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"É cultural, criticar é etnocentrismo."
respeitar culturas não significa aceitar tudo o que nelas acontece. Quem usa esse argumento raramente o aplica a práticas que condena, como a farra do boi ou a rinha de galo. E as culturas não são blocos fixos: dentro de cada uma há pessoas que questionam suas próprias práticas, e o veganismo critica sobretudo a cultura dominante de quem fala, e não a dos outros.
Resposta curta
Respeitar uma cultura não é aceitar tudo dentro dela. Quem diz isso costuma criticar a farra do boi, a rinha de galo ou o consumo de cães em outros países, então não acredita de verdade que nenhuma prática cultural pode ser julgada. O Supremo Tribunal Federal proibiu a farra do boi e a rinha de galo justamente por serem cruéis, apesar de serem tradições. E o veganismo critica principalmente a cultura de quem está falando, que é a cultura dominante, e não a de um povo distante.
Para crianças
Cada lugar tem suas festas, comidas e costumes, e é bom conhecer e respeitar isso. Mas, se um costume machuca alguém, dá para conversar sobre ele, mesmo sendo tradição. Muitos lugares já mudaram costumes que machucavam pessoas ou animais, e continuaram sendo eles mesmos.
"Você acha que a farra do boi deveria continuar, já que é cultural?"
Como pode aparecer
"Você não pode julgar outras culturas."
"É parte da nossa identidade regional."
"Isso é imperialismo cultural."
"Veganismo é coisa de europeu."
"A crítica ao consumo de carne impõe valores ocidentais a outros povos."
"Rodeio, vaquejada, tourada e circo são cultura." (que é I8)
A versão mais forte
"Você não pode julgar outras culturas. Isso é parte da nossa identidade. É imperialismo cultural."
Versão mais forte (steelman):
- P1Culturas diferentes têm valores e práticas diferentes.
- P2Historicamente, a crítica a outras culturas serviu muitas vezes para justificar dominação.
- P3Não existe um ponto de vista neutro de onde julgar todas as culturas.
- CLogo, criticar práticas culturais com animais é etnocentrismo.
P1 e P2 são verdadeiras e importantes. O colonialismo usou a "civilização" como desculpa. O problema está em passar disso para a ideia de que nenhuma prática cultural pode ser criticada.
O argumento é válido. A solidez falha em P3, levada ao extremo, e na conclusão, que tornaria impossível criticar qualquer prática, inclusive as que quem argumenta condena.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento é aplicado de forma seletiva:
Prática Quem usa o argumento costuma dizer Churrasco, rodeio, pesca "É cultural, não critique" Consumo de carne de cão em outros países "É cruel" Farra do boi, rinha de galo "É crueldade, tem de proibir" Mutilação genital, casamento infantil "É violação de direitos" Se o argumento valesse, valeria para todas. Como não é aplicado a todas, o critério real não é "é cultural", e sim "é a minha cultura".
- b
Onde o argumento quebra
1. Relativismo seletivo.
Quase ninguém acredita que toda prática cultural está acima de crítica. O argumento costuma aparecer para proteger as práticas de quem argumenta, e não as dos outros.
2. O direito brasileiro já respondeu.
O Supremo Tribunal Federal proibiu a farra do boi em Santa Catarina, em 1997, e as rinhas de galo, por violarem a proibição constitucional de crueldade. Em 2016, julgou inconstitucional a lei cearense da vaquejada pelo mesmo motivo, decisão depois contornada pela Emenda Constitucional 96 (D1).
3. Culturas não são blocos.
Dentro de cada cultura há debates, divergências e mudanças. Muitas tradições brasileiras e de outros povos incluem vegetarianismo, respeito aos animais ou práticas sem carne.
4. A crítica é, na maioria das vezes, interna.
Quem defende o veganismo no Brasil critica principalmente a cultura brasileira dominante, da qual faz parte. Isso não é etnocentrismo, é autocrítica.
5. O critério é a vítima, e não a origem.
O que importa não é de onde a prática vem, e sim se ela causa dano a quem não consentiu.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Constituição Federal, art. 225, § 1º, VII Veda práticas que submetam os animais a crueldade Base das decisões contra farra do boi, rinha e vaquejada Dizer o Direito, vaquejada (ADI 4983) O STF julgou inconstitucional a lei cearense da vaquejada Usado também em D1 Estratégia, proibição da rinha de galo Resume as decisões do STF sobre rinhas e a farra do boi Usado também em D1 - d
A melhor réplica: o problema é quem critica e como
A versão mais séria diz que o problema não é criticar, mas quem critica e como: campanhas de países ricos contra práticas de povos pobres ou minorias reproduzem relações coloniais, e o veganismo às vezes faz isso.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela é uma crítica à forma, e não ao conteúdo.
Pode-se defender os animais sem desrespeitar povos e culturas.
Ela não se aplica a quem consome a cultura dominante.
O churrasco brasileiro não é prática de uma minoria oprimida.
O próprio movimento reconhece isso.
O veganismo se define como evitar a exploração "na medida do possível e praticável" (D3).
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Apelo à tradição
Aplicação seletiva
Epistemológico
A evidência sustenta?
Cultura vista como bloco fixo
Moral
O critério é coerente?
Relativismo seletivo
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "práticas culturais não podem ser criticadas por quem é de fora".
Se valesse para…Farra do boiToque para ver
Não poderia ser proibida
O STF proibiu
Se valesse para…EscravidãoToque para ver
Não poderia ter sido criticada em sociedades que a praticavam
Absurdo
Se valesse para…Violência contra mulheres justificada como tradiçãoToque para ver
Não poderia ser julgada
Os direitos humanos existem contra isso
Contradições
Como o consumo de cães ou a caça de baleias.
Que eram práticas culturais.
Hábitos alimentares brasileiros mudaram muito nas últimas décadas.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A preocupação com o etnocentrismo é legítima e importante. A história mostra que a crítica cultural foi muitas vezes usada para justificar dominação, e defensores dos animais devem ter cuidado para não tratar outras culturas com desprezo nem escolher alvos fáceis entre minorias.
Mas
Mas respeitar culturas não é tornar intocável tudo o que acontece dentro delas. A pergunta certa não é de quem é a prática, e sim quem paga por ela.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe: