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"Matar sem dor não é dano."
a morte prejudica quem morre porque tira dele todas as experiências boas que ainda teria. É por isso que matar uma pessoa dormindo, sem dor e sem medo, continua sendo um dos piores males que existem. Os animais de criação são mortos muito jovens, longe do fim natural de suas vidas, e perdem quase tudo o que tinham pela frente. Uma morte sem dor elimina o sofrimento do momento, não o dano.
Resposta curta
A morte faz mal a quem morre porque tira tudo o que ele ainda viveria. É por isso que matar uma pessoa dormindo, sem dor, é um crime gravíssimo, e não um gesto neutro. Animais não fazem planos para o ano que vem, mas têm um futuro de experiências boas, e perdem esse futuro quando são mortos. E os animais de criação são mortos muito jovens: perdem quase toda a vida que teriam.
Para crianças
Imagine que alguém tira um cachorrinho da sua casa enquanto ele dorme, e ele nunca mais acorda. Ele não sentiu dor. Mas perdeu todos os passeios, as brincadeiras e os carinhos que ainda ia ter. Isso é ruim para ele, não só para você. Com os animais da fazenda é igual: mesmo sem dor, eles perdem a vida inteira que tinham pela frente.
"Matar alguém dormindo, sem dor, não prejudica essa pessoa?"
Como pode aparecer
"Se não sofreu, qual o problema?"
"Eles não sabem que vão morrer."
"Não têm noção de futuro."
"Morreu sem perceber, melhor que morrer de doença."
"Você acha que a galinha faz planos para o ano que vem?"
"O problema é o sofrimento, não a morte." (que leva a B1)
"Seres sem interesses relativos ao futuro não são prejudicados por uma morte indolor."
"Um frango vive pouco mesmo, então matá-lo é um dano pequeno."
"Um porco não lê nem escuta música; a vida dele vale menos."
"Se o animal vai para um lugar melhor, matá-lo não o prejudica."
"Tiveram uma vida boa e uma morte rápida." (que é B5)
A versão mais forte
"Se o animal não sofreu, qual o problema? Ele nem sabe que vai morrer."
Versão mais forte (steelman):
- P1Algo só prejudica alguém se for experimentado como ruim.
- P2Uma morte instantânea e sem dor não é experimentada: depois dela, não há mais ninguém para sentir falta de nada.
- P3Animais não têm planos nem consciência do próprio futuro, então não perdem nada que já desejassem.
- CLogo, matar um animal sem dor não o prejudica.
A versão forte tem uma longa história. Epicuro já dizia que a morte não é nada para nós, porque, quando ela está, nós não estamos. E P3 aparece em autores sérios, que distinguem seres com e sem consciência do próprio futuro.
O argumento é válido. A solidez falha em P1, que nenhuma pessoa aceita no próprio caso, e em P3, que confunde desejar o futuro com ter um futuro a perder.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento depende de uma ideia sobre o que é ser prejudicado. Há duas respostas na filosofia:
Visão O que torna a morte ruim Consequência Experiencial (Epicuro) Só o que é sentido pode ser ruim A morte sem dor não prejudicaria ninguém, nem humanos Privação (Nagel) A morte é ruim porque tira os bens que a vida ainda traria A morte prejudica quem tinha um futuro bom pela frente O argumento usa a primeira visão para os animais e a segunda para os humanos. Quem acha que matar uma pessoa dormindo a prejudica já aceitou a visão da privação, e ela se aplica a qualquer ser com um futuro de experiências.
- b
Onde o argumento quebra
1. Ninguém aceita P1 no próprio caso.
Se só o que é sentido prejudica, matar uma pessoa saudável enquanto dorme não seria um mal para ela. Quase todos rejeitam essa conclusão, e é exatamente por isso que o filósofo Thomas Nagel defendeu, em 1970, que a morte é ruim pelo que priva.
2. Não é preciso planejar o futuro para perdê-lo.
Um bebê não faz planos, e mesmo assim sua morte tira dele uma vida inteira. O que importa não é desejar o futuro, mas ter um futuro de experiências boas que a morte elimina.
3. Os animais de criação perdem quase tudo.
Frangos de corte e porcos são abatidos com uma fração da vida que teriam. Pela visão da privação, a perda é proporcional ao futuro tirado, e no caso deles é quase a vida inteira.
4. O argumento não fala do sofrimento.
5. Ele é usado de forma seletiva.
Ninguém aceita a morte indolor de um cão saudável como algo neutro. O argumento só aparece quando a vítima é um animal de criação.
6. Prazeres intelectuais não são os únicos que contam.
Para dizer que um porco perde pouco ao morrer porque não lê nem ouve música, seria preciso mostrar que prazeres não intelectuais quase não valem nada. Mas estar com quem se gosta, comer, brincar e descansar ao sol valem muito, inclusive para nós. E reencontrar um ente querido depois de anos não é um prazer intelectual, e pode valer mais que muitas atividades intelectuais.
7. Pouco tempo pela frente não é pouco a perder.
Não aceitamos que matar um idoso seja um dano pequeno só porque ele tem menos anos pela frente. Além disso, frangos de corte são abatidos com cerca de seis semanas, quando poderiam viver anos: perdem quase toda a vida possível. E há indícios de que animais pequenos percebem o tempo de forma mais rápida, o que tornaria suas vidas mais longas por dentro do que parecem por fora.
