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"A moral existe para nos proteger uns dos outros"
se a moral valesse só para quem pode nos ameaçar ou retribuir, ela também deixaria de fora bebês, crianças e pessoas incapacitadas, e ninguém aceita isso. Além disso, explicar como uma prática surgiu não mostra que ela está certa: os primeiros astrônomos também erravam. E é falso que as pessoas só respeitam quem temem: muita gente protege justamente quem não pode se defender.
Resposta curta
Se a moral valesse só para quem pode nos ameaçar, bebês e pessoas incapacitadas também ficariam de fora, e ninguém aceita isso. E mesmo que a moral tivesse começado como um acordo de proteção, a origem de uma ideia não prova que ela está certa. A astronomia também começou cheia de erros. A pergunta é se é justo fazer sofrer quem não pode se defender.
Para crianças
Um bebê não consegue bater em ninguém nem fazer promessas. Mesmo assim, todo mundo sabe que é muito errado machucar um bebê. Então a gente não é bom com os outros só porque eles podem revidar. A gente cuida de quem é fraco justamente porque ele não consegue se defender. Os animais também não conseguem.
"Você acha que só deve respeito a quem pode revidar?"
Como pode aparecer
"A moral existe para nos proteger uns dos outros; os animais não são uma ameaça."
"Ética é um contrato entre humanos."
"No fundo, todo mundo só respeita quem pode revidar."
"A moralidade é um sistema de cooperação entre agentes racionais autointeressados."
"Quem não tem deveres não tem direitos." (que é A7)
"Direitos são invenção humana, só valem para humanos." (que é A9)
A versão mais forte
"A moral é um acordo entre pessoas para ninguém fazer mal a ninguém. Animal não entra no acordo, porque não pode nos ameaçar."
Versão mais forte (steelman):
- P1A moral surgiu e existe como um acordo de proteção mútua entre indivíduos que podem prejudicar uns aos outros.
- P2Só faz sentido incluir no acordo quem pode cumpri-lo ou quebrá-lo.
- P3Os animais não podem participar do acordo nem nos ameaçar de modo relevante.
- CLogo, não temos deveres morais diretos para com os animais.
A ideia tem uma longa tradição, de Hobbes a versões contemporâneas do contratualismo, como a de Peter Carruthers. Ela é parente de A7 ("Quem não tem deveres não tem direitos"), mas se apoia na origem e na função da moral, e não na reciprocidade de deveres.
O argumento é válido. A solidez falha em P1, que confunde origem com justificativa, e em P2, que excluiria muitos humanos.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento pode ser lido de duas formas:
Leitura O que afirma Problema Descritiva As pessoas só respeitam quem temem É falsa como generalização Sobre a origem A moral nasceu do autointeresse Origem não é justificativa Normativa Só devemos respeitar quem pode nos ameaçar Exclui humanos vulneráveis - b
Onde o argumento quebra
1. Exclui humanos vulneráveis.
Bebês, crianças pequenas e pessoas com certas doenças ou deficiências não têm poder de nos ameaçar nem de participar de acordos. Pelo argumento, poderíamos fazer com eles o que fazemos com os animais.
2. A descrição é falsa.
Há pessoas que só respeitam quem temem, mas muitas outras protegem justamente quem é indefeso. Dizer "a humanidade é assim" costuma ser uma generalização a partir de si mesmo.
3. A origem provavelmente não é essa.
Estudos sobre o comportamento animal sugerem que a moral tem raízes em comportamentos altruístas e de cuidado, muito mais antigos que qualquer acordo autointeressado.
4. Origem não é justificativa.
Mesmo que a moral tivesse nascido do medo, isso não mostraria que essa concepção é a correta. É como tentar provar que um cálculo está certo mostrando que era assim que se calculava há milhares de anos.
5. Ser beneficiário não exige ser agente.
Quem é atendido por um médico não precisa ser médico. Quem é protegido pela moral não precisa ser capaz de agir moralmente (A7).
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Questão de Ética, vol. I, cap. 12 Responde ao apelo ao autointeresse e à origem da ética Fonte principal deste capítulo Questão de Ética, vol. I, cap. 10 Mostra que os beneficiários da ética não precisam ser agentes morais Base do ponto 5 Carruthers, *The Animals Issue* (1992) Defende um contratualismo que nega deveres diretos aos animais Cambridge University Press; capítulo "Contractualism and animals" de Waal, *Primates and Philosophers* (2006) Defende raízes evolutivas da moral na empatia e na cooperação Princeton University Press - d
A melhor réplica: o contrato protege os vulneráveis por tabela
A versão mais séria, a de Carruthers, admite que bebês não fazem contratos. Mas diz que os contratantes têm interesse em protegê-los, porque os amam e porque permitir abusos contra eles ameaçaria a estabilidade social. Assim, os humanos vulneráveis ficariam protegidos indiretamente, e os animais não.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
A proteção fica dependente do afeto alheio.
Um bebê sem ninguém que o ame perderia a proteção. Quase ninguém aceita isso.
O mesmo valeria para os animais.
Muitas pessoas amam animais e se perturbam com a crueldade. Pela mesma lógica, eles também deveriam ser protegidos por tabela.
O erro está no lugar errado.
Se machucar um bebê é errado só porque incomoda os adultos, a vítima não é o bebê. A maioria das pessoas sente que a vítima é ele.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falácia genética
Epistemológico
A evidência sustenta?
Generalização apressada
Moral
O critério é coerente?
Exclusão dos vulneráveis
Vieses
Falso consenso
Supõe que todos agem como quem argumenta
Literatura geral sobre falso consenso
Extrapolações
O princípio testado é: "só devemos respeito a quem pode nos ameaçar ou retribuir".
Se valesse para…BebêsToque para ver
Não teriam proteção própria
Ninguém aceita
Se valesse para…Gerações futurasToque para ver
Não poderíamos prejudicá-las de forma errada, pois não nos ameaçam
Contraria a ética ambiental e climática
Se valesse para…AnimaisToque para ver
Não teriam proteção própria
É a conclusão do argumento
Contradições
Que não podem ameaçar nem fazer acordos.
Que também não fazem parte de contrato algum.
Mas admira quem se sacrifica por quem não pode retribuir.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A cooperação e a reciprocidade são parte importante da vida moral, e muitas regras sociais funcionam como acordos. Também é verdade que só agentes capazes de entender regras podem ser responsabilizados por elas.
Mas
Mas ser responsabilizado e ser protegido são coisas diferentes. A moral que conhecemos protege muitos que nunca assinaram acordo algum.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe: