Início / L. Ataques ao veganismo e aos veganos / Parte IND
"Você usa celular, logo é hipócrita."
a incoerência de quem defende uma ideia não torna a ideia falsa. O argumento ataca a pessoa e deixa intacta a questão. Além disso, o veganismo nunca prometeu pureza: sua própria definição fala em evitar a exploração "na medida do possível e praticável". Fazer o possível num mundo imperfeito não é hipocrisia; hipocrisia seria exigir dos outros o que não se tenta fazer.
Resposta curta
Mesmo que eu fosse incoerente, isso não tornaria falso o que estou dizendo: o animal sofre igual, seja quem for que aponte. E o veganismo nunca prometeu pureza: a definição da Vegan Society fala em evitar a exploração "na medida do possível e praticável". Não existe hoje um celular sem impacto, mas existe almoço sem animal. Fazer o que é possível não é hipocrisia; é o que se espera de qualquer pessoa com um princípio.
Para crianças
Imagine que um colega diz "não se deve jogar lixo no chão", e no dia seguinte deixa cair um papel sem querer. Isso quer dizer que jogar lixo no chão passou a ser certo? Não. O papel caído mostra que ele erra às vezes, como todo mundo, mas a regra continua certa. Com os animais é igual: ninguém consegue ser perfeito, mas isso não torna certo machucá-los.
"Se eu fosse perfeito, você pararia de comer carne?"
Como pode aparecer
"Você usa celular, logo é hipócrita."
"Você anda de carro."
"E o pneu do seu carro, que tem gordura animal?"
"Seu celular tem minério de trabalho infantil."
"Vegano postando do iPhone."
"Quantos ratos morreram para a sua soja?" (que é H2)
"Quem tem telhado de vidro não joga pedra."
"Ninguém que participa de cadeias produtivas danosas tem legitimidade para condenar outras."
"Nenhum vegano é 100% vegano." (que é L5)
A versão mais forte
"Você usa celular, que tem minério extraído com trabalho infantil, anda de carro e come plantas colhidas com máquinas que matam bichos. Que moral você tem para falar de mim?"
Versão mais forte (steelman):
- P1Quem afirma um princípio moral deve segui-lo de forma coerente.
- P2Veganos também participam de práticas que causam dano a animais e a humanos.
- P3Quem não segue o próprio princípio não tem autoridade para cobrá-lo dos outros.
- CLogo, a crítica vegana não precisa ser levada a sério.
P2 é, em parte, verdadeira: ninguém vive sem causar algum dano numa economia complexa. O problema está em P3 e na conclusão.
O argumento é inválido na forma em que costuma ser usado. Da incoerência de quem fala não se segue que o que ele diz seja falso. Esse é o erro clássico do tu quoque ("você também").
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento muda o assunto da questão para a pessoa. Há duas perguntas diferentes:
Pergunta Sobre o quê O que o tu quoque responde Comer animais é errado? Sobre a prática Nada Quem critica é coerente? Sobre a pessoa Talvez não, mas isso não muda a primeira resposta O tu quoque é uma forma de ad hominem: em vez de avaliar o argumento, aponta-se a conduta de quem o apresenta. Um médico fumante que diz que fumar faz mal está certo, embora seja incoerente.
- b
Onde o argumento quebra
1. A verdade não depende de quem fala.
Se comer animais causa dano evitável, isso é verdade venha a crítica de um vegano perfeito, de um incoerente ou de alguém que ainda come carne. A conduta do mensageiro não altera a condição do animal.
2. O veganismo não promete pureza.
A definição da Vegan Society, em uso desde 1988, descreve o veganismo como uma filosofia que busca excluir, "na medida do possível e praticável", todas as formas de exploração e crueldade com animais. O critério nunca foi a perfeição, e sim o esforço possível.
3. Possível e praticável não são iguais para tudo.
Não há hoje, para a maioria das pessoas, um celular sem minérios de cadeias problemáticas: em 2016, a Anistia Internacional documentou trabalho infantil na extração de cobalto usado em baterias de celulares. Mas há, para a maioria das pessoas, uma refeição sem animais. Comparar uma escolha sem alternativa com uma escolha com alternativa é uma falsa equivalência.
4. Hipocrisia é outra coisa.
Hipócrita é quem cobra dos outros o que não tenta fazer, ou quem finge seguir um princípio que não segue. Quem reconhece suas limitações e faz o possível está sendo coerente com um princípio realista, e não hipócrita.
