Início / B. Dano, morte e bem-estar / Parte DIR
"Tiveram uma vida boa e uma morte rápida."
o argumento junta duas promessas que raramente se cumprem e, mesmo quando se cumprem, não justificam a conclusão. Uma vida boa não dá a ninguém o direito de tirá-la, e uma morte rápida continua sendo uma morte. Ninguém aceitaria a frase como justificativa para matar um cão ou uma pessoa.
Resposta curta
Uma vida boa não dá direito de tirá-la; ao contrário, quanto melhor a vida, maior a perda. E a morte rápida continua sendo morte, de um animal jovem que teria muitos anos pela frente. A comparação com a natureza é falsa: a alternativa ao abatedouro não é ser comido por uma onça, é não ser criado para morrer. Ninguém aceitaria essa frase para um cão.
Para crianças
Imagine que alguém diz: "Seu gatinho viveu muito bem, então agora pode ser morto". Você concordaria? Não, porque ele ainda poderia viver muitos anos felizes. Ter uma vida boa não é motivo para tirá-la. É justamente por ser boa que vale a pena continuar vivendo.
"Você aceitaria que alguém matasse seu cachorro dizendo que ele teve uma vida boa e uma morte rápida?"
Como pode aparecer
"Tiveram uma vida boa e uma morte rápida."
"Viveram bem e morreram sem perceber."
"Melhor que morrer na natureza."
"Vida de boi de pasto é melhor que a de muita gente."
"Você prefere que ele morra comido por uma onça?"
"Uma vida que vale a pena seguida de morte indolor é um saldo positivo para o animal."
"Sem a criação, esses animais nem existiriam." (que é B6)
A versão mais forte
"Os animais tiveram uma vida boa e morreram sem perceber. Melhor que morrer de velho na natureza."
Versão mais forte (steelman):
- P1O que importa para um animal é a qualidade da vida e a ausência de sofrimento.
- P2Um animal criado com bem-estar e abatido sem dor teve uma vida que valeu a pena e uma morte sem sofrimento.
- P3Na natureza, muitos animais morrem de fome, doença ou predação, com muito sofrimento.
- CLogo, criar e abater com bem-estar não prejudica o animal, e pode até ser melhor para ele.
P3 é verdadeira: a vida na natureza tem muito sofrimento (veja Além do veganismo). O problema está em P1, que deixa de fora a perda da vida, e em P2, que descreve um ideal raro.
O argumento é válido. A solidez falha em P1 (A16) e em P2 (B1 e B2). A comparação de P3 é uma falsa dicotomia: a alternativa ao abatedouro não é a natureza selvagem, e sim não criar animais para matar.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento junta duas promessas e uma comparação:
Parte O que afirma O que acontece Vida boa Os animais viveram bem Cerca de três quartos dos animais de criação vivem em sistemas intensivos (B2) Morte rápida Morreram sem perceber O atordoamento falha e alguns métodos permitidos causam dor (B1) Comparação Melhor que a natureza A alternativa real é não criar, e não soltar na natureza - b
Onde o argumento quebra
1. Vida boa aumenta a perda.
Se a vida do animal era boa, a morte tira dele algo valioso. A promessa de vida boa é um argumento contra matar, e não a favor (A16).
2. Os animais são mortos jovens.
Na produção comercial, frangos de corte são abatidos com poucas semanas de vida e porcos com cerca de cinco meses, muito antes do fim natural de suas vidas.
3. As duas promessas raramente se cumprem juntas.
4. A comparação com a natureza é uma falsa dicotomia.
Animais de criação não seriam soltos na natureza: simplesmente não seriam trazidos à existência para morrer (B6). O sofrimento selvagem é real, mas não é a alternativa ao abate.
5. Ninguém aplica a frase a humanos ou a cães.
Uma vida feliz nunca foi justificativa para encurtá-la.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Our World in Data, *How many animals are factory-farmed?* Cerca de 74% dos animais de criação terrestres do mundo vivem em criação intensiva Mostra que a "vida boa" é exceção Expectativa de vida natural e idade de abate Frangos de corte com poucas semanas; porcos com cerca de cinco meses Tabela da Swissveg, organização vegana suíça: frango 5 a 6 semanas, porco 5 meses; no Brasil, frangos de corte são abatidos por volta dos 42 dias EFSA, *Welfare of pigs at slaughter* (2020) Métodos permitidos podem causar dor, medo e angústia antes da inconsciência Usado também em B1 - d
A melhor réplica: saldo positivo
A versão mais séria diz que, para animais que não teriam existido de outra forma, uma vida boa seguida de morte sem dor é um saldo positivo: eles ganham uma vida que vale a pena. Seria melhor para eles existir assim do que não existir.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Trazer à existência não dá direito de matar.
Pais que dão a vida a um filho não ganham o direito de tirá-la (B6).
O saldo positivo não exige a morte precoce.
Se a vida do animal é boa, o saldo seria ainda maior se ele vivesse mais. A morte não melhora a conta; só a encurta.
A réplica vale só para a exceção.
Para a maior parte dos animais, a vida não é boa, e o saldo, mesmo por esse critério, é negativo.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falsa dicotomia
Non sequitur
Epistemológico
A evidência sustenta?
Generalização do caso ideal
Moral
O critério é coerente?
Redução do dano ao sofrimento
Vieses
Paradoxo da carne
A imagem da vida boa alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los
Extrapolações
O princípio testado é: "uma vida boa seguida de morte rápida torna a morte aceitável".
Se valesse para…Cães e gatosToque para ver
Poderiam ser mortos depois de alguns anos de boa vida
Quase ninguém aceita
Se valesse para…HumanosToque para ver
Uma pessoa feliz poderia ser morta sem dor
Absurdo
Se valesse para…Animais resgatadosToque para ver
Santuários poderiam abatê-los depois de um tempo
Contraria a razão de existir dos santuários
Contradições
A vida boa do animal de estimação é razão para cuidar dele mais tempo.
Entre humanos, uma vida boa interrompida cedo é vista como tragédia.
Ninguém justifica outras práticas dizendo que seriam piores na selva.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Uma vida com bem-estar é muito melhor do que uma vida de confinamento, e uma morte sem dor é muito melhor do que uma morte dolorosa. Também é verdade que a natureza tem enorme sofrimento, e que idealizar a vida selvagem seria um erro.
Mas
Mas nada disso transforma a morte em um favor. Se a vida do animal é boa, a melhor coisa a fazer por ele é deixá-lo viver.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe: