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"Carne é gostosa."
o prazer do paladar é real, mas é um interesse pequeno colocado contra o maior interesse de outro ser: continuar vivo e não sofrer. Em nenhum outro contexto aceitamos que o gosto de alguém justifique matar. E o prazer de comer não depende do animal: o paladar é em grande parte aprendido, e boa parte do que torna a carne gostosa vem do preparo, do sal, da gordura e do tempero.
Capítulo-raiz: é uma das três raízes onde as conversas terminam, com A10 e E12
Nota: embora esteja na Parte IND, este é um dos argumentos mais francos do catálogo. Ele não alega necessidade nem impossibilidade: admite que a razão é o prazer.
Resposta curta
Ninguém duvida que carne seja gostosa para quem gosta. A pergunta é se esse prazer justifica a morte de alguém. De um lado está o sabor de uma refeição; do outro, a vida inteira de um animal. Em nenhum outro contexto aceitamos que o gosto de alguém justifique matar: ninguém defenderia comer cachorro porque a carne é saborosa. E o prazer não depende do animal: o paladar se acostuma, e o tempero, o sal e a gordura estão também na comida vegetal.
Para crianças
Imagine que você adora um brinquedo, mas para brincar com ele alguém precisa se machucar. Seria certo brincar mesmo assim, só porque é divertido? A maioria das pessoas diria que não. Gostar de alguma coisa é bom, mas não deixa a gente machucar os outros. E dá para descobrir comidas novas muito gostosas que não machucam ninguém.
"Se a carne de cachorro fosse a mais gostosa do mundo, isso tornaria aceitável comê-la?"
Como pode aparecer
"Carne é gostosa demais."
"Bacon é bom demais."
"Não vivo sem queijo."
"Picanha é sagrada."
"Pode ter o argumento que for, eu continuo no meu churrasco."
"E vou viver comendo o quê, só salada?" (que é J10)
"A vida é curta para abrir mão do que eu gosto."
"O prazer gustativo tem valor e deve ser pesado contra o custo para os animais."
"Sei que é errado, mas gosto demais para parar." (que é E12)
A versão mais forte
"Eu sei, mas carne é gostosa demais. Não vivo sem um churrasco."
Versão mais forte (steelman):
- P1O prazer é um bem real, e uma boa vida inclui prazeres, entre eles os da comida.
- P2Comer carne proporciona um prazer que, para muitas pessoas, nenhum substituto oferece da mesma forma.
- P3Abrir mão de um prazer importante é um custo legítimo, que deve entrar na balança moral.
- CLogo, o prazer de comer carne é uma razão válida para continuar comendo.
P1 e P3 são verdadeiras: ninguém precisa abrir mão de prazeres sem motivo, e o custo de mudar existe. O problema está no que é colocado do outro lado da balança.
O argumento é válido apenas na forma "o prazer é uma razão". Ele falha quando concluído como "o prazer é razão suficiente", porque a balança tem dois lados e o outro lado é a vida inteira de alguém.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento é honesto, e isso é uma qualidade: ele não finge necessidade. Mas expõe com clareza o que está em jogo na balança.
Lado da balança O que pesa Quem come A diferença de prazer entre uma refeição com carne e uma refeição sem carne O animal A vida inteira, a ausência de sofrimento e todas as experiências que ainda teria O princípio da igual consideração de interesses, formulado por Peter Singer, diz que interesses semelhantes devem ter peso semelhante, e que um interesse menor não deve prevalecer sobre um interesse maior só porque pertence a alguém da nossa espécie. Aqui, um interesse trivial de um lado se opõe a um interesse vital do outro.
- b
Onde o argumento quebra
1. Prazer não justifica dano em nenhum outro contexto.
Ninguém aceita "fiz porque gosto" como justificativa para machucar um cão, para a briga de galo ou para qualquer dano a humanos. O critério só é aceito quando a vítima é um animal de criação.
2. A desproporção é enorme.
A diferença de prazer entre uma refeição e outra é pequena e passageira. Do outro lado estão a vida inteira e, na prática, o sofrimento de um animal criado em escala industrial. Mesmo quem atribui menos valor aos animais teria dificuldade em fazer essa conta fechar.
3. O paladar é aprendido.
Preferências alimentares se formam pela experiência e pela exposição repetida, especialmente na infância, e mudam com o tempo. Muitas pessoas que param de comer carne relatam que o desejo diminui com o tempo. O prazer que parece insubstituível é, em boa parte, um hábito.
4. O prazer não vem só do animal.
Muito do sabor associado à carne vem do sal, da gordura, da defumação, da caramelização e dos temperos, todos disponíveis em pratos vegetais. Existem também alternativas que imitam textura e sabor, e a culinária vegetal de muitas culturas é antiga e rica (J10).
