Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A22

"Humanos sofrem mais que os animais"

A resposta em uma frase

em alguns casos, uma mente mais complexa sofre mais, por exemplo quando antecipa uma ameaça ou relembra uma violência. Em muitos outros, é o contrário: quem não entende o que está acontecendo sofre mais, como o animal ou o bebê que entra em pânico ao ser medicado. E, mesmo que os humanos sofressem mais, isso só daria prioridade em conflitos reais. Não autorizaria ignorar o sofrimento de quem sofre menos.

Resposta curta

Às vezes humanos sofrem mais, porque antecipam e lembram. Mas muitas vezes é o contrário: um animal capturado para ser tratado entra em pânico porque acha que vai morrer, e não pode se consolar pensando que logo vai passar. E, mesmo que sofrêssemos mais, isso só diria quem priorizar quando não dá para ajudar os dois. Não autoriza fazer outro ser sofrer por um sabor.

Para crianças

Quando um cachorro vai ao veterinário, ele não sabe que a injeção é para ajudar. Ele só sente a picada e fica com muito medo. Uma criança grande entende que a vacina protege e fica mais tranquila. Então, às vezes, entender as coisas faz a gente sofrer menos, e não mais. E mesmo quem sofre um pouco menos não merece sofrer à toa.

Devolva com uma pergunta

"Se alguém sofre menos do que você, isso torna aceitável fazê-lo sofrer?"

Como pode aparecer

"Humanos sofrem mais porque entendem o que acontece com eles."
Conversa cotidiana
"O animal vive o momento, não sofre como a gente."
Conversa cotidiana
"Peixe nem lembra do anzol."
Redes sociais
"A cognição superior amplifica o sofrimento humano."
Versão acadêmica
"Animais não têm consciência nem sentem dor como nós." (que é A5)
Versão disfarçada
"Cérebro de peixe é pequeno, ele sente pouco." (que leva a A6)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Humano sofre muito mais, porque entende o que está acontecendo. O animal sente na hora e esquece."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1A intensidade do sofrimento depende das capacidades cognitivas: quem antecipa, lembra e compreende sofre também com o passado e o futuro.
  2. P2Humanos têm capacidades cognitivas mais sofisticadas que os outros animais.
  3. P3Logo, humanos sofrem mais em situações equivalentes.
  4. CPor isso, está justificado priorizar os humanos e dar menos peso ao sofrimento animal, inclusive na criação para consumo.

O argumento parte de algo verdadeiro: só quem entende que será morto daqui a uma semana sofre por antecipação.

O argumento não é válido: de "sofrem mais" não se segue "o sofrimento dos outros pode ser ignorado". A solidez também falha em P1, que generaliza o que só vale em alguns casos.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento depende de dois passos:

    PassoO que afirmaSituação
    EmpíricoMais cognição significa mais sofrimentoVerdadeiro em alguns casos, falso em outros
    MoralQuem sofre menos pode ser desconsideradoNão se segue do primeiro passo

    Mesmo que o passo empírico fosse sempre verdadeiro, o passo moral não acompanharia.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Às vezes, entender diminui o sofrimento.

    Animais e crianças pequenas costumam sofrer mais com uma injeção, porque não sabem que ela vai ajudar. Quem entende também pode aliviar a dor presente lembrando de coisas boas ou esperando que ela passe, algo impossível para quem não tem essa capacidade.

    2. Menos cognição costuma significar mais vulnerabilidade.

    É por isso que bebês e pessoas com deficiências cognitivas precisam de mais cuidado, e não de menos. A menor capacidade de entender aumenta a exposição ao dano.

    3. A intensidade pode ser até maior em mentes simples.

    Para um animal com menos recursos cognitivos, a dor e o prazer podem ser os únicos motores do comportamento. Por isso há quem sustente que, nesses animais, a dor precisa ser intensa para cumprir sua função (veja A6).

    4. Sofrer menos não é não sofrer.

    Mesmo se o argumento estivesse certo sobre a intensidade, ele justificaria no máximo dar prioridade aos humanos quando não é possível evitar os dois danos. Na exploração animal não há esse conflito: o dano ao animal serve a um benefício pequeno e evitável.

    5. O argumento é usado de forma seletiva.

    Ninguém aceita que um adulto possa causar sofrimento a uma criança porque ela "entende menos".

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Questão de Ética, vol. II, cap. 9Maior cognição às vezes aumenta e às vezes diminui o sofrimento; menor cognição aumenta a vulnerabilidadeFonte principal deste capítulo
    Questão de Ética, vol. VI, cap. 8Discute se cérebros mais simples implicam menos senciênciaBase do ponto 3
    Singer, *Ética Prática*, cap. 3Mostra que a diferença de cognição corta nos dois sentidosCambridge University Press; capítulo "Igualdade para os animais?"
  4. d

    A melhor réplica: em média, a vida humana tem mais sofrimento possível

    A versão mais séria admite os contraexemplos, mas diz que, em média, uma mente humana pode sofrer de mais formas: humilhação, desespero, perda de sentido. Por isso, numa escala geral, o sofrimento humano pesaria mais.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Mais formas de sofrer não é sofrer mais em cada caso.

    A dor de um porco castrado sem anestesia não fica menor porque ele não sente humilhação.

    O argumento justifica prioridade, não exploração.

    Pesar mais em conflitos reais não autoriza criar animais para sofrer.

    A escala muda a conta.

    São dezenas de bilhões de animais terrestres e trilhões de peixes por ano. Mesmo com um peso menor para cada um, o total é enorme.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Non sequitur
De "sofre menos" para "pode ser desconsiderado"

Epistemológico

A evidência sustenta?

Generalização apressada
Toma alguns casos de antecipação como regra

Moral

O critério é coerente?

Desproporção
Usa uma diferença de grau para justificar o dano total

Vieses

Negação de mente

Atribui menos mente a animais que comemos

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Antropocentrismo

Mede o sofrimento pelas formas humanas de sofrer

Literatura geral

Extrapolações

O princípio testado é: "quem sofre menos pode ter seu sofrimento ignorado".

Se valesse para…BebêsToque para ver

Seria aceitável causar-lhes dor, pois entendem menos

Ninguém aceita

Se valesse para…Pessoas com demênciaToque para ver

Seu sofrimento contaria menos

Rejeitado como discriminação

Se valesse para…Animais de criaçãoToque para ver

Seu sofrimento contaria menos

É a conclusão do argumento

Contradições

Protege bebês com mais cuidado justamente porque entendem menos.

E usa o entender menos para proteger menos os animais.

Diz que os animais sofrem menos.

Mas evita assistir ao que acontece com eles (E7).

Aceita que um cão sofre ao ser maltratado.

E nega o mesmo ao porco, que tem cognição comparável.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Capacidades cognitivas mudam o modo como se sofre, e há sofrimentos que só humanos parecem ter, como a angústia por um diagnóstico ou o luto por alguém que morreu há anos. Uma ética séria leva isso em conta ao pesar danos.

Mas

Mas levar em conta não é descartar. O sofrimento de um animal continua sendo sofrimento, e não fica aceitável por haver outros sofrimentos de outro tipo.

Conexões

Costuma vir antes

A5 Animais não têm consciência nem sentem dor como nós.Quando se admite a dor, discute-se a intensidade
A1 Animais não são racionais.A razão vira medida do sofrimento
A22este argumento

Costuma vir depois

A6 Peixes e invertebrados não sentem dor.O mesmo raciocínio aplicado a mentes ainda mais simples
A16 Matar sem dor não é dano.Se o sofrimento é menor, discute-se a morte

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências