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"Sem a criação, esses animais nem existiriam."
trazer alguém à existência não dá direito de matá-lo. Pais dão a vida aos filhos e não ganham, por isso, nenhum direito sobre a vida deles. O argumento foi chamado por Henry Salt, em 1914, de "lógica da despensa": a ideia de que quem mais ama os animais seria quem mais os cria para comer. E ele não protege nenhum animal que já existe; só justifica criar outros para matar.
Resposta curta
Dar a vida a alguém não dá o direito de tirá-la: pais dão a vida aos filhos e não ganham nenhum direito sobre a vida deles. Quem não existe não perde nada por não existir; quem existe perde tudo ao ser morto. E a frase não protege nenhuma vaca que existe hoje: só justifica criar outras para matar. Ninguém diria que criar cães para comer é um favor aos cães.
Para crianças
Seus pais deram a vida a você. Isso quer dizer que eles podem fazer o que quiserem com você, até machucar? Claro que não! Dar a vida a alguém não dá o direito de tirá-la. Com os animais é igual: fazer um bezerro nascer não dá a ninguém o direito de matá-lo depois.
"Se alguém tivesse um filho só para depois vendê-lo, o fato de ter dado a vida justificaria a venda?"
Como pode aparecer
"Se ninguém comesse, não haveria vacas."
"Estamos dando vida a eles."
"Veganos querem extinguir as galinhas."
"Graças ao churrasco, existem bilhões de bois."
"Você prefere que eles nem tivessem nascido?"
"Animais substituíveis não são prejudicados se forem mortos e substituídos."
"Um morre, outro nasce: fica tudo igual."
"O que fazer com os animais se todos virarem veganos?" (que é J5)
A versão mais forte
"Se ninguém comesse carne, não haveria vacas. Estamos dando vida a elas."
Versão mais forte (steelman):
- P1Existir com uma vida que vale a pena é melhor, para um ser, do que não existir.
- P2Os animais de criação só existem porque são criados para consumo.
- P3Se o consumo acabasse, esses animais não existiriam.
- CLogo, o consumo beneficia os animais, ao trazê-los à existência.
A versão forte tem uma formulação filosófica conhecida, o argumento da substituibilidade: se cada animal morto é substituído por outro com vida igualmente boa, o total de bem-estar no mundo não diminui.
O argumento é válido. A solidez falha em P1, que trata a não existência como um prejuízo para quem não existe, e na conclusão, que passa de "trouxe à vida" para "pode matar".
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento trata a existência como um presente que dá direitos a quem o deu:
Passo O que o argumento supõe O problema Não existir seria ruim para o animal Quem não existe pode ser prejudicado Não há ninguém para ser prejudicado pela não existência Dar a vida é um benefício O benefício gera um crédito Benefícios não geram direito sobre a vida de quem os recebeu Logo, pode-se matar O crédito autoriza o dano Nenhuma relação humana funciona assim - b
Onde o argumento quebra
1. Trazer à existência não dá direito de matar.
Pais, criadores de cães e santuários trazem animais e pessoas à existência, e ninguém considera que isso os autoriza a matá-los.
2. Quem não existe não é prejudicado.
Não há uma vaca que deixa de existir e sente falta da vida. Quem perde algo é a vaca que existe e é morta. O argumento compara um ser real com um ser imaginário.
3. Henry Salt já respondeu em 1914.
No ensaio A lógica da despensa, Salt observou que, por esse raciocínio, o verdadeiro amante dos animais seria aquele cuja despensa estivesse mais cheia deles. Chamou a ideia de a própria negação da reverência pela vida.
4. A vida dada raramente é boa.
Cerca de três quartos dos animais de criação vivem em sistemas intensivos (B2). Para eles, o argumento "demos a vida" significa "demos uma vida de confinamento".
