Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / C. Natureza, biologia e evolução / Parte DIR

C2

"Leões comem outros animais."

A resposta em uma frase

leões não são agentes morais nem têm alternativa. Não deliberam, não entendem consequências e morreriam sem caçar. Nós deliberamos e temos alternativa. Não tiramos nossa ética dos leões em mais nada: eles também matam os filhotes de outros machos, e ninguém usa isso como exemplo.

Resposta curta

O leão não tem escolha: é carnívoro obrigatório, não delibera e morreria sem caçar. Nós podemos viver bem sem comer animais e entendemos o que fazemos. Por isso não julgamos o leão, e é pelo mesmo motivo que podemos ser julgados. Além disso, não copiamos o leão em mais nada: leões machos matam os filhotes de outros machos, e ninguém tira disso uma regra moral.

Para crianças

O leão não sabe que existe outra opção. Ele não vai ao mercado, não sabe cozinhar feijão e precisa caçar para sobreviver. Você é diferente: pode escolher o que comer e entender o que acontece com os animais. Ninguém fica bravo com um bebê que derruba um copo, porque ele não entende. Com o leão é igual: ele não escolhe. A gente escolhe.

Devolva com uma pergunta

"Em que outra área da vida você usa o leão como exemplo do que é certo fazer?"

Como pode aparecer

"Leões comem outros animais."
Conversa cotidiana
"Na natureza é assim."
Conversa cotidiana
"Gatos comem ratos."
Conversa cotidiana
"Vai pedir para o leão virar vegano?"
Redes sociais
"Então o leão é um assassino?"
Pergunta retórica
"A predação é parte da ordem natural da qual fazemos parte."
Versão acadêmica
"Então deveríamos impedir leões de caçar?." (que é F3)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Na natureza é assim. Vai pedir para o leão virar vegano?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Muitos animais matam e comem outros animais.
  2. P2Não condenamos moralmente esses animais por isso.
  3. P3Humanos também são animais.
  4. CLogo, não há por que condenar humanos por comer animais.

A versão forte explora uma intuição real: seria estranho condenar um leão por caçar. O problema está em P3, que trata o fato de sermos animais como se apagasse a diferença que justifica não condenar o leão.

O argumento é válido. A solidez falha porque o motivo de não condenarmos o leão, a falta de deliberação e de alternativa, não se aplica a nós.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    A diferença entre o leão e o humano não está em ser ou não animal, e sim em duas capacidades:

    CapacidadeLeãoHumano
    Deliberar sobre as próprias ações e suas consequênciasNãoSim
    Viver bem sem matar animaisNão: é carnívoro obrigatórioSim, para quem tem acesso a uma alimentação variada

    Essas duas capacidades são exatamente o que torna alguém um agente moral. O leão é um paciente moral, que pode ser prejudicado, mas não um agente que possa ser responsabilizado (A7).

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O leão não pode escolher.

    Ele não sabe que existem alternativas, não pode avaliar consequências e não sobreviveria sem caçar. Responsabilidade moral exige capacidade de escolha.

    2. Nós podemos.

    Dietas veganas bem planejadas são adequadas para humanos em todas as fases da vida, segundo a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos. A condição que desculpa o leão não vale para nós.

    3. Não copiamos o leão em mais nada.

    Leões machos que assumem um grupo frequentemente matam os filhotes dos machos anteriores. Ninguém tira disso uma permissão para os humanos. Escolher imitar o leão só na alimentação é seleção conveniente.

    4. É um apelo à natureza.

    O argumento supõe que o que acontece na natureza é um modelo moral, o que o capítulo C1 mostra ser falso.

    5. Leões não confinam nem criam animais para abater.

    Mesmo a comparação descritiva falha: a pecuária industrial não se parece em nada com a predação.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Academy of Nutrition and Dietetics, 2016Dietas veganas bem planejadas são adequadas em todas as fases da vidaMostra que a condição do leão não vale para humanos
    Regan, *The Case for Animal Rights* (1983)Distinção entre agentes morais e pacientes moraisUsada também em A7
  4. d

    A melhor réplica: somos predadores naturais

    A versão mais séria não diz que devemos imitar o leão. Diz que somos, como ele, parte de uma cadeia de predação, e que a carne faz parte da história e da biologia humanas. Pedir que deixemos de comer animais seria pedir que deixemos de ser o tipo de animal que somos.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ela vira outro argumento.

    Passa a ser C1 ("é natural"), C3 ("temos caninos") ou C4 ("estamos no topo da cadeia"), cada um com resposta própria.

    Ser capaz de algo não obriga a fazer.

    Somos capazes de muitas coisas que escolhemos não fazer.

    Nossa história também inclui a ética.

    A capacidade de questionar o que fazemos é tão parte de quem somos quanto a de comer carne.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Apelo à natureza
Toma o comportamento de outra espécie como modelo moral
Falsa analogia
Compara quem não tem escolha com quem tem

Epistemológico

A evidência sustenta?

Seleção conveniente
Imita o leão só no que confirma o hábito

Moral

O critério é coerente?

Confusão entre agente e paciente
Trata seres sem capacidade de escolha como referência para quem tem

Vieses

Racionalização pelos 4Ns

"Natural" é uma das justificativas mais usadas

Piazza et al., 2015

Raciocínio motivado

O exemplo do leão só é usado onde dispensa a mudança

Literatura geral sobre cognição motivada

Extrapolações

O princípio testado é: "o que outros animais fazem é permitido para nós".

Se valesse para…InfanticídioToque para ver

Seria permitido, porque leões o praticam

Ninguém aceita

Se valesse para…Disputa territorial violentaToque para ver

Matar quem invade o território seria legítimo

Contraria todo o direito

Se valesse para…CanibalismoToque para ver

Seria aceitável, porque ocorre em várias espécies

Ninguém aceita

Contradições

Não copia o leão em mais nada.

Nem na violência, nem no infanticídio, nem na vida social.

Usa medicina, roupas e cozinha.

Nada disso é o que um leão faria.

Não deixaria o próprio gato decidir a ética da casa.

O comportamento animal nunca é critério em outros assuntos.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A intuição de que não faz sentido condenar um leão por caçar é correta. Ela mostra algo importante: a responsabilidade moral depende de capacidade de escolha e de entendimento. Também é verdade que somos animais e que nossa história evolutiva inclui o consumo de carne.

Mas

Mas é justamente essa intuição que derruba o argumento. Não condenamos o leão porque ele não pode escolher. Nós podemos, e é por isso que a pergunta se aplica a nós.

Conexões

Costuma vir antes

C1 É natural comer carne.Busca na natureza um exemplo para imitar
A7 Quem não tem deveres não tem direitos.Reciprocidade virada contra os animais selvagens
C2este argumento

Costuma vir depois

C3 Temos caninos, somos onívoros.Se os leões não servem de modelo, apela-se à anatomia
G1 Precisamos de proteína animal.Se a natureza não convence, apela-se à necessidade
F3 Então deveríamos impedir leões de caçar?A comparação vira provocação

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências