Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A14

"Plantas também sentem."

A resposta em uma frase

não há evidência de que plantas tenham experiência: elas não têm neurônios nem cérebro, e reagir a estímulos não é o mesmo que sentir. Mas, mesmo que sentissem, o argumento se voltaria contra quem o usa: a pecuária consome muito mais plantas do que uma dieta vegetal, porque os animais precisam ser alimentados. Quem se preocupa com as plantas deveria, por isso mesmo, comer plantas.

Resposta curta

Plantas reagem ao ambiente, mas não há evidência de que sintam: não têm neurônios, cérebro nem nada que faça o papel deles. E, mesmo se sentissem, comer animais seria pior para as plantas, porque os animais comem muitas plantas antes de virar comida: cerca de um terço das calorias produzidas pela agricultura no mundo vai para a ração animal. Se as plantas importam, a conclusão é comer plantas.

Para crianças

Uma planta se vira para o sol, mas não sente o sol como você sente o calor no rosto. Ela não tem cérebro nem nervos, que são as partes do corpo que deixam a gente sentir dor. Um porquinho tem. E tem mais: para criar um porquinho, é preciso dar a ele muitas plantas para comer. Então quem come plantas diretamente acaba usando muito menos plantas do que quem come animais.

Devolva com uma pergunta

"Se as plantas sentissem, não seria melhor comer as plantas do que comer quem come muitas plantas?"

Como pode aparecer

"E a alface, não sofre?"
Conversa cotidiana
"Planta também é ser vivo."
Conversa cotidiana
"Assassino de cenoura."
Redes sociais
"Li que as plantas se comunicam e gritam quando são cortadas."
Redes sociais
"Por que a vida de uma planta vale menos?"
Pergunta retórica
"Há pesquisas sobre inteligência e comunicação vegetal."
Versão científica
"Não temos como excluir a experiência em organismos sem sistema nervoso."
Versão acadêmica
"Se até as plantas importam, tanto faz o que eu como."
Conversa cotidiana
"Tudo o que você come morreu." (que leva a L5)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"E a alface, não sofre? Planta também é ser vivo."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Plantas reagem ao ambiente de forma complexa: percebem luz, toque e danos, e se comunicam quimicamente.
  2. P2Se essas reações forem uma forma de sentir, comer plantas também causa dano.
  3. P3Se todo modo de comer causa dano, não há diferença moral entre comer plantas e comer animais.
  4. CLogo, o veganismo não tem vantagem moral.

P1 é verdadeira: a biologia das plantas é sofisticada. O argumento falha em P2, que confunde reação com experiência, e em P3, que ignora quantidades.

O argumento é válido na forma, mas P2 não tem respaldo na evidência e P3 é falsa mesmo se P2 fosse verdadeira.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento depende de tratar como iguais duas coisas diferentes:

    ConceitoO que éExemplo
    ReaçãoResposta a um estímulo, sem que haja alguém sentindoUm termostato liga o ar; uma planta se vira para a luz
    ExperiênciaHaver algo que é, para alguém, estar naquele estadoSentir dor, medo ou prazer

    Senciência é a capacidade de ter experiências boas ou ruins. Ela exige alguma estrutura capaz de integrar informação numa experiência, e nos animais isso está ligado ao sistema nervoso.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Não há evidência de experiência em plantas.

    Em 2019, um grupo de biólogos vegetais publicou uma revisão concluindo que plantas não possuem nem precisam de consciência: não têm neurônios nem cérebro, e não há razão evolutiva para que tenham desenvolvido faculdades mentais caras. Os mesmos autores não negam que plantas tenham comportamentos complexos, o que é outra coisa.

    2. Reagir não é sentir.

    Plantas reagem a toque, luz e danos, como muitos sistemas sem mente. A palavra "comunicação", usada para sinais químicos entre plantas, é uma metáfora: não implica que alguém esteja ouvindo ou sofrendo.

    3. Mesmo se sentissem, comer animais seria pior.

    Animais precisam comer plantas para crescer. Cerca de 36% das calorias das lavouras do mundo vão para a ração animal, e só cerca de 12% dessas calorias chegam às pessoas na forma de carne, leite e ovos. Comer plantas diretamente usa muito menos plantas.

    4. O argumento prova demais.

    Se a possibilidade de sentir das plantas anulasse qualquer diferença moral, então não haveria diferença entre comer uma alface e comer um cachorro, ou um humano. Quase ninguém aceita isso.

    5. A dúvida costuma ser seletiva.

    A preocupação com as plantas quase sempre aparece como resposta ao veganismo, e não como motivo para mudar o próprio trato com elas. Isso não refuta o argumento, mas sugere que ele não é a razão real de quem o usa.

    6. Se as plantas importassem, comer animais seria o pior dos dois mundos.

    Os animais criados para consumo comem muito mais plantas do que as pessoas comeriam diretamente. Quem leva a sério a ideia de que plantas contam deveria, por coerência, comer menos animais, e não mais. Levada ao fim, a conclusão seria o frugivorismo, e não o churrasco.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Taiz et al., 2019, *Trends in Plant Science*Plantas não possuem nem precisam de consciência; faltam neurônios, cérebro e razão evolutiva para issoArtigo de opinião de biólogos vegetais; houve réplicas defendendo mais pesquisa
    Cassidy et al., 2013, *Environmental Research Letters*36% das calorias das lavouras do mundo viram ração animal, e só 12% dessas calorias chegam à alimentação humanaEstudo sobre quantas pessoas cada hectare alimenta
    Questão de Ética, vol. VI, cap. 21Se plantas fossem consideráveis, comer animais continuaria piorBase do último ponto
    Questão de Ética, vol. IV, cap. 4Responde à objeção "e as plantas?"Visão geral
  4. d

    A melhor réplica: não sabemos onde a consciência começa

    A versão mais séria não diz que plantas sentem. Diz que não sabemos onde termina a consciência, que existem teorias, como algumas versões do panpsiquismo, que atribuem algum grau de experiência a sistemas muito simples, e que, por humildade, não deveríamos traçar fronteiras com tanta segurança.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Humildade pede proporção.

    Admitir incerteza não é tratar todas as hipóteses como igualmente prováveis. A evidência de senciência em vertebrados é forte; em plantas, praticamente nula.

    Mesmo sob incerteza, a conclusão é a mesma.

    Se há alguma chance de as plantas sentirem, comer menos plantas, o que significa comer plantas e não animais, continua sendo a escolha que causa menos dano.

    Incerteza sobre plantas não apaga certeza sobre animais.

    Uma dúvida remota sobre um caso não dissolve o que sabemos sobre outro.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Equivocação
Usa "sentir" e "comunicar" em sentido metafórico e conclui no sentido literal
Falsa equivalência
Trata comer plantas e comer animais como iguais em dano
Prova demais
Se valesse, não haveria diferença entre comer alface e comer um cão

Epistemológico

A evidência sustenta?

Peso desproporcional à hipótese fraca
Dá à senciência vegetal o mesmo peso que à animal

Moral

O critério é coerente?

Ignorar quantidades
Esquece que a pecuária consome muito mais plantas

Vieses

Raciocínio motivado

A dúvida sobre plantas aparece justamente quando dispensa a mudança

Literatura geral sobre cognição motivada

Paradoxo da carne

Diluir o critério alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Insensibilidade à escala

Ignora que a pecuária consome muito mais plantas

Ligado a K1

Extrapolações

O princípio testado é: "se as plantas talvez sintam, não há diferença moral entre comer plantas e comer animais".

Se valesse para…Cães e gatosToque para ver

Comê-los seria equivalente a comer alface

Quase ninguém aceita

Se valesse para…HumanosToque para ver

Também não haveria diferença

Mostra que o princípio não é levado a sério

Se valesse para…JardinagemToque para ver

Podar seria tão grave quanto ferir um animal

Ninguém trata assim

Contradições

Não trata plantas como seres que sentem.

Ninguém se preocupa em podar uma árvore ou cortar a grama.

Não aceitaria comer um cão pelo mesmo raciocínio.

Se plantas e animais fossem iguais, não haveria por que hesitar.

Come mais plantas comendo animais.

A preocupação, se fosse real, levaria a comer plantas diretamente.

Só levanta a questão diante de veganos.

A preocupação com plantas não aparece em nenhum outro contexto.

O que o argumento acerta

O que é verdade

As plantas são organismos fascinantes, com respostas ao ambiente mais sofisticadas do que se imaginava, e a pesquisa sobre elas merece atenção. Também é verdade que a ciência da consciência tem incertezas reais, e que a humildade é uma boa atitude diante delas.

Mas

Mas a evidência disponível aponta numa direção clara: quem tem sistema nervoso pode sentir, e quem não tem, muito provavelmente não. E, mesmo que as plantas sentissem, a conclusão não mudaria: a forma de causar menos dano a elas seria comer plantas, e não animais alimentados com elas.