5. O argumento, levado a sério, silencia todo mundo.
Como ninguém é perfeitamente coerente, ninguém poderia criticar nenhuma injustiça. Quem usa o tu quoque contra veganos também usa celular, e mesmo assim critica outras coisas.
6. A objeção, quando procede, pede mais, não menos.
Se o problema do celular é o trabalho infantil, a conclusão coerente é se preocupar também com isso, e não deixar de se preocupar com os animais. O argumento usa um dano para justificar outro.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação The Vegan Society, definição de veganismo Veganismo busca excluir, "na medida do possível e praticável", a exploração e a crueldade com animais Definição oficial; versão atual em uso desde 1988 Anistia Internacional e Afrewatch, *This is what we die for* (2016) Documenta trabalho infantil na extração de cobalto na República Democrática do Congo, usado em baterias de celulares e carros elétricos Conferido em resumos e na cobertura do relatório - d
A melhor réplica: não é sobre lógica, é sobre credibilidade
A versão mais séria admite que o tu quoque não refuta nada. Mas diz que credibilidade importa na prática: quem prega o que não pratica perde a confiança de quem ouve, e um movimento que exige muito dos outros deveria ser exemplar. Além disso, veganos às vezes falam como se fossem livres de qualquer dano, e é justo apontar quando isso não é verdade.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Credibilidade afeta a persuasão, não a verdade.
Pode ser mais difícil ouvir alguém incoerente, mas o que ele diz continua verdadeiro ou falso pelos próprios méritos.
A crítica ao discurso de pureza é correta, e já foi feita.
Veganos que se apresentam como perfeitos estão errados, e este guia diz isso nos argumentos ruins de veganos. Mas corrigir o discurso não muda a questão sobre os animais.
Exigir exemplo perfeito é exigir o impossível.
Nenhum movimento por justiça teria começado se só pessoas perfeitas pudessem falar.
A réplica se aplica a quem a usa.
Se a incoerência tira a autoridade de criticar, quem come carne e diz amar animais (E8) também a perde.
- f
De volta à questão moral
Apontar a incoerência de quem fala não responde ao que foi dito. Mesmo que todos os veganos fossem hipócritas, a pergunta continuaria a mesma: é justo fazer animais sofrerem e morrerem quando não precisamos?
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Tu quoque
Ad hominem
Falsa equivalência
Falácia do nirvana
Moral
O critério é coerente?
Uso de um dano para justificar outro
Vieses
Paradoxo da carne
A tensão entre gostar de animais e comê-los é aliviada ao rebaixar quem a lembra
Efeito do mensageiro
A suposta incoerência de quem fala vira razão para ignorar o que diz
Extrapolações
O princípio testado é: "quem não é perfeitamente coerente não pode criticar".
Se valesse para…Médicos que fumamToque para ver
Não poderiam alertar sobre o cigarro
O alerta continua correto
Se valesse para…Ativistas contra o trabalho infantilToque para ver
Não poderiam denunciar, porque usam celular
O argumento silenciaria a própria causa que cita
Se valesse para…Qualquer crítica moralToque para ver
Ninguém poderia criticar nada, porque ninguém é perfeito
Toda reforma moral teria sido impossível
Se valesse para…Quem usa o argumentoToque para ver
Também não poderia criticar ninguém
O princípio se volta contra quem o usa
Contradições
Quem usa o argumento também denuncia corrupção, violência ou desigualdade, sem se considerar hipócrita.
O dano do celular aparece só como munição contra veganos, e não como motivo de mudança.
Ouvimos médicos que fumam, professores que erram e pais que não seguem tudo o que ensinam.
A mesma régua nunca é aplicada a quem defende outras causas.
Se houvesse resposta para a questão, não seria preciso falar do celular.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Há algo justo aqui. Veganos também causam danos, e não há como viver numa economia complexa sem participar de alguma cadeia problemática. Quando alguém fala como se estivesse acima disso, a crítica procede, e a humildade é uma virtude que o movimento precisa cultivar. Também é verdade que a coerência importa: quem defende um princípio deve tentar vivê-lo.
Mas
Mas apontar a falha de alguém não responde à pergunta. O animal sofre do mesmo jeito, e ninguém precisa ser perfeito para reconhecer isso. A coerência que se pode exigir é a de fazer o possível, e deixar de comer animais está, para a maioria das pessoas, ao alcance de hoje.
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