Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / B. Dano, morte e bem-estar / Parte DIR

B5

"Tiveram uma vida boa e uma morte rápida."

A resposta em uma frase

o argumento junta duas promessas que raramente se cumprem e, mesmo quando se cumprem, não justificam a conclusão. Uma vida boa não dá a ninguém o direito de tirá-la, e uma morte rápida continua sendo uma morte. Ninguém aceitaria a frase como justificativa para matar um cão ou uma pessoa.

Resposta curta

Uma vida boa não dá direito de tirá-la; ao contrário, quanto melhor a vida, maior a perda. E a morte rápida continua sendo morte, de um animal jovem que teria muitos anos pela frente. A comparação com a natureza é falsa: a alternativa ao abatedouro não é ser comido por uma onça, é não ser criado para morrer. Ninguém aceitaria essa frase para um cão.

Para crianças

Imagine que alguém diz: "Seu gatinho viveu muito bem, então agora pode ser morto". Você concordaria? Não, porque ele ainda poderia viver muitos anos felizes. Ter uma vida boa não é motivo para tirá-la. É justamente por ser boa que vale a pena continuar vivendo.

Devolva com uma pergunta

"Você aceitaria que alguém matasse seu cachorro dizendo que ele teve uma vida boa e uma morte rápida?"

Como pode aparecer

"Tiveram uma vida boa e uma morte rápida."
Conversa cotidiana
"Viveram bem e morreram sem perceber."
Conversa cotidiana
"Melhor que morrer na natureza."
Conversa cotidiana
"Vida de boi de pasto é melhor que a de muita gente."
Redes sociais
"Você prefere que ele morra comido por uma onça?"
Pergunta retórica
"Uma vida que vale a pena seguida de morte indolor é um saldo positivo para o animal."
Versão acadêmica
"Sem a criação, esses animais nem existiriam." (que é B6)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Os animais tiveram uma vida boa e morreram sem perceber. Melhor que morrer de velho na natureza."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1O que importa para um animal é a qualidade da vida e a ausência de sofrimento.
  2. P2Um animal criado com bem-estar e abatido sem dor teve uma vida que valeu a pena e uma morte sem sofrimento.
  3. P3Na natureza, muitos animais morrem de fome, doença ou predação, com muito sofrimento.
  4. CLogo, criar e abater com bem-estar não prejudica o animal, e pode até ser melhor para ele.

P3 é verdadeira: a vida na natureza tem muito sofrimento (veja Além do veganismo). O problema está em P1, que deixa de fora a perda da vida, e em P2, que descreve um ideal raro.

O argumento é válido. A solidez falha em P1 (A16) e em P2 (B1 e B2). A comparação de P3 é uma falsa dicotomia: a alternativa ao abatedouro não é a natureza selvagem, e sim não criar animais para matar.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento junta duas promessas e uma comparação:

    ParteO que afirmaO que acontece
    Vida boaOs animais viveram bemCerca de três quartos dos animais de criação vivem em sistemas intensivos (B2)
    Morte rápidaMorreram sem perceberO atordoamento falha e alguns métodos permitidos causam dor (B1)
    ComparaçãoMelhor que a naturezaA alternativa real é não criar, e não soltar na natureza
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Vida boa aumenta a perda.

    Se a vida do animal era boa, a morte tira dele algo valioso. A promessa de vida boa é um argumento contra matar, e não a favor (A16).

    2. Os animais são mortos jovens.

    Na produção comercial, frangos de corte são abatidos com poucas semanas de vida e porcos com cerca de cinco meses, muito antes do fim natural de suas vidas.

    3. As duas promessas raramente se cumprem juntas.

    A maior parte dos animais vem de criação intensiva, e mesmo nas melhores criações o atordoamento pode falhar (B1, B2).

    4. A comparação com a natureza é uma falsa dicotomia.

    Animais de criação não seriam soltos na natureza: simplesmente não seriam trazidos à existência para morrer (B6). O sofrimento selvagem é real, mas não é a alternativa ao abate.

