Guia de Argumentação
Pelos Animais

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E11

"Nem os filósofos concordam."

A resposta em uma frase

desacordo não é empate. Filósofos discordam sobre quase tudo, inclusive sobre como fundamentar os direitos humanos, e ninguém conclui que tudo vale. Na questão dos animais há uma convergência forte: as principais teorias éticas condenam o sofrimento desnecessário, e é difícil encontrar um filósofo que defenda a pecuária industrial como ela existe. Entre os especialistas em ética, a maioria considera moralmente ruim comer carne de mamíferos.

Resposta curta

Filósofos discordam sobre quase tudo, e ninguém conclui daí que qualquer coisa vale. Na questão dos animais há um ponto de convergência forte: as principais teorias éticas condenam o sofrimento desnecessário, e é difícil encontrar quem defenda a pecuária industrial como ela existe. Numa pesquisa com professores de ética nos Estados Unidos, cerca de 60% avaliaram como moralmente ruim comer carne de mamíferos regularmente.

Para crianças

Os médicos às vezes discordam sobre qual é o melhor remédio. Mas todos concordam que não se deve dar veneno ao paciente. Com os filósofos é parecido: eles discordam sobre muitos detalhes, mas quase todos concordam que fazer os animais sofrer sem necessidade é errado.

Devolva com uma pergunta

"Você conhece algum filósofo que defenda a pecuária industrial como ela é hoje?"

Como pode aparecer

"É um debate em aberto."
Conversa cotidiana
"Tem filósofo que defende comer carne."
Conversa cotidiana
"Se nem eles chegam a um acordo, por que eu deveria mudar?"
Conversa cotidiana
"Peter Singer é só um filósofo entre muitos."
Redes sociais
"Há desacordo razoável sobre o status moral dos animais."
Versão acadêmica
"Grandes pensadores comiam carne." (que é D10)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"É um debate em aberto. Tem filósofo que defende comer carne."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Filósofos competentes discordam sobre o status moral dos animais.
  2. P2Quando especialistas discordam, não se pode exigir que leigos adotem uma posição.
  3. CLogo, cada um pode continuar com sua prática, inclusive comer carne.

P1 é verdadeira: há desacordo, sobretudo sobre detalhes. O problema está em P2: desacordo entre especialistas não torna todas as posições igualmente razoáveis, e os pontos de convergência já bastam para condenar a maior parte do que acontece.

O argumento é válido. A solidez falha em P2, e o argumento ignora o que os filósofos têm em comum.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento trata todo desacordo como empate. Mas há graus de concordância:

    QuestãoHá convergência?
    Causar sofrimento desnecessário aos animais é errado?Sim, ampla
    A pecuária industrial causa sofrimento desnecessário em grande escala?Sim, ampla
    Matar um animal sem dor é errado?Há mais desacordo
    Animais têm direitos no mesmo sentido que humanos?Há desacordo teórico

    O desacordo nos pontos de baixo não afeta a conclusão dos pontos de cima, que já basta para condenar quase toda a carne que se consome.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Desacordo não é empate.

    Em toda área de conhecimento há divergências, e isso não torna todas as posições equivalentes. Filósofos também discordam sobre a fundamentação dos direitos humanos.

    2. As principais teorias convergem.

    O utilitarismo condena o sofrimento desnecessário; as teorias de direitos condenam o uso de seres sencientes como meios; a ética das virtudes condena a crueldade; o contratualismo, em suas versões recentes, tem sido estendido aos animais. Por caminhos diferentes, chegam a conclusões parecidas.

    3. Os especialistas em ética tendem a uma direção.

    Numa pesquisa com professores dos Estados Unidos, cerca de 60% dos especialistas em ética avaliaram como moralmente ruim comer carne de mamíferos regularmente, contra cerca de 20% de professores de outras áreas.

    4. A defesa da pecuária industrial é rara.

    Mesmo filósofos que defendem comer carne costumam defender apenas formas muito diferentes da produção atual, como animais criados com boa vida e mortos sem dor (B5).

    5. O argumento costuma servir para encerrar a conversa.

    Mas, quando se olha o que os filósofos dizem sobre os animais, a conclusão é mais clara do que a frase sugere.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Schwitzgebel, *The Moral Lives of Ethicists*Cerca de 60% dos especialistas em ética avaliaram comer carne de mamíferos regularmente como moralmente ruimPesquisa feita com Joshua Rust; o mesmo estudo mostra que o comportamento deles não mudou na mesma medida
    PhilPapers Survey 2020Cerca de 26% dos filósofos defendem ou tendem a defender o vegetarianismo como posição ética, e 18% o veganismoA pergunta é sobre o que é permissível comer; somadas, as duas posições chegam a cerca de 44%
  4. d

    A melhor réplica: até os especialistas comem carne

    A versão mais séria lembra que, no mesmo estudo, os especialistas em ética comiam carne quase tanto quanto os outros professores. Se nem quem estuda o tema muda, a conclusão moral não seria tão clara.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    O comportamento não mede a verdade.

    O estudo mostra que saber o que é certo não basta para mudar, e não que a conclusão esteja errada (E12).

    A réplica confirma a convergência.

    Os especialistas acham errado, ainda que nem todos mudem.

    A dificuldade de mudar é um problema prático.

    É uma razão para criar condições de mudança, e não para negar o problema.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falso equilíbrio
Trata qualquer desacordo como empate

Epistemológico

A evidência sustenta?

Desconhecimento do debate
Ignora os pontos de convergência
Desacordo como ausência de resposta
Conclui que não há resposta porque há discussão

Moral

O critério é coerente?

Uso do desacordo como desculpa
A dúvida vira permissão

Vieses

Raciocínio motivado

O desacordo é lembrado só onde dispensa a mudança

Literatura geral sobre cognição motivada

Viés do status quo

Na dúvida, mantém-se a prática atual

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Extrapolações

O princípio testado é: "se os especialistas discordam, posso fazer o que quiser".

Se valesse para…Mudança climáticaToque para ver

Bastaria um cientista discordar para ignorar o problema

Ninguém sensato aceita

Se valesse para…Direitos humanosToque para ver

Bastaria o desacordo filosófico para desrespeitá-los

Ninguém aceita

Se valesse para…MedicinaToque para ver

Bastaria um médico divergir para recusar qualquer tratamento

Ninguém aceita

Contradições

Não usa o desacordo em outros temas.

Filósofos discordam sobre a fundamentação dos direitos humanos, e ninguém conclui que tudo vale.

Não usaria o argumento para maus-tratos a cães.

Mesmo havendo filósofos que negam deveres diretos a animais.

Não leu os filósofos que cita.

O argumento costuma vir sem nenhum autor.

O que o argumento acerta

O que é verdade

É verdade que há desacordo filosófico sobre os animais, e que ele é sério: há discussões legítimas sobre o valor da vida animal, sobre a força dos deveres e sobre os casos-limite. Reconhecer isso é sinal de honestidade intelectual.

Mas

Mas o desacordo está nos detalhes, e não no centro. Quase todos concordam que o sofrimento desnecessário é errado, e isso já basta para condenar a maior parte do que acontece com os animais hoje.

Conexões

Costuma vir antes

D10 Grandes pensadores comiam carne.Diz que nem os filósofos concordam
E10 Veganismo é opinião, não ciência.Diz que nem os filósofos concordam
E11este argumento

Costuma vir depois

E2 A moral é relativa.Do desacordo passa-se ao relativismo
E12 Sei que é errado, mas não vou mudar.Como os especialistas, admite o erro e não muda
E13 Defender os animais é coisa de utilitaristaA discordância vira rótulo de uma única escola

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências