado sem anestesia não fica menor porque ele não sente humilhação.
O argumento justifica prioridade, não exploração.
Pesar mais em conflitos reais não autoriza criar animais para sofrer.
A escala muda a conta.
São dezenas de bilhões de animais terrestres e trilhões de peixes por ano. Mesmo com um peso menor para cada um, o total é enorme.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Non sequitur
Epistemológico
A evidência sustenta?
Generalização apressada
Moral
O critério é coerente?
Desproporção
Vieses
Antropocentrismo
Mede o sofrimento pelas formas humanas de sofrer
Literatura geral
Extrapolações
O princípio testado é: "quem sofre menos pode ter seu sofrimento ignorado".
Se valesse para…BebêsToque para ver
Seria aceitável causar-lhes dor, pois entendem menos
Ninguém aceita
Se valesse para…Pessoas com demênciaToque para ver
Seu sofrimento contaria menos
Rejeitado como discriminação
Se valesse para…Animais de criaçãoToque para ver
Seu sofrimento contaria menos
É a conclusão do argumento
Contradições
E usa o entender menos para proteger menos os animais.
Mas evita assistir ao que acontece com eles (E7).
E nega o mesmo ao porco, que tem cognição comparável.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Capacidades cognitivas mudam o modo como se sofre, e há sofrimentos que só humanos parecem ter, como a angústia por um diagnóstico ou o luto por alguém que morreu há anos. Uma ética séria leva isso em conta ao pesar danos.
Mas
Mas levar em conta não é descartar. O sofrimento de um animal continua sendo sofrimento, e não fica aceitável por haver outros sofrimentos de outro tipo.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Mas, os humanos não são capazes de sofrer em maior grau? Vol. II, cap. 9