Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / L. Ataques ao veganismo e aos veganos / Parte IND

L4

"Você usa celular, logo é hipócrita."

A resposta em uma frase

a incoerência de quem defende uma ideia não torna a ideia falsa. O argumento ataca a pessoa e deixa intacta a questão. Além disso, o veganismo nunca prometeu pureza: sua própria definição fala em evitar a exploração "na medida do possível e praticável". Fazer o possível num mundo imperfeito não é hipocrisia; hipocrisia seria exigir dos outros o que não se tenta fazer.

Resposta curta

Mesmo que eu fosse incoerente, isso não tornaria falso o que estou dizendo: o animal sofre igual, seja quem for que aponte. E o veganismo nunca prometeu pureza: a definição da Vegan Society fala em evitar a exploração "na medida do possível e praticável". Não existe hoje um celular sem impacto, mas existe almoço sem animal. Fazer o que é possível não é hipocrisia; é o que se espera de qualquer pessoa com um princípio.

Para crianças

Imagine que um colega diz "não se deve jogar lixo no chão", e no dia seguinte deixa cair um papel sem querer. Isso quer dizer que jogar lixo no chão passou a ser certo? Não. O papel caído mostra que ele erra às vezes, como todo mundo, mas a regra continua certa. Com os animais é igual: ninguém consegue ser perfeito, mas isso não torna certo machucá-los.

Devolva com uma pergunta

"Se eu fosse perfeito, você pararia de comer carne?"

Como pode aparecer

"Você usa celular, logo é hipócrita."
Conversa cotidiana
"Você anda de carro."
Conversa cotidiana
"E o pneu do seu carro, que tem gordura animal?"
Conversa cotidiana
"Seu celular tem minério de trabalho infantil."
Conversa cotidiana
"Vegano postando do iPhone."
Redes sociais
"Quantos ratos morreram para a sua soja?" (que é H2)
Pergunta retórica
"Quem tem telhado de vidro não joga pedra."
Versão moral
"Ninguém que participa de cadeias produtivas danosas tem legitimidade para condenar outras."
Versão acadêmica
"Nenhum vegano é 100% vegano." (que é L5)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Você usa celular, que tem minério extraído com trabalho infantil, anda de carro e come plantas colhidas com máquinas que matam bichos. Que moral você tem para falar de mim?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Quem afirma um princípio moral deve segui-lo de forma coerente.
  2. P2Veganos também participam de práticas que causam dano a animais e a humanos.
  3. P3Quem não segue o próprio princípio não tem autoridade para cobrá-lo dos outros.
  4. CLogo, a crítica vegana não precisa ser levada a sério.

P2 é, em parte, verdadeira: ninguém vive sem causar algum dano numa economia complexa. O problema está em P3 e na conclusão.

O argumento é inválido na forma em que costuma ser usado. Da incoerência de quem fala não se segue que o que ele diz seja falso. Esse é o erro clássico do tu quoque ("você também").

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento muda o assunto da questão para a pessoa. Há duas perguntas diferentes:

    PerguntaSobre o quêO que o tu quoque responde
    Comer animais é errado?Sobre a práticaNada
    Quem critica é coerente?Sobre a pessoaTalvez não, mas isso não muda a primeira resposta

    O tu quoque é uma forma de ad hominem: em vez de avaliar o argumento, aponta-se a conduta de quem o apresenta. Um médico fumante que diz que fumar faz mal está certo, embora seja incoerente.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. A verdade não depende de quem fala.

    Se comer animais causa dano evitável, isso é verdade venha a crítica de um vegano perfeito, de um incoerente ou de alguém que ainda come carne. A conduta do mensageiro não altera a condição do animal.

    2. O veganismo não promete pureza.

    A definição da Vegan Society, em uso desde 1988, descreve o veganismo como uma filosofia que busca excluir, "na medida do possível e praticável", todas as formas de exploração e crueldade com animais. O critério nunca foi a perfeição, e sim o esforço possível.

    3. Possível e praticável não são iguais para tudo.

    Não há hoje, para a maioria das pessoas, um celular sem minérios de cadeias problemáticas: em 2016, a Anistia Internacional documentou trabalho infantil na extração de cobalto usado em baterias de celulares. Mas há, para a maioria das pessoas, uma refeição sem animais. Comparar uma escolha sem alternativa com uma escolha com alternativa é uma falsa equivalência.

    4. Hipocrisia é outra coisa.

    Hipócrita é quem cobra dos outros o que não tenta fazer, ou quem finge seguir um princípio que não segue. Quem reconhece suas limitações e faz o possível está sendo coerente com um princípio realista, e não hipócrita.

    5. O argumento, levado a sério, silencia todo mundo.

    Como ninguém é perfeitamente coerente, ninguém poderia criticar nenhuma injustiça. Quem usa o tu quoque contra veganos também usa celular, e mesmo assim critica outras coisas.

    6. A objeção, quando procede, pede mais, não menos.

    Se o problema do celular é o trabalho infantil, a conclusão coerente é se preocupar também com isso, e não deixar de se preocupar com os animais. O argumento usa um dano para justificar outro.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    The Vegan Society, definição de veganismoVeganismo busca excluir, "na medida do possível e praticável", a exploração e a crueldade com animaisDefinição oficial; versão atual em uso desde 1988
    Anistia Internacional e Afrewatch, *This is what we die for* (2016)Documenta trabalho infantil na extração de cobalto na República Democrática do Congo, usado em baterias de celulares e carros elétricosConferido em resumos e na cobertura do relatório
  4. d

    A melhor réplica: não é sobre lógica, é sobre credibilidade

    A versão mais séria admite que o tu quoque não refuta nada. Mas diz que credibilidade importa na prática: quem prega o que não pratica perde a confiança de quem ouve, e um movimento que exige muito dos outros deveria ser exemplar. Além disso, veganos às vezes falam como se fossem livres de qualquer dano, e é justo apontar quando isso não é verdade.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Credibilidade afeta a persuasão, não a verdade.

    Pode ser mais difícil ouvir alguém incoerente, mas o que ele diz continua verdadeiro ou falso pelos próprios méritos.

    A crítica ao discurso de pureza é correta, e já foi feita.

    Veganos que se apresentam como perfeitos estão errados, e este guia diz isso nos argumentos ruins de veganos. Mas corrigir o discurso não muda a questão sobre os animais.

    Exigir exemplo perfeito é exigir o impossível.

    Nenhum movimento por justiça teria começado se só pessoas perfeitas pudessem falar.

    A réplica se aplica a quem a usa.

    Se a incoerência tira a autoridade de criticar, quem come carne e diz amar animais (E8) também a perde.

  6. f

    De volta à questão moral

    Apontar a incoerência de quem fala não responde ao que foi dito. Mesmo que todos os veganos fossem hipócritas, a pergunta continuaria a mesma: é justo fazer animais sofrerem e morrerem quando não precisamos?

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Tu quoque
Usa a conduta de quem fala para rejeitar o que é dito
Ad hominem
Ataca a pessoa no lugar do argumento
Falsa equivalência
Compara escolhas sem alternativa com escolhas com alternativa
Falácia do nirvana
Supõe que, se não é possível ser perfeito, não vale tentar

Moral

O critério é coerente?

Uso de um dano para justificar outro
O trabalho infantil vira desculpa para o dano aos animais

Vieses

Ataque ao mensageiro

Desacreditar quem fala alivia a pressão do que é dito

Ligado a L1, L2 e L11

Licença moral

Apontar a falha alheia faz a própria conduta parecer aceitável

Ligado a B2, E6 e J12

Paradoxo da carne

A tensão entre gostar de animais e comê-los é aliviada ao rebaixar quem a lembra

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Cognição protetora da identidade

A crítica é sentida como ataque ao próprio grupo

Ligado a J7 e L12

Efeito do mensageiro

A suposta incoerência de quem fala vira razão para ignorar o que diz

Questão de Ética, vol. X, cap. 6

Extrapolações

O princípio testado é: "quem não é perfeitamente coerente não pode criticar".

Se valesse para…Médicos que fumamToque para ver

Não poderiam alertar sobre o cigarro

O alerta continua correto

Se valesse para…Ativistas contra o trabalho infantilToque para ver

Não poderiam denunciar, porque usam celular

O argumento silenciaria a própria causa que cita

Se valesse para…Qualquer crítica moralToque para ver

Ninguém poderia criticar nada, porque ninguém é perfeito

Toda reforma moral teria sido impossível

Se valesse para…Quem usa o argumentoToque para ver

Também não poderia criticar ninguém

O princípio se volta contra quem o usa

Contradições

Critica outras injustiças usando celular.

Quem usa o argumento também denuncia corrupção, violência ou desigualdade, sem se considerar hipócrita.

Não se preocupa com o trabalho infantil citado.

O dano do celular aparece só como munição contra veganos, e não como motivo de mudança.

Aceita conselhos de quem não é perfeito.

Ouvimos médicos que fumam, professores que erram e pais que não seguem tudo o que ensinam.

Exige perfeição só dos veganos.

A mesma régua nunca é aplicada a quem defende outras causas.

Reconhece o ponto ao atacar a pessoa.

Se houvesse resposta para a questão, não seria preciso falar do celular.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Há algo justo aqui. Veganos também causam danos, e não há como viver numa economia complexa sem participar de alguma cadeia problemática. Quando alguém fala como se estivesse acima disso, a crítica procede, e a humildade é uma virtude que o movimento precisa cultivar. Também é verdade que a coerência importa: quem defende um princípio deve tentar vivê-lo.

Mas

Mas apontar a falha de alguém não responde à pergunta. O animal sofre do mesmo jeito, e ninguém precisa ser perfeito para reconhecer isso. A coerência que se pode exigir é a de fazer o possível, e deixar de comer animais está, para a maioria das pessoas, ao alcance de hoje.

Conexões

Costuma vir antes

L1 Veganos são chatos e se acham superiores.Do incômodo com a pessoa passa-se à acusação de incoerência
L2 Veganismo é seita, religião.Na cadeia do mensageiro, depois de rotular, aponta-se a falha
L4este argumento

Costuma vir depois

L5 O veganismo não é 100% livre de crueldade.A versão geral: se não é perfeito, não vale
H2 A colheita mata animais, veganos também matam.A versão agrícola do "você também"
L9 Vou comer o dobro para compensar você.Quando o argumento acaba, resta a reação

Referências