5. O argumento concede o ponto moral.
Quem diz "é gostoso" raramente diz "não há nada de errado". Ao apelar ao prazer, admite-se que não há outra razão. Por isso J11 é uma das raízes do mapa de conexões: é onde a conversa chega quando as outras justificativas caem.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Piazza et al., 2015, *Appetite* "Gostoso" (nice) é uma das quatro justificativas mais usadas para comer carne, e o conjunto delas cobre de 83% a 91% das justificativas dadas Seis estudos Birch, 1999, *Annual Review of Nutrition* Preferências alimentares se formam pela interação entre predisposições e experiência alimentar, sobretudo nos primeiros anos Conferido em resumo e registros bibliográficos Singer, *Libertação Animal* (1975)) Princípio da igual consideração de interesses Obra que popularizou o termo "especismo" - d
A melhor réplica: pequenos prazeres somam uma vida boa
A versão mais séria não diz que o prazer de uma refeição vale mais que uma vida. Diz que os prazeres da comida são parte importante de uma vida boa, ligados a afeto, cultura e convívio, e que pedir que alguém renuncie a eles é pedir muito. Além disso, a compra de uma pessoa não mata diretamente um animal específico (K1, K2), então a balança não seria uma vida contra uma refeição.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
O convívio não depende do animal.
Afeto, cultura e encontros continuam existindo com outro cardápio (D8). O que se perde é um ingrediente, não a vida social.
Somados, os animais também somam.
Se as refeições se acumulam numa vida, os animais consumidos também: uma pessoa come centenas ou milhares de animais ao longo da vida.
A objeção causal tem resposta.
Mesmo sem matar diretamente um animal específico, cada compra tem um efeito esperado sobre quantos animais são criados e mortos, como mostra o capítulo K1.
"Pedir muito" fala da dificuldade, não da justiça.
A dificuldade pode explicar por que alguém ainda não mudou. Não transforma em justo o que se faz ao animal.
- f
De volta à questão moral
Este é um dos três pontos onde as conversas costumam terminar, porque admite o essencial: o que sobra é o prazer. A pergunta moral fica nítida: o prazer de um sabor, que pode ser em grande parte recriado com plantas, pesa mais que a vida inteira de um animal que sente?
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Razão insuficiente
Mudança de questão
Epistemológico
A evidência sustenta?
Superestimação do insubstituível
Moral
O critério é coerente?
Desproporção de interesses
Dois pesos
Vieses
Paradoxo da carne
Comer carne leva a atribuir menos mente e menos status moral ao animal
Desconto do futuro
O prazer imediato pesa mais do que as consequências distantes
Literatura geral sobre desconto temporal
Aversão à perda e efeito dotação
O sabor que já se tem vale mais do que os sabores que se ganhariam
Extrapolações
O princípio testado é: "o prazer de quem consome justifica o dano a quem é consumido".
Se valesse para…Carne de cachorroToque para ver
Seria aceitável se fosse saborosa
Quase ninguém aceita no Brasil
Se valesse para…Briga de galo e farra do boiToque para ver
Seriam justificadas pelo prazer dos espectadores
O STF proibiu as duas
Se valesse para…Caça por esporteToque para ver
O prazer da caçada bastaria
Muita gente que come carne condena
Se valesse para…Danos a humanosToque para ver
O prazer de alguém justificaria prejudicar outro
Nenhuma ética aceita
Contradições
A mesma pessoa condenaria quem machuca um animal "porque gosta".
O sabor deixa de importar quando a espécie muda.
Quase todo mundo passou a gostar de comidas de que não gostava na infância, e deixou de gostar de outras.
Dietas, regimes e restrições por saúde ou estética mostram que o prazer não é intocável.
Se não houvesse nada de errado, não seria preciso dizer "mas é gostoso".
O que o argumento acerta
O que é verdade
O argumento tem uma honestidade que falta a muitos outros: ele não inventa necessidade. E há verdade nele. O prazer da comida importa, faz parte de uma vida boa e está ligado a memórias, cultura e afeto. Mudar a alimentação tem custos reais, e ninguém deveria fingir que é fácil para todo mundo.
Mas
Mas, justamente por ser franco, o argumento mostra onde está a questão. Se a única razão é o prazer, a pergunta é se o prazer de uma refeição vale a vida de alguém. Quase todo mundo responde que não em qualquer outro caso, e o prazer, ao contrário da vida, pode ser encontrado em outro prato.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Referências
Filosofia
- Libertação Animal.
Psicologia e nutrição
- Rationalizing meat consumption. The 4Ns. *Appetite*, 91.
- Development of food preferences. *Annual Review of Nutrition*, 19.
- The role of meat consumption in the denial of moral status and mind to meat animals. *Appetite*, 55(1).
- Status quo bias in decision making. *Journal of Risk and Uncertainty*, 1(1).