5. A extinção não é um dano para os animais.
O fim da criação reduziria o número de animais nascidos para morrer, não mataria os que existem. As espécies domesticadas poderiam continuar existindo em números menores, e muitas delas foram moldadas pela seleção para servir à produção, com problemas de saúde que não teriam por conta própria.
6. Matar quem existe não é o mesmo que deixar de criar alguém.
Quando um animal é morto, há um indivíduo que perde a vida. Quando um animal deixa de ser criado, não há ninguém que perca nada: há apenas possibilidades. Por isso a morte de um não é "anulada" pelo nascimento de outro. Se fosse, pais poderiam matar um filho desde que tivessem outro no lugar.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Salt, *The Humanities of Diet* (1914), ensaio "A lógica da despensa" Critica a ideia de que criar animais para comer seria um benefício para eles Publicado pela Vegetarian Society Singer, *Ética Prática* (1979) Discute a substituibilidade de seres sem consciência de si no tempo Cambridge University Press; base da melhor réplica Our World in Data, *How many animals are factory-farmed?* Cerca de 74% dos animais de criação terrestres vivem em criação intensiva Mostra que a vida dada raramente é boa Questão de Ética, vol. III, cap. 8 Discute a tese de que animais são substituíveis Base do último ponto Questão de Ética, vol. IV, cap. 7 Responde ao argumento de que criar animais se justifica por fazê-los existir Mesmo tema, aplicado à criação - d
A melhor réplica: a substituibilidade
A versão mais séria diz que, para seres sem consciência de si no tempo, o que importa é a quantidade total de experiências boas no mundo. Se um animal com vida boa é morto e substituído por outro com vida igualmente boa, o total não muda. Peter Singer discutiu essa ideia, embora com muitas ressalvas.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela prova demais.
Ela exige vidas boas.
A substituibilidade só funciona se cada animal tiver uma vida que vale a pena, o que não descreve a maior parte da pecuária.
Ela trata indivíduos como recipientes.
Cada animal deixa de ser alguém e vira um lugar onde o bem-estar é guardado. É exatamente o que a ética dos indivíduos rejeita.
O próprio Singer não a usa para defender o consumo atual.
Ele a considera inaplicável à pecuária industrial.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Non sequitur
Comparação com quem não existe
Epistemológico
A evidência sustenta?
Idealização da vida dada
Moral
O critério é coerente?
Crédito sobre a vida alheia
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "quem traz um ser à existência pode matá-lo depois".
Se valesse para…FilhosToque para ver
Pais poderiam dispor da vida dos filhos
Ninguém aceita
Se valesse para…Cães de criadouroToque para ver
Criadores poderiam abatê-los para comer
Quase ninguém aceita
Se valesse para…Seres criados em laboratórioToque para ver
Poderiam ser mortos por quem os criou
Contraria toda a ética de pesquisa
Contradições
Dar a vida nunca autorizou ninguém a tirá-la.
Mesmo que "desse a vida" a mais cães.
A preocupação com a existência aparece só para as espécies de criação.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Há uma questão filosófica real aqui: a ética de trazer seres à existência é difícil, e a pergunta sobre se é bom haver mais vidas boas no mundo divide filósofos sérios. Também é verdade que o fim da pecuária mudaria a relação entre humanos e espécies domesticadas, e que isso exige pensar com cuidado.
Mas
Mas nada disso transforma o nascimento em uma permissão para matar. Se o animal existe, ele já é alguém, e o que importa é o que se faz com ele, e não o fato de que foi trazido ao mundo para isso.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Discutindo a alegação de que os animais são substituíveis Vol. III, cap. 8
- Criar animais para consumo está justificado, uma vez que os faz existir? Vol. IV, cap. 7
Referências
Filosofia
- *The Humanities of Diet*, ensaio "The Logic of the Larder".
- Ética Prática.
Dados e psicologia
- How many animals are factory-farmed? *Our World in Data*.
- Rationalizing meat consumption. The 4Ns. *Appetite*, 91.