Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / E. Relativismo, liberdade e evasões / Parte DIR

E2

"A moral é relativa."

A resposta em uma frase

quem diz que a moral é relativa quase nunca vive assim. Ninguém acha que a escravidão era certa "para quem a praticava", ou que um assalto é errado só "na opinião" da vítima. O relativismo costuma aparecer seletivamente, quando a crítica atinge o próprio hábito. E dizer "essa é a sua verdade" confunde gosto, que é pessoal, com dano a outro, que não é.

Nota: este capítulo também responde a "Cada um tem sua verdade", que foi unido a ele.

Resposta curta

Quase ninguém acredita de verdade que a moral é relativa. Você não acharia que um assalto é errado só "na opinião" de quem foi assaltado, nem que a escravidão era certa para quem a praticava. O relativismo aparece quando a crítica atinge o próprio hábito. E há uma diferença entre gosto e dano: preferir sorvete de chocolate é gosto; fazer alguém sofrer não é.

Para crianças

Gostar de sorvete de chocolate ou de morango é questão de gosto: cada um escolhe o seu. Mas machucar alguém não é questão de gosto. Se alguém empurra você, não adianta ele dizer "na minha opinião, isso não doeu". Quando alguém sofre, não é só uma opinião.

Devolva com uma pergunta

"Existe alguma coisa que você acha errada de verdade, e não só na sua opinião?"

Como pode aparecer

"Moral é construção social."
Conversa cotidiana
"Certo e errado dependem de quem olha."
Conversa cotidiana
"Essa é a sua opinião."
Conversa cotidiana
"Cada um tem sua verdade."
Conversa cotidiana
"Você acha uma coisa, eu acho outra."
Conversa cotidiana
"Não existem fatos morais independentes das perspectivas."
Versão acadêmica
"É cultural, criticar é etnocentrismo." (que é D2)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Moral é construção social. Certo e errado dependem de quem olha. Essa é a sua verdade, eu tenho a minha."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Culturas e pessoas discordam profundamente sobre questões morais.
  2. P2Não há um método aceito por todos para resolver essas discordâncias.
  3. P3Se não há como resolver as discordâncias, não há verdade moral objetiva.
  4. CLogo, a condenação do consumo de animais é só uma opinião entre outras.

P1 e P2 são verdadeiras em boa medida. O problema está em P3: discordância não prova ausência de verdade, e quem aceita P3 teria de aceitar que nada é realmente errado, nem mesmo o que a pessoa condena.

O argumento é válido. A solidez falha em P3, e a conclusão é aplicada de forma seletiva.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento mistura três ideias diferentes:

    IdeiaÉ verdadeira?
    As pessoas discordam sobre moralSim, é um fato
    Algumas questões são de gosto pessoalSim: comida preferida, estilo, música
    Toda questão moral é só opiniãoNão se segue das anteriores, e quase ninguém aceita
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. É autorrefutante.

    "Não existe verdade moral" ou "ninguém deve impor sua moral" são afirmações que pretendem valer para todos, o que contradiz o próprio relativismo.

    2. Costuma ser aplicado de forma seletiva.

    Quem usa o argumento contra o veganismo raramente o usa contra roubo, racismo ou violência contra crianças. Se o relativismo fosse levado a sério, essas condenações também seriam "só opinião".

    3. Discordância não é ausência de verdade.

    As pessoas discordaram sobre o formato da Terra e sobre a escravidão. A existência de desacordo não mostra que todas as posições valem o mesmo.

    4. Gosto e dano a terceiros são coisas diferentes.

    Questões de gosto afetam só quem escolhe. Quando há uma vítima, a escolha deixa de ser só pessoal (E1).

    5. O relativismo impediria o progresso moral.

    Se não há certo e errado, a abolição da escravidão não foi um avanço, apenas uma mudança de opinião. Quase ninguém aceita isso.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Rachels, *Os Elementos da Filosofia Moral*Apresenta e critica o relativismo cultural: o desacordo não prova que não há verdade moralMcGraw-Hill; capítulo sobre o desafio do relativismo cultural
    PhilPapers Survey 2020A maioria dos filósofos aceita ou tende ao realismo moralMostra que o relativismo é posição minoritária entre especialistas
  4. d

    A melhor réplica: o antirrealismo sofisticado

    A versão mais séria não é o relativismo de "cada um tem sua verdade", mas teorias filosóficas antirrealistas que dizem que a moral depende de atitudes humanas, sem que isso torne tudo arbitrário.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Essas teorias não tornam tudo permitido.

    Quem as defende continua condenando crueldade e injustiça.

    Elas também valorizam a coerência.

    Se nossas atitudes condenam o sofrimento desnecessário, devem condená-lo também nos animais.

    O debate muda de nível, mas não de resultado.

    Mesmo no antirrealismo, há melhores e piores razões para agir.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Autorrefutação
Afirma universalmente que não há verdades universais
Aplicação seletiva
O relativismo só vale para o próprio hábito

Epistemológico

A evidência sustenta?

Do desacordo à ausência de verdade
Conclui que não há resposta porque há discordância

Moral

O critério é coerente?

Confusão entre gosto e dano
Trata como preferência uma escolha que afeta outros

Vieses

Raciocínio motivado

O relativismo aparece quando protege o hábito

Literatura geral sobre cognição motivada

Paradoxo da carne

Relativizar alivia a tensão entre valores e prática

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Extrapolações

O princípio testado é: "se há discordância moral, cada um tem sua verdade".

Se valesse para…EscravidãoToque para ver

Era certa para quem a praticava

Ninguém aceita

Se valesse para…Violência domésticaToque para ver

Seria errada só na opinião da vítima

Ninguém aceita

Se valesse para…RacismoToque para ver

Seria uma verdade entre outras

Ninguém aceita

Contradições

Condena injustiças sem relativizar.

Racismo, violência, corrupção.

Sentiria-se injustiçado se fosse vítima.

E não aceitaria que isso é "só opinião" do agressor.

Discute moral o tempo todo.

Quem acha que tudo é relativo não deveria se indignar com nada.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Há algo de verdadeiro e importante aqui: questões morais são difíceis, pessoas razoáveis discordam, e é preciso humildade para não tratar as próprias convicções como certezas absolutas. Também é verdade que muitas questões são de gosto e não devem ser moralizadas.

Mas

Mas humildade não é relativismo. Reconhecer que podemos errar é uma razão para examinar melhor nossas práticas, e não para declarar que todas valem o mesmo.

Conexões

Costuma vir antes

D1 Sempre fizemos isso.Quando a tradição não basta, relativiza-se a moral
D2 É cultural, criticar é etnocentrismo.Do relativismo cultural passa-se ao relativismo moral
E1 É minha escolha pessoal, não imponha sua moral.Da escolha pessoal passa-se à moral pessoal
E11 Nem os filósofos concordam.Do desacordo passa-se ao relativismo
E13 Defender os animais é coisa de utilitaristaQuando a teoria cai, apela-se ao relativismo
E2este argumento

Costuma vir depois

E1 É minha escolha pessoal, não imponha sua moral.Se a moral é relativa, cada um escolhe
E10 Veganismo é opinião, não ciência.O relativismo vira ceticismo sobre a ética
E12 Sei que é errado, mas não vou mudar.Quando o relativismo cai, resta a franqueza
A23 A moral existe para nos proteger uns dos outrosSe a moral é um acordo, cada grupo decide quem entra

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências