Início / K. Eficácia e responsabilidade individual / Parte IND
"Um indivíduo não faz diferença."
a compra de uma pessoa raramente decide sozinha se um animal a mais será criado, mas às vezes decide, e quando decide afeta muitos de uma vez. Pelo raciocínio de valor esperado, cada compra tem um efeito médio real. Os economistas confirmam a direção: menos demanda gera menos produção. E, mesmo se o efeito fosse zero, participar de uma prática injusta continuaria sendo uma questão moral.
Nota: este capítulo também responde à versão técnica do argumento, "oferta e demanda não funcionam assim na carne", que foi unida a ele.
Resposta curta
É verdade que o frigorífico não muda a produção por causa de uma bandeja. Mas ele muda por causa de muitas, e alguém sempre é a compra que faz o pedido seguinte acontecer. Como ninguém sabe se será a sua, o efeito médio de cada compra é real: uma chance pequena de afetar muitos animais. Os economistas confirmam que, quando a demanda cai, a produção cai, ainda que menos que proporcionalmente. E, mesmo que fosse zero, pagar por algo que se considera injusto continuaria sendo participar dele.
Para crianças
Imagine uma fila para entrar na escola, e a porta só abre quando chegam dez crianças. Se você chega e é a décima, a porta abre por sua causa. Você não sabe se vai ser a décima, mas às vezes vai ser. Com as compras é parecido: o mercado só pede mais carne quando vende um tanto, e às vezes é a sua compra que faz o pedido acontecer. Cada escolha conta.
"Se ninguém faz diferença sozinho, como a demanda de bilhões de pessoas sustenta a produção?"
Como pode aparecer
"Você sozinho não muda nada."
"É uma gota no oceano."
"O boi já foi morto, não fui eu." (que é K2)
"Enquanto a China comer carne, sua alface não adianta."
"Quantos animais você salvou este ano? Zero."
"Oferta e demanda não funcionam assim na carne: o frigorífico abate do mesmo jeito."
"Se eu não comprar, o preço cai e outra pessoa compra."
"Contribuições individuais não atingem os limiares que alteram a produção."
"O problema é o sistema, não o meu prato." (que é B4)
A versão mais forte
"Eu sozinho não mudo nada. Se eu parar de comer carne, o frigorífico vai abater do mesmo jeito."
Versão mais forte (steelman):
- P1Uma ação só é obrigatória se fizer diferença para o resultado.
- P2A produção de carne responde a pedidos em grandes lotes, e não a compras individuais.
- P3A chance de que a minha compra mude um lote é desprezível.
- CLogo, minha compra não faz diferença, e não tenho obrigação de mudar.
P2 é verdadeira: frigoríficos e supermercados não ajustam a produção a cada bandeja vendida. O problema está em P3 e em P1.
O argumento é válido. A solidez falha em P3, que confunde chance pequena com efeito pequeno, e em P1, que reduz a moral às consequências individuais.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento tem um ponto de partida correto e uma conclusão errada. A produção funciona por limiares: o mercado só ajusta o pedido quando as vendas mudam em certa quantidade.
Situação O que acontece A sua compra não muda o lote Efeito zero, que é o caso mais comum A sua compra é a que muda o lote Efeito grande: um lote inteiro de animais Média entre os casos A chance pequena multiplicada pelo efeito grande dá, aproximadamente, um efeito proporcional à compra Esse é o raciocínio de valor esperado, apresentado pelo filósofo Shelly Kagan no artigo Do I Make a Difference? (2011), que usa justamente o exemplo de comprar frango. Se o limiar é de mil frangos, a chance de a sua compra ser decisiva é de cerca de uma em mil, mas, quando é, ela afeta cerca de mil frangos. O efeito esperado fica perto de um frango por frango comprado.
- b
Onde o argumento quebra
1. Chance pequena não é efeito pequeno.
P3 olha só a chance e esquece o tamanho do efeito quando ela se realiza. Multiplicadas, as duas coisas dão um efeito médio real, como no exemplo do limiar.
2. A demanda agregada é feita de indivíduos.
Se nenhuma compra fizesse diferença, a soma de todas as compras também não faria, e a produção não responderia à demanda. Mas responde: é assim que mercados funcionam, e é por isso que a indústria investe em publicidade.
3. A economia confirma a direção.
O efeito de uma redução de demanda sobre a produção é menor que um para um, porque o preço cai um pouco e parte do consumo é recuperada por outros compradores. Mas o efeito é positivo: menos compra gera menos produção. Estimativas econômicas citadas no debate, como as de Norwood e Lusk, ficam abaixo de um animal a menos por animal não comprado, e acima de zero.
4. O efeito se acumula ao longo da vida.
Uma pessoa faz milhares de refeições. Mesmo com um efeito esperado menor que um, a soma ao longo de anos corresponde a muitos animais.
5. Há efeitos além da compra.
Escolhas são vistas por outras pessoas, influenciam a oferta de opções vegetais e mudam o que parece normal. O impacto de uma visão de mundo se estende para além da vida de quem a adota.
6. A moral não se reduz ao efeito causal.
Mesmo que a compra não mudasse nada, pagar por uma prática que se considera injusta é participar dela. Ninguém aceitaria comprar um produto feito com trabalho escravo com o argumento de que a fábrica produziria do mesmo jeito.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Kagan, *Do I Make a Difference?* (2011) Em casos de limiar, contribuir tem valor esperado positivo; o exemplo central é a compra de frango Philosophy & Public Affairs, 39(2); página do autor Norwood e Lusk, *Compassion, by the Pound* (2011) Estimativas de quanto a produção cai quando a demanda por produtos animais diminui Oxford University Press; os valores exatos variam por produto Nefsky, Consequentialism and the Problem of Collective Harm (2011) Crítica ao raciocínio de valor esperado em casos de dano coletivo Mostra que o debate filosófico existe; usado em (d) - d
A melhor réplica: nem todo caso tem limiar
A versão mais séria, defendida por filósofos como Julia Nefsky, aceita o valor esperado quando há limiares claros, mas duvida que a cadeia da carne funcione assim. Desperdício, estoques, exportações e contratos de longo prazo podem absorver pequenas variações, de modo que muitas compras não chegam a afetar nada. Nesse caso, a probabilidade de fazer diferença poderia ser ainda menor do que o raciocínio do limiar supõe.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela não mostra que o efeito é zero.
Mostra que é incerto. Se a demanda agregada move a produção, e move, a contribuição média de cada compra não pode ser nula.
Os economistas olham o agregado.
As estimativas de quanto a produção responde à demanda já incluem estoques, desperdício e exportações.
A própria Nefsky não conclui que se pode comprar à vontade.
Sua crítica é ao modo de justificar o dever, não ao dever em si: ela defende que contribuir para um resultado ruim pode ser errado mesmo sem fazer diferença.
O argumento moral independe do causal.
Mesmo com efeito zero, pagar por uma prática injusta continua sendo participar dela, como no caso do trabalho escravo.
- f
De volta à questão moral
O argumento não diz que os animais não importam; diz que uma pessoa não muda o resultado. Mas cada compra tem um efeito esperado real, e participar de uma prática injusta conta por si. A pergunta moral continua: se é errado fazer animais sofrerem e morrerem sem necessidade, por que pagar para que isso aconteça?
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Confusão entre probabilidade e efeito
Falácia da composição invertida
Epistemológico
A evidência sustenta?
Modelo errado de mercado
Moral
O critério é coerente?
Responsabilidade só causal
Difusão de responsabilidade
Vieses
Insensibilidade à escala
Bilhões de animais são percebidos como uma abstração, e um único animal parece não mudar nada
Difusão de responsabilidade
A culpa distribuída entre muitos parece culpa nenhuma
Raciocínio motivado
O argumento econômico aparece justamente onde dispensa a mudança
Literatura geral sobre cognição motivada
Paradoxo da carne
A impotência alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los
Desaparecimento da compaixão
Bilhões de mortes não comovem como uma só
Extrapolações
O princípio testado é: "se a minha contribuição não decide o resultado sozinha, não tenho obrigação".
Se valesse para…VotarToque para ver
Ninguém teria razão para votar
Quase todos consideram o voto importante
Se valesse para…Comprar produtos de trabalho escravoToque para ver
Seria aceitável, já que a fábrica produziria do mesmo jeito
Quase ninguém aceita
Se valesse para…Poluir ou jogar lixo na ruaToque para ver
Um papel a mais não faria diferença
O resultado coletivo é feito dessas contribuições
Se valesse para…Doar para causas humanitáriasToque para ver
Uma doação pequena não teria valor
O valor esperado de cada doação é real
Contradições
A chance de um voto decidir uma eleição é ínfima, e a mesma pessoa considera votar importante.
Fazemos muitas coisas cujo efeito individual é pequeno, porque o efeito somado importa.
Mesmo sabendo que a fábrica produziria do mesmo jeito.
A mesma pessoa entende que um produto some das prateleiras quando ninguém compra.
Se a escolha fosse de fato irrelevante, mudar também seria indiferente para quem escolhe.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Há verdade no argumento. A cadeia da carne não responde a cada compra isoladamente, e o efeito de uma pessoa é pequeno diante de uma indústria de bilhões de animais. Também é verdade que mudanças de sistema, como leis, tecnologia e políticas públicas, têm um alcance que nenhuma escolha individual alcança, e merecem tanta atenção quanto o prato de cada um (K9).
Mas
Mas pequeno não é zero, e individual não é irrelevante. A soma das escolhas é exatamente o que sustenta a indústria, e quem participa dela tem uma parte, ainda que pequena, no que ela produz. Mudar o sistema e mudar o próprio consumo não competem entre si: um costuma alimentar o outro.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Mas, o veganismo tem mesmo um impacto prático? Vol. IV, cap. 13
Referências
Filosofia
- Do I make a difference? *Philosophy & Public Affairs*, 39(2).
- Consequentialism and the problem of collective harm. Philosophy & Public Affairs, 39(4).
Economia
- Compassion, by the Pound: The Economics of Farm Animal Welfare. Oxford University Press.