8. A hipótese de uma vida melhor depois da morte não autoriza matar.
Não sabemos se ela existe nem se seria melhor. Sabemos, por outro lado, como seria a vida do animal se ele continuasse vivo. E ninguém aceita esse raciocínio para matar humanos felizes.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Nagel, *Death* (1970) A morte é ruim para quem morre porque o priva dos bens que a vida ainda traria Noûs, 4(1); origem da chamada visão da privação McMahan, *The Ethics of Killing* (2002) Propõe a conta dos interesses relativos ao tempo: a gravidade da morte depende do futuro perdido e da ligação psicológica com ele Oxford University Press; base da melhor réplica Epicuro, Carta a Meneceu "A morte não é nada para nós" Origem da visão experiencial Questão de Ética, vol. III, cap. 4 Para concluir que a morte prejudica pouco quem não tem prazeres intelectuais, seria preciso mostrar que os outros prazeres quase não valem Base do ponto 6 Questão de Ética, vol. III, cap. 10 Ter pouco tempo restante não torna a morte um dano pequeno; a percepção subjetiva do tempo pode ser mais rápida em animais pequenos Base do ponto 7 Questão de Ética, vol. III, cap. 13 A incerteza sobre uma vida após a morte não justifica matar quem tem uma vida boa Base do ponto 8 - d
A melhor réplica: a morte de um animal é um dano menor
A versão mais séria aceita a visão da privação, mas diz que o dano da morte depende também da ligação psicológica entre o ser e o seu futuro. Jeff McMahan chamou isso de interesses relativos ao tempo: quem tem planos, memória e consciência de si perde mais ao morrer. Animais teriam essa ligação mais fraca, e por isso sua morte seria um dano menor que a de um humano adulto.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Um dano menor ainda é um dano.
A réplica abandona a conclusão "matar sem dor não é dano" e passa a discutir quanto dano é. Já não autoriza matar.
O dano precisa ser pesado contra o benefício.
Do outro lado está um prazer de paladar (J11). Mesmo um dano reduzido pesa mais.
A mesma conta rebaixaria humanos.
Animais têm ligação com o futuro.
Muitos lembram, antecipam e têm preferências estáveis. A diferença é de grau, e não de natureza.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Prova demais
Duplo padrão
Epistemológico
A evidência sustenta?
Confusão entre desejar e ter
Moral
O critério é coerente?
Redução do dano à dor
Silêncio sobre o sofrimento
Vieses
Paradoxo da carne
Atribuir menos mente aos animais comidos torna a morte deles menos incômoda
Dissonância cognitiva
A tensão entre gostar de animais e comê-los é aliviada negando que a morte os prejudique
Extrapolações
O princípio testado é: "uma morte sem dor não prejudica quem morre".
Se valesse para…Pessoas dormindoToque para ver
Matá-las sem que percebam não seria um mal para elas
Contraria um dos juízos morais mais firmes
Se valesse para…BebêsToque para ver
Matá-los sem dor não os prejudicaria, porque não fazem planos
Ninguém aceita
Se valesse para…Animais de estimaçãoToque para ver
Sacrificar um cão saudável sem dor seria neutro
Defensores de animais e tutores rejeitam
Se valesse para…Pessoas sem famíliaToque para ver
Se ninguém sentisse falta e não houvesse dor, a morte não teria vítima
O dano é de quem perde a vida
Contradições
A ausência de dor nunca foi atenuante.
Mesmo quando ele não sofreu, a perda é sentida como dele.
A falta de projetos não reduz a proteção.
Ninguém aceitaria ser morto sem dor por não ter planos para amanhã.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Há algo certo aqui. A dor e o medo no momento da morte são males reais, e reduzi-los importa. A filosofia da morte também é genuinamente difícil, e há debate sério sobre quanto a morte prejudica seres diferentes. É razoável pensar que a morte de um ser com projetos de vida longos pode ser, em algum sentido, uma perda maior.
Mas
Mas nada disso torna a morte um não dano. Quem morre perde tudo o que ainda viveria, e os animais de criação perdem quase toda a vida. Uma morte sem dor é melhor que uma morte com dor; não é melhor que continuar vivo.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- De que consiste o dano da morte? Vol. III, cap. 1
- Discutindo a alegação de que os animais não são prejudicados com a morte Vol. III, cap. 2
- Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte? Vol. III, cap. 4
- A alegação de que ter pouco tempo restante torna a morte um dano pequeno Vol. III, cap. 10
- Reflexões adicionais: morte, aniquilação, decisão racional e probabilidades Vol. III, cap. 13
Referências
Filosofia
- Death. *Noûs*, 4(1).
- The Ethics of Killing. Oxford University Press.
- Epicuro. Carta a Meneceu.
Psicologia
- The role of meat consumption in the denial of moral status and mind to meat animals. *Appetite*, 55(1).
- The moral standing of animals. *Journal of Personality and Social Psychology*, 116(6).
Questão de Ética
- Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte? In *Uma Jornada pela Ética Animal*, vol. III.
- A alegação de que ter pouco tempo restante torna a morte um dano pequeno. In *Uma Jornada pela Ética Animal*, vol. III.
- Reflexões adicionais: morte, aniquilação, decisão racional e probabilidades. In *Uma Jornada pela Ética Animal*, vol. III.