    5. Ninguém aplica a frase a humanos ou a cães.

    Uma vida feliz nunca foi justificativa para encurtá-la.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Our World in Data, *How many animals are factory-farmed?*Cerca de 74% dos animais de criação terrestres do mundo vivem em criação intensivaMostra que a "vida boa" é exceção
    Expectativa de vida natural e idade de abateFrangos de corte com poucas semanas; porcos com cerca de cinco mesesTabela da Swissveg, organização vegana suíça: frango 5 a 6 semanas, porco 5 meses; no Brasil, frangos de corte são abatidos por volta dos 42 dias
    EFSA, *Welfare of pigs at slaughter* (2020)Métodos permitidos podem causar dor, medo e angústia antes da inconsciênciaUsado também em B1
  4. d

    A melhor réplica: saldo positivo

    A versão mais séria diz que, para animais que não teriam existido de outra forma, uma vida boa seguida de morte sem dor é um saldo positivo: eles ganham uma vida que vale a pena. Seria melhor para eles existir assim do que não existir.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Trazer à existência não dá direito de matar.

    Pais que dão a vida a um filho não ganham o direito de tirá-la (B6).

    O saldo positivo não exige a morte precoce.

    Se a vida do animal é boa, o saldo seria ainda maior se ele vivesse mais. A morte não melhora a conta; só a encurta.

    A réplica vale só para a exceção.

    Para a maior parte dos animais, a vida não é boa, e o saldo, mesmo por esse critério, é negativo.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falsa dicotomia
Abatedouro ou natureza selvagem, como se não houvesse outra opção
Non sequitur
De "teve uma vida boa" conclui "pode ser morto"

Epistemológico

A evidência sustenta?

Generalização do caso ideal
Toma a exceção como regra

Moral

O critério é coerente?

Redução do dano ao sofrimento
Esquece a perda da vida

Vieses

Viés de otimismo

Supõe que os animais consumidos tiveram a vida do comercial

Ligado a B2

Paradoxo da carne

A imagem da vida boa alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Ignorância deliberada

Evita-se saber como os animais realmente viveram e morreram

Ligado a E7

Extrapolações

O princípio testado é: "uma vida boa seguida de morte rápida torna a morte aceitável".

Se valesse para…Cães e gatosToque para ver

Poderiam ser mortos depois de alguns anos de boa vida

Quase ninguém aceita

Se valesse para…HumanosToque para ver

Uma pessoa feliz poderia ser morta sem dor

Absurdo

Se valesse para…Animais resgatadosToque para ver

Santuários poderiam abatê-los depois de um tempo

Contraria a razão de existir dos santuários

Contradições

Não aceitaria a frase para o próprio cão.

A vida boa do animal de estimação é razão para cuidar dele mais tempo.

Lamenta a morte precoce de quem viveu bem.

Entre humanos, uma vida boa interrompida cedo é vista como tragédia.

Usa a natureza como comparação só aqui.

Ninguém justifica outras práticas dizendo que seriam piores na selva.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Uma vida com bem-estar é muito melhor do que uma vida de confinamento, e uma morte sem dor é muito melhor do que uma morte dolorosa. Também é verdade que a natureza tem enorme sofrimento, e que idealizar a vida selvagem seria um erro.

Mas

Mas nada disso transforma a morte em um favor. Se a vida do animal é boa, a melhor coisa a fazer por ele é deixá-lo viver.

Conexões

Costuma vir antes

B1 Existe abate humanitário.Junta as duas promessas
B2 Animais soltos, caipiras, são felizes.Se a vida não é tão boa, junta-se a promessa da morte rápida
A16 Matar sem dor não é dano.Junta a morte sem dor à promessa de vida boa
B5este argumento

Costuma vir depois

B6 Sem a criação, esses animais nem existiriam.Se a vida boa não autoriza matar, diz-se que eles nem existiriam
F3 Então deveríamos impedir leões de caçar?A comparação com a natureza vira provocação

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências