Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / E. Relativismo, liberdade e evasões / Parte DIR

E4

"O Estado não pode proibir o que eu como."

A resposta em uma frase

o argumento troca de pergunta. O debate era "comer animais é errado?", e passa a ser "o Estado deve proibir?". São perguntas diferentes: muitas coisas erradas não são proibidas, e a resposta à segunda não responde à primeira. Além disso, o Estado já regula o que comemos, e o princípio liberal do dano, que protege a liberdade individual, foi formulado justamente para os casos em que não há vítima.

Resposta curta

Ninguém aqui está falando em prender quem come carne. A pergunta era se é certo, e não se deve ser proibido. Muitas coisas erradas não são proibidas, como mentir para um amigo. E o Estado já regula o que comemos: há alimentos proibidos, regras sanitárias e leis contra maus-tratos. O princípio liberal que protege a liberdade, o princípio do dano, vale para escolhas que não prejudicam outros, e os animais são esses outros.

Para crianças

Tem coisas que não são proibidas por lei, mas que mesmo assim não são legais de fazer, como mentir para um amigo. A pergunta "isso é proibido?" é diferente da pergunta "isso é certo?". Quando falamos dos animais, a primeira pergunta é se é certo machucá-los. Se a lei deveria mudar é outra conversa.

Devolva com uma pergunta

"Deixando a lei de lado: você acha certo fazer um animal sofrer quando há alternativa?"

Como pode aparecer

"Veganos querem proibir a carne."
Conversa cotidiana
"Ditadura vegana."
Conversa cotidiana
"O Estado não manda no meu prato."
Conversa cotidiana
"Primeiro o canudo, depois o churrasco."
Redes sociais
"Políticas contra a carne são autoritarismo alimentar."
Versão política
"É minha escolha pessoal, não imponha sua moral." (que é E1)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Veganos querem proibir a carne. Ditadura vegana. O Estado não manda no meu prato."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Numa sociedade livre, o Estado não deve interferir em escolhas pessoais que não prejudicam outras pessoas.
  2. P2O que cada um come é uma escolha pessoal.
  3. CLogo, o Estado não pode proibir o consumo de carne.

P1 é uma versão do princípio do dano de John Stuart Mill, um pilar do liberalismo. O problema está em P2: o consumo de carne afeta animais e, em vários aspectos, outras pessoas. E, mesmo que a conclusão fosse aceita, ela não responderia se comer carne é moralmente certo.

O argumento é válido. A solidez falha em P2, e o argumento responde a uma pergunta diferente da que estava em debate.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento troca uma pergunta por outra:

    PerguntaTipoExemplo de resposta
    Comer animais é errado?MoralO tema deste guia
    O Estado deve proibir?Política e jurídicaDepende de muitos fatores: viabilidade, transição, consenso

    Responder "não" à segunda não responde à primeira. Muitos defensores dos animais nem defendem proibições, e sim mudanças voluntárias, subsídios e transições graduais.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Muda de assunto.

    O debate moral não depende do debate legal. Mentir, trair ou ser cruel com palavras são, muitas vezes, legais e errados.

    2. O Estado já regula a alimentação.

    Há proibições sanitárias, regras de rotulagem, proibição de comer carne de certos animais, como espécies silvestres protegidas, e leis contra maus-tratos (D7). A ideia de que o prato é intocável não descreve a realidade.

    3. O princípio do dano favorece os animais.

    Mill defendeu que a liberdade individual só pode ser limitada para evitar dano a outros. O argumento supõe que comer carne não prejudica ninguém, mas os animais são prejudicados, e há ainda efeitos sobre o clima, a saúde pública e o surgimento de doenças (família H).

    4. "Ditadura vegana" é espantalho.

    Atribui aos veganos uma proposta de proibição imediata que muitos não defendem, e responde a ela em vez de responder ao argumento moral. E, mesmo para quem defende leis, a pergunta moral vem antes.

    5. Proteções sempre limitaram liberdades.

    Leis contra maus-tratos a cães limitam o que donos podem fazer. Ninguém chama isso de ditadura.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Mill, *Sobre a Liberdade* (1859)A liberdade individual só pode ser limitada para evitar dano a outrosUsado também em E1
    Lei 9.605/1998, art. 32Pune maus-tratos a animaisO Estado já limita o que se pode fazer com animais
  4. d

    A melhor réplica: a mudança deve ser voluntária

    A versão mais séria admite que comer animais pode ser errado, mas diz que a mudança deve vir da consciência individual, e não da força do Estado, porque proibições geram resistência e mercados ilegais.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ela aceita a pergunta moral.

    Se a mudança deve ser voluntária, ela deve acontecer, e cabe a cada um fazê-la.

    É uma discussão de estratégia, não de justificativa.

    Pode-se debater os melhores meios sem negar o fim.

    Voluntário não é neutro.

    O Estado hoje subsidia a pecuária; retirar subsídios não é proibir.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Mudança de assunto
Do "é errado?" ao "deve ser proibido?"
Espantalho
Atribui aos veganos uma proposta de proibição imediata

Epistemológico

A evidência sustenta?

Desconhecimento da regulação
Ignora que o Estado já regula a alimentação

Moral

O critério é coerente?

Liberdade sem vítima
Aplica o princípio do dano ignorando quem é prejudicado

Vieses

Reatância psicológica

A sensação de ameaça à liberdade gera resistência à mensagem

Literatura geral sobre reatância

Raciocínio motivado

Mudar de pergunta evita a pergunta incômoda

Literatura geral sobre cognição motivada

Extrapolações

O princípio testado é: "o Estado não pode interferir no que eu faço com meu dinheiro e meu tempo, mesmo que haja uma vítima".

Se valesse para…Rinhas de cãesToque para ver

Não poderiam ser proibidas

São crime

Se valesse para…Compra de animais silvestresToque para ver

Seria livre

É crime

Se valesse para…Trabalho infantilToque para ver

O Estado não poderia proibir quem o contrata

Ninguém aceita

Contradições

Apoia leis contra maus-tratos a cães.

Que limitam a liberdade dos donos.

Aceita regras sanitárias.

Que limitam o que pode ser vendido e comido.

Não acha que tudo o que é legal é certo.

A pergunta moral continua aberta.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A preocupação com a liberdade individual é legítima, e o autoritarismo é um risco real. Proibições mal pensadas podem ser injustas e ineficazes, e a mudança cultural costuma ser mais duradoura quando é voluntária.

Mas

Mas a pergunta "deve ser proibido?" não substitui a pergunta "é certo?". Mesmo quem defende total liberdade de escolha precisa decidir o que vai escolher.

Conexões

Costuma vir antes

D7 É legal, a lei permite.Diz que o Estado não pode proibir
E4este argumento

Costuma vir depois

Referências