Início / F. Casos-limite e hipotéticos / Parte DIR
"Então deveríamos impedir leões de caçar?"
a pergunta é feita como provocação, mas toca numa questão séria: o sofrimento dos animais selvagens. Levar a sério essa questão não leva a "prender os predadores", e sim a estudar com cuidado como reduzir sofrimento sem causar danos maiores. E, seja qual for a resposta, ela não favorece o consumo de carne: o fato de haver sofrimento na natureza não autoriza causar mais.
Resposta curta
O sofrimento dos animais selvagens é uma questão séria, e há pesquisadores estudando formas de reduzi-lo, como vacinação e resgate em desastres. Ninguém precisa "prender predadores": intervenções mal pensadas podem causar mais dano. Mas, seja qual for a resposta, ela não favorece o consumo de carne. Que haja sofrimento na natureza não é razão para causar mais. Se existe muito sofrimento que não controlamos, mais razão para não acrescentar o que controlamos.
Para crianças
Na natureza, muitos animais sofrem: com fome, frio, doenças e predadores. Isso é triste, e algumas pessoas estudam como ajudar, por exemplo vacinando animais selvagens doentes. Mas o fato de existir sofrimento na natureza não quer dizer que a gente pode causar ainda mais sofrimento.
"Se o sofrimento na natureza é um problema, isso não é mais uma razão para não causar sofrimento a mais?"
Como pode aparecer
"Então deveríamos impedir leões de caçar?"
"Vai prender todos os predadores?"
"Então a natureza é imoral?"
"Vegano quer dar tofu para o tigre."
"A ética animal leva ao dever absurdo de policiar a natureza."
"Leões comem outros animais." (que é C2)
A versão mais forte
"Vai prender todos os predadores? Então a natureza é imoral?"
Versão mais forte (steelman):
- P1Se o sofrimento animal importa, ele importa também quando causado por predadores.
- P2Seria absurdo intervir na natureza para impedir a predação.
- P3Logo, quem leva o sofrimento animal a sério chega a uma conclusão absurda.
- CLogo, a premissa de que o sofrimento animal importa deve ser rejeitada ou enfraquecida.
P1 é verdadeira. O problema está em P2 e P3: reconhecer o problema não obriga a soluções absurdas, e a conclusão não se aplica ao que fazemos com os animais.
O argumento é válido como redução ao absurdo. A solidez falha em P2, que confunde "levar a sério" com "intervir de qualquer forma".
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento mistura duas perguntas:
Pergunta Resposta Devemos parar de causar sofrimento aos animais? Sim, sempre que pudermos evitar Devemos intervir para reduzir o sofrimento causado por outros, inclusive na natureza? Talvez, com cuidado, quando houver formas seguras e eficazes O dever de não causar dano é mais forte e mais simples que o dever de ajudar. A dificuldade da segunda pergunta não afeta a primeira.
- b
Onde o argumento quebra
1. Não causar dano vem antes de ajudar.
Mesmo quem não acha que devemos intervir na natureza aceita que não devemos causar sofrimento desnecessário.
2. Predadores não são agentes morais.
O leão não pode ser responsabilizado (C2). A questão não é punir predadores, e sim se nós, agentes, podemos ajudar as vítimas.
3. A questão é séria, e já é estudada.
A área de estudo do sofrimento de animais selvagens analisa intervenções como vacinação contra doenças, resgate em desastres e controle de fertilidade, sempre considerando os riscos ecológicos.
4. Intervenções mal pensadas podem piorar tudo.
Retirar predadores de um ecossistema pode causar superpopulação, fome e mais sofrimento. Por isso, levar o problema a sério exige cautela, e não soluções absurdas.
5. A pergunta não favorece a carne.
O sofrimento na natureza, seja qual for a resposta, não torna aceitável o sofrimento nas granjas.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Além do veganismo: sofrimento dos animais selvagens Apresenta a questão do sofrimento dos animais selvagens e as formas de intervenção estudadas Página deste guia Questão de Ética, vol. VII, cap. 1 Defende que o sofrimento na natureza é moralmente relevante Coleção de Luciano Carlos Cunha, na linha dos trabalhos de Oscar Horta - d
A melhor réplica: se não intervimos, o sofrimento animal pesa pouco
A versão mais séria diz que, se não estamos dispostos a intervir na natureza, é porque no fundo não damos muito peso ao sofrimento animal, e então o consumo de carne também não seria grave.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Não intervir não significa não dar peso.
Muitas vezes não intervimos porque não sabemos como ajudar sem causar mais dano.
A assimetria entre causar e permitir existe também entre humanos.
Não salvar todos os que sofrem no mundo não torna aceitável causar sofrimento a alguém.
Muitos defensores dos animais defendem intervir.
A questão está longe de ser ignorada.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Espantalho
Falsa redução ao absurdo
Moral
O critério é coerente?
Confusão entre causar e permitir
Vieses
Raciocínio motivado
A provocação serve para evitar a questão principal
Literatura geral sobre cognição motivada
Viés de omissão e viés do perpetrador
O sofrimento que não causamos parece não ser problema nosso
Extrapolações
O princípio testado é: "se não podemos impedir todo o sofrimento, não precisamos evitar causar o nosso".
Se valesse para…DoençasToque para ver
Como há doenças naturais, poderíamos espalhar doenças
Ninguém aceita
Se valesse para…Desastres naturaisToque para ver
Como há terremotos, poderíamos destruir casas
Ninguém aceita
Se valesse para…Sofrimento humanoToque para ver
Como não acabamos com toda a fome, poderíamos causar fome
Ninguém aceita
Contradições
Muita gente apoia resgates em desastres e cuidados com animais feridos.
Desastres naturais causam comoção.
Ninguém tira dela regras para a vida humana em outros temas.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A provocação acerta num ponto: se o sofrimento animal importa, ele importa também na natureza. Essa é uma conclusão que muitos filósofos levam a sério, e que vai além do veganismo. Também é verdade que intervir na natureza é difícil e arriscado.
Mas
Mas reconhecer esse problema não enfraquece o argumento contra causar sofrimento. Ao contrário: num mundo com tanto sofrimento que ainda não sabemos reduzir, o mínimo é não acrescentar o que podemos evitar.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza? Vol. VII, cap. 1