Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A23

"A moral existe para nos proteger uns dos outros"

A resposta em uma frase

se a moral valesse só para quem pode nos ameaçar ou retribuir, ela também deixaria de fora bebês, crianças e pessoas incapacitadas, e ninguém aceita isso. Além disso, explicar como uma prática surgiu não mostra que ela está certa: os primeiros astrônomos também erravam. E é falso que as pessoas só respeitam quem temem: muita gente protege justamente quem não pode se defender.

Resposta curta

Se a moral valesse só para quem pode nos ameaçar, bebês e pessoas incapacitadas também ficariam de fora, e ninguém aceita isso. E mesmo que a moral tivesse começado como um acordo de proteção, a origem de uma ideia não prova que ela está certa. A astronomia também começou cheia de erros. A pergunta é se é justo fazer sofrer quem não pode se defender.

Para crianças

Um bebê não consegue bater em ninguém nem fazer promessas. Mesmo assim, todo mundo sabe que é muito errado machucar um bebê. Então a gente não é bom com os outros só porque eles podem revidar. A gente cuida de quem é fraco justamente porque ele não consegue se defender. Os animais também não conseguem.

Devolva com uma pergunta

"Você acha que só deve respeito a quem pode revidar?"

Como pode aparecer

"A moral existe para nos proteger uns dos outros; os animais não são uma ameaça."
Conversa cotidiana
"Ética é um contrato entre humanos."
Conversa cotidiana
"No fundo, todo mundo só respeita quem pode revidar."
Redes sociais
"A moralidade é um sistema de cooperação entre agentes racionais autointeressados."
Versão acadêmica
"Quem não tem deveres não tem direitos." (que é A7)
Versão disfarçada
"Direitos são invenção humana, só valem para humanos." (que é A9)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"A moral é um acordo entre pessoas para ninguém fazer mal a ninguém. Animal não entra no acordo, porque não pode nos ameaçar."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1A moral surgiu e existe como um acordo de proteção mútua entre indivíduos que podem prejudicar uns aos outros.
  2. P2Só faz sentido incluir no acordo quem pode cumpri-lo ou quebrá-lo.
  3. P3Os animais não podem participar do acordo nem nos ameaçar de modo relevante.
  4. CLogo, não temos deveres morais diretos para com os animais.

A ideia tem uma longa tradição, de Hobbes a versões contemporâneas do contratualismo, como a de Peter Carruthers. Ela é parente de A7 ("Quem não tem deveres não tem direitos"), mas se apoia na origem e na função da moral, e não na reciprocidade de deveres.

O argumento é válido. A solidez falha em P1, que confunde origem com justificativa, e em P2, que excluiria muitos humanos.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento pode ser lido de duas formas:

    LeituraO que afirmaProblema
    DescritivaAs pessoas só respeitam quem tememÉ falsa como generalização
    Sobre a origemA moral nasceu do autointeresseOrigem não é justificativa
    NormativaSó devemos respeitar quem pode nos ameaçarExclui humanos vulneráveis
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Exclui humanos vulneráveis.

    Bebês, crianças pequenas e pessoas com certas doenças ou deficiências não têm poder de nos ameaçar nem de participar de acordos. Pelo argumento, poderíamos fazer com eles o que fazemos com os animais.

    2. A descrição é falsa.

    Há pessoas que só respeitam quem temem, mas muitas outras protegem justamente quem é indefeso. Dizer "a humanidade é assim" costuma ser uma generalização a partir de si mesmo.

    3. A origem provavelmente não é essa.

    Estudos sobre o comportamento animal sugerem que a moral tem raízes em comportamentos altruístas e de cuidado, muito mais antigos que qualquer acordo autointeressado.

    4. Origem não é justificativa.

    Mesmo que a moral tivesse nascido do medo, isso não mostraria que essa concepção é a correta. É como tentar provar que um cálculo está certo mostrando que era assim que se calculava há milhares de anos.

    5. Ser beneficiário não exige ser agente.

    Quem é atendido por um médico não precisa ser médico. Quem é protegido pela moral não precisa ser capaz de agir moralmente (A7).

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Questão de Ética, vol. I, cap. 12Responde ao apelo ao autointeresse e à origem da éticaFonte principal deste capítulo
    Questão de Ética, vol. I, cap. 10Mostra que os beneficiários da ética não precisam ser agentes moraisBase do ponto 5
    Carruthers, *The Animals Issue* (1992)Defende um contratualismo que nega deveres diretos aos animaisCambridge University Press; capítulo "Contractualism and animals"
    de Waal, *Primates and Philosophers* (2006)Defende raízes evolutivas da moral na empatia e na cooperaçãoPrinceton University Press
  4. d

    A melhor réplica: o contrato protege os vulneráveis por tabela

    A versão mais séria, a de Carruthers, admite que bebês não fazem contratos. Mas diz que os contratantes têm interesse em protegê-los, porque os amam e porque permitir abusos contra eles ameaçaria a estabilidade social. Assim, os humanos vulneráveis ficariam protegidos indiretamente, e os animais não.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A proteção fica dependente do afeto alheio.

    Um bebê sem ninguém que o ame perderia a proteção. Quase ninguém aceita isso.

    O mesmo valeria para os animais.

    Muitas pessoas amam animais e se perturbam com a crueldade. Pela mesma lógica, eles também deveriam ser protegidos por tabela.

    O erro está no lugar errado.

    Se machucar um bebê é errado só porque incomoda os adultos, a vítima não é o bebê. A maioria das pessoas sente que a vítima é ele.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falácia genética
Julga a validade da moral pela sua suposta origem

Epistemológico

A evidência sustenta?

Generalização apressada
"Todo mundo só respeita quem teme"

Moral

O critério é coerente?

Exclusão dos vulneráveis
Deixa sem proteção quem mais precisa dela

Vieses

Falso consenso

Supõe que todos agem como quem argumenta

Literatura geral sobre falso consenso

Raciocínio motivado

Escolhe a teoria moral que mantém o hábito

Questão de Ética, vol. X, cap. 5

Extrapolações

O princípio testado é: "só devemos respeito a quem pode nos ameaçar ou retribuir".

Se valesse para…BebêsToque para ver

Não teriam proteção própria

Ninguém aceita

Se valesse para…Gerações futurasToque para ver

Não poderíamos prejudicá-las de forma errada, pois não nos ameaçam

Contraria a ética ambiental e climática

Se valesse para…AnimaisToque para ver

Não teriam proteção própria

É a conclusão do argumento

Contradições

Protege bebês e pessoas incapacitadas.

Que não podem ameaçar nem fazer acordos.

Condena a crueldade contra cães.

Que também não fazem parte de contrato algum.

Diz que a moral é só autoproteção.

Mas admira quem se sacrifica por quem não pode retribuir.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A cooperação e a reciprocidade são parte importante da vida moral, e muitas regras sociais funcionam como acordos. Também é verdade que só agentes capazes de entender regras podem ser responsabilizados por elas.

Mas

Mas ser responsabilizado e ser protegido são coisas diferentes. A moral que conhecemos protege muitos que nunca assinaram acordo algum.

Conexões

Costuma vir antes

E2 A moral é relativa.Se a moral é um acordo, cada grupo decide quem entra
A23este argumento

Costuma vir depois

A7 Quem não tem deveres não tem direitos.A exclusão do contrato vira falta de direitos
C6 É a lei do mais forte.Se só conta quem pode ameaçar, conta a força
A10 São só animais.Quando a exclusão de humanos vulneráveis é apontada

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências