Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / C. Natureza, biologia e evolução / Parte DIR

C1

"É natural comer carne."

A resposta em uma frase

que algo seja natural não diz se é certo. A natureza também produz doença, infanticídio e guerra, e nós corrigimos a natureza o tempo todo com remédios, óculos e leis. Além disso, o que se chama de natural aqui não tem nada de natural: animais selecionados para crescer rápido, confinados e abatidos em escala industrial. O argumento descreve o passado da nossa espécie e o apresenta como uma regra moral para o presente.

Nota: este capítulo não discute se humanos podem digerir carne, o que é verdade. Discute se isso a torna moralmente aceitável. A pergunta nutricional fica para a família G.

Resposta curta

Ser natural não torna algo certo. A natureza também tem doenças, infanticídio e o mais forte dominando o mais fraco, e ninguém usa isso como regra moral. Usamos remédios, óculos e anestesia, que não são naturais, e achamos ótimo. Além disso, a carne do supermercado vem de animais selecionados geneticamente para produzir mais, confinados e abatidos em escala industrial, o que não tem nada de natural. Poder comer carne é uma coisa; precisar e dever são outras.

Para crianças

Na natureza acontece de tudo. Tem animal que rouba comida do outro, que briga, que deixa o mais fraco para trás. Isso quer dizer que a gente pode fazer igual? Não. A gente aprendeu a cuidar de quem fica doente e a dividir com quem tem menos, e isso não vem da natureza, vem de pensar no que é justo. Comer animais pode ter sido natural um dia, mas hoje dá para viver bem sem machucar ninguém.

Devolva com uma pergunta

"Se algo ser natural o torna certo, a cesariana, a vacina e os óculos são errados?"

Como pode aparecer

"É natural, sempre foi assim."
Conversa cotidiana
"Faz parte da natureza humana."
Conversa cotidiana
"Somos predadores."
Conversa cotidiana
"Seus ancestrais não sobreviveram comendo alface."
Redes sociais
"Você vai contrariar milhões de anos de evolução?"
Pergunta retórica
"Temos caninos e um intestino de onívoro." (que é C3)
Versão biológica
"A carne fez nosso cérebro crescer." (que é C5)
Versão evolutiva
"O consumo de carne é uma adaptação da espécie, e adaptações não são vícios morais."
Versão acadêmica
"Eu só sigo o que o meu corpo pede." (que é C11)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Comer carne é natural. O ser humano sempre comeu, faz parte da nossa natureza."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Humanos evoluíram como onívoros, e o consumo de carne fez parte da história da nossa espécie.
  2. P2Comportamentos que fazem parte da natureza de uma espécie são legítimos para os membros dessa espécie.
  3. CLogo, comer carne é legítimo para os humanos.

P1 é verdadeira. Toda a carga está em P2, que faz uma passagem que a filosofia examina desde o século XVIII: de uma descrição de como as coisas são para uma norma sobre como devem ser.

O argumento é válido. A solidez falha em P2, que ninguém aplica com coerência, e na palavra "natural", que muda de sentido ao longo do argumento.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento é o exemplo mais conhecido do apelo à natureza: tratar o natural como bom e o não natural como ruim. Ele também esbarra na chamada lei de Hume. David Hume observou, em 1739, que muitos raciocínios morais passam sem aviso de afirmações com "é" para conclusões com "deve", sem explicar como essa passagem se justifica. P2 é exatamente essa passagem.

    A palavra "natural" ainda muda de sentido conforme a conveniência:

    Sentido de "natural"O que significaProblema
    EstatísticoO que a maioria fazÉ o apelo à multidão (D6): a escravidão já foi a regra
    EvolutivoO que nossos ancestrais faziamAncestrais também viviam sem anestesia, sem escrita e sem direitos
    BiológicoO que o corpo consegue fazerConseguir não é precisar, nem dever (C3)
    Oposto de artificialO que não passa pela mão humanaA carne industrial é um dos produtos mais artificiais que existem
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. A natureza não é um guia moral.

    John Stuart Mill, no ensaio A Natureza, publicado em 1874, mostrou o problema com clareza: se imitar a natureza fosse critério de conduta, seria correto matar, torturar e destruir, porque a natureza faz isso o tempo todo. Ou aceitamos essa conclusão, ou admitimos que ser natural nunca foi, por si só, razão para considerar algo bom.

    2. Ninguém aplica P2 com coerência.

    Infanticídio, estupro e violência entre grupos também aparecem em outras espécies e na história humana. Ninguém conclui que são legítimos. Na direção oposta, quase tudo de que nos orgulhamos é antinatural: medicina, óculos, leis que protegem os fracos, a própria ideia de direitos.

    3. O que se defende não é natural.

    Frangos de corte foram selecionados para crescer tão rápido que são abatidos com poucas semanas de vida. Vacas leiteiras são emprenhadas repetidamente. Nada disso existe sem tecnologia, confinamento e indústria. O argumento empresta a imagem do caçador ancestral para defender uma prática que ele não reconheceria.

    4. A natureza também ensina o oposto.

    Se o passado da espécie definisse o que é legítimo, valeria igualmente o que nossos ancestrais comiam de plantas, e valeria a cooperação, a empatia e o cuidado com os vulneráveis, que também fazem parte da nossa evolução. Escolher só a parte que confirma o hábito é seleção conveniente.

    5. Hoje existe alternativa.

    O argumento ignora a mudança de contexto. Para quem tem acesso a uma alimentação variada, a carne deixou de ser necessária: a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos considera dietas veganas bem planejadas saudáveis e adequadas em todas as fases da vida.

    6. A pesquisa mostra para que o argumento serve.

    Piazza e colegas identificaram, em 2015, que "natural" é uma das quatro justificativas mais usadas para comer carne, ao lado de normal, necessário e gostoso. Juntas, elas cobriram entre 83% e 91% das justificativas oferecidas pelos participantes, e quem mais concordava com elas sentia menos culpa e tinha menos consideração moral pelos animais. O argumento funciona menos como razão e mais como alívio.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Hume, Tratado da Natureza Humana (1739), livro IIIA passagem de "é" para "deve" precisa de justificativaOrigem da chamada lei de Hume
    Mill, A Natureza, em Three Essays on Religion (1874)Imitar a natureza levaria a aprovar matar, torturar e destruirUsado também no livro Veganismo Baseado em Evidências
    Piazza et al., 2015, *Appetite*Natural, normal, necessário e gostoso cobrem de 83% a 91% das justificativas para comer carneSeis estudos; mostra a função psicológica do argumento
    Academy of Nutrition and Dietetics, 2016Dietas veganas bem planejadas são saudáveis, nutricionalmente adequadas e apropriadas a todas as fases da vidaPosição oficial; inclui a necessidade de fonte confiável de B12
  4. d

    A melhor réplica: não é a natureza, é a necessidade e a adaptação

    A versão mais séria abandona o "natural é bom" e diz algo mais modesto: somos onívoros, o corpo humano está adaptado a uma dieta variada, e pedir que as pessoas abandonem algo tão enraizado na biologia e na cultura seria exigir demais. A natureza não dita a moral, mas define o que é razoável esperar de um ser humano.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ela troca de argumento.

    Deixa de ser C1 e passa a ser sobre necessidade (família G) e sobre dificuldade (família J). As duas questões são empíricas, e as respostas estão nesses capítulos.

    Adaptação explica, não justifica.

    Também somos adaptados à agressão, ao favoritismo pelo próprio grupo e ao medo do estranho, e esperamos que as pessoas os controlem.

    O que é razoável esperar mudou.

    Exigir de um caçador do passado que deixasse de caçar seria exigir demais. Exigir de quem compra no supermercado que escolha feijão em vez de frango não é.

    A dificuldade não muda o dano.

    Que algo seja difícil de abandonar pode diminuir a culpa de quem ainda não mudou. Não torna aceitável o que é feito aos animais.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Apelo à natureza
Trata o natural como bom por definição
Lei de Hume (do é ao deve)
Tira uma norma de um fato sobre a evolução
Equivocação
"Natural" muda de sentido: estatístico, evolutivo, biológico, não artificial

Epistemológico

A evidência sustenta?

Seleção conveniente
Escolhe do passado humano só o que confirma o hábito
Anacronismo
Aplica ao supermercado uma condição do caçador ancestral

Moral

O critério é coerente?

Descrição no lugar de justificação
Explica por que fazemos algo e conclui que está certo

Vieses

Racionalização pelos 4Ns

"Natural" é uma das justificativas mais usadas e está ligada a menos culpa

Piazza et al., 2015

Viés do natural

O que é percebido como natural é avaliado como melhor e mais seguro

Rozin e colegas, Appetite (2004): a preferência pelo natural tem motivos práticos e morais

Viés do status quo

O hábito atual parece a ordem das coisas

Ligado a D1 e D6

Paradoxo da carne

A tensão entre gostar de animais e comê-los é aliviada por justificativas prontas

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Raciocínio motivado

O critério "natural" só é usado quando confirma o que se quer

Literatura geral sobre cognição motivada

Extrapolações

O princípio testado é: "o que é natural para a espécie é legítimo".

Se valesse para…Violência entre gruposToque para ver

Guerra e conquista seriam legítimas, porque aparecem em toda a história humana

Contraria o próprio direito internacional

Se valesse para…InfanticídioToque para ver

Seria aceitável, porque acontece em várias espécies e em sociedades humanas

Ninguém aceita

Se valesse para…MedicinaToque para ver

Vacinas, antibióticos e cirurgias seriam suspeitos por não serem naturais

O argumento é usado por quem os usa

Se valesse para…Doenças e deficiênciasToque para ver

Não haveria razão para corrigi-las, já que são naturais

Mostra que a natureza não é critério de bem

Contradições

Usa e aprova o que não é natural.

Remédios, vacinas, óculos, cirurgias e a internet em que o argumento é postado.

Rejeita o que é natural quando incomoda.

Ninguém defende o infanticídio ou a lei do mais forte com base na natureza (ver C6).

Come uma carne nada natural.

Animais selecionados geneticamente, medicados, confinados e abatidos em escala industrial.

Valoriza a razão acima do instinto em todo o resto.

Controlar impulsos é visto como sinal de maturidade, exceto quando o impulso é comer carne.

Aceita que o contexto muda o que é razoável.

Ninguém vive como os ancestrais em moradia, medicina ou transporte, e só na alimentação o passado vira regra.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Há verdades aqui. Humanos são onívoros e conseguem digerir carne, e o consumo de alimentos de origem animal teve um papel na história da espécie. Também é verdade que hábitos enraizados na biologia e na cultura são difíceis de mudar, e que isso merece compreensão, e não desprezo.

Mas

O erro está em tratar essa história como permissão. A natureza explica de onde viemos; ela não decide para onde devemos ir. A mesma espécie que caçava aprendeu a cuidar de quem não pode se defender, e essa também é uma parte da nossa natureza.

Conexões

Costuma vir antes

D1 Sempre fizemos isso.Da tradição passa-se à natureza
C1este argumento

Costuma vir depois

C2 Leões comem outros animais.Busca na natureza um exemplo para imitar
C3 Temos caninos, somos onívoros.Versão anatômica do mesmo argumento
G1 Precisamos de proteína animal.Quando o natural não convence, apela-se ao necessário

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências