Guia de Argumentação
Pelos Animais
EN

Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M8

"Ajudar animais selvagens não é veganismo, é outra pauta"

A resposta em uma frase

é verdade que o veganismo, como definido, trata de não explorar animais. Mas o fundamento do veganismo é a senciência: os animais importam porque podem sofrer e ter uma vida boa ou ruim. Esse fundamento não muda conforme quem causou o sofrimento. Um antiespecismo que só se importa com as vítimas humanas da natureza, e não com as animais, mantém exatamente o tipo de exclusão que diz combater.

Nota: esta é uma objeção feita sobretudo por veganos e ativistas, e muitos deles a sustentam com boa-fé. O capítulo não questiona a definição de veganismo; questiona se o fundamento dele para na exploração.

Resposta curta

Concordo que veganismo, pela definição, é sobre não explorar. Mas por que não explorar? Porque os animais sentem. E um animal com fome, doença ou parasitas sente do mesmo jeito, mesmo que ninguém tenha causado isso. Ninguém precisa abandonar a luta contra a pecuária: dá para defender as duas coisas, e as duas vêm da mesma ideia.

Para crianças

Imagine que você aprendeu que não pode machucar os outros. Ótimo! Mas, se um colega cai e se machuca sozinho, você também não ia querer ajudar? Não machucar é o começo. Se a gente se importa com os outros de verdade, também quer ajudar quando eles precisam, mesmo que a culpa não seja nossa.

Devolva com uma pergunta

"Se o motivo de ser vegano é que os animais sentem, por que o sofrimento de um animal deixaria de importar só porque foi a natureza que o causou?"

Como pode aparecer

"Veganismo é só não explorar."
Ativismo
"Primeiro acabe com a pecuária, depois falamos de bicho do mato."
Ativismo
"Ajudar bicho selvagem é bem-estarismo."
Ativismo
"Querer mexer na natureza é especismo ao contrário."
Redes sociais
"A ética animal trata de deveres negativos; os positivos são outra questão."
Versão acadêmica
"Não fomos nós que causamos, então não temos obrigação de ajudar." (que é M3)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Veganismo é não explorar animais. Bicho do mato não é problema nosso. Primeiro acabe com a pecuária, depois a gente conversa."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1O veganismo é uma posição contra a exploração dos animais pelos humanos.
  2. P2O sofrimento dos animais selvagens não resulta de exploração humana.
  3. P3Misturar as duas pautas confunde o público e desvia recursos da luta contra a exploração.
  4. CLogo, ajudar animais selvagens não faz parte do veganismo e não deve ser defendido por veganos.

P1 e P2 são verdadeiras como definição. P3 é uma preocupação estratégica legítima. O problema é a conclusão moral: que algo não esteja na definição de veganismo não mostra que não seja uma consequência do mesmo princípio.

O argumento é válido quanto à definição, mas inválido quanto ao que importa: de "não é veganismo" não se segue "não é dever".

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento depende de confundir a definição de um movimento com o alcance do seu fundamento:

    NívelO que dizAlcance
    Definição de veganismoExcluir, na medida do possível e praticável, a exploração e a crueldade contra animaisPráticas humanas de uso
    FundamentoSeres sencientes têm interesses que importam, independentemente da espécieTodo ser senciente, em qualquer situação
    Consequências do fundamentoNão explorar; e também levar em conta o sofrimento que podemos evitarInclui, mas não se limita, à exploração

    O veganismo pode continuar com a sua definição. O que não se sustenta é dizer que o fundamento para nela.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O fundamento não pergunta quem causou.

    Se os animais importam porque sentem, o sofrimento deles importa venha de onde vier. Uma ética que só conta o sofrimento causado por humanos mede o dano pela culpa do agente, não pelo que a vítima sente (M2, M3).

    2. O teste humano.

    Um movimento de direitos humanos pode se concentrar em violações cometidas por governos. Mas ninguém diria que, por isso, socorrer vítimas de enchentes ou de epidemias não importa moralmente. Uma coisa é escolher o foco de um movimento; outra é dizer que o resto não é problema.

    3. Não é bem-estarismo.

    O bem-estarismo regula a exploração; a proposta de ajudar animais selvagens não regula exploração nenhuma. Abolicionistas também se importam com o bem-estar dos animais, e a proposta é compatível com rejeitar toda exploração.

    4. Pautas diferentes não precisam competir.

    Uma pessoa pode lutar contra a pecuária e apoiar pesquisa sobre animais selvagens. E ensinar que todo ser senciente importa, independentemente de quem causou o dano, fortalece o antiespecismo como um todo.

    5. É uma hierarquia que sobrevive entre veganos.

    Dar mais peso aos animais explorados do que aos selvagens, só pela origem do dano, é uma das formas de especismo que persistem mesmo entre quem já rejeitou a exploração.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Questão de Ética, vol. VII, cap. 9A proposta de ajudar os animais selvagens não é bem-estaristaVer também caps. 22 e 35
    Animal Ethics, "Why wild animal suffering matters"O sofrimento importa para quem o sofre, independentemente da causaEm inglês
    The Vegan Society, definição de veganismoExcluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animaisEm inglês
  4. d

    A melhor réplica: a estratégia importa

    A versão mais séria diz: mesmo que o fundamento alcance os animais selvagens, falar disso agora prejudica o movimento. O público já acha o veganismo radical; falar em intervir na natureza o fará parecer absurdo, e isso atrasa o fim da exploração.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    É um argumento sobre quando e como falar, não sobre o que é certo.

    Pode justificar cuidado na comunicação, mas não negar que o problema existe.

    Esconder o fundamento enfraquece o argumento.

    Se o veganismo é defendido só como "não explorar", sem explicar por quê, ele perde a base que o torna coerente e fica mais vulnerável a objeções (F3).

    O público pode entender.

    A maioria das pessoas já aprova resgatar animais em incêndios e enchentes. A ideia de ajudar animais selvagens não é estranha; estranho é tratá-la como absurda.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Confusão entre definição e fundamento
Da definição de veganismo conclui o alcance da ética animal
Non sequitur
De "não é veganismo" conclui "não é dever"

Moral

O critério é coerente?

Especismo residual
Dá mais peso a animais explorados que a selvagens pela origem do dano
Foco no agente
Mede o problema pela culpa humana, não pelo que o animal sente

Vieses

Viés de omissão

O sofrimento que não causamos parece menos urgente

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Viés de intenção

O dano só parece grave quando há um culpado

Tomasik, "Intention-based moral reactions distort intuitions about wild animals"

Apelo à natureza

O natural parece fora do campo moral

Ligado a M2

Extrapolações

O princípio testado é: "só importa o sofrimento que faz parte da pauta do nosso movimento".

Se valesse para…Direitos humanosToque para ver

Vítimas de desastres naturais não importariam moralmente

Ninguém aceita

Se valesse para…Animais resgatadosToque para ver

Socorrer animais em incêndios não seria assunto de quem defende os animais

Quase todos os veganos apoiam o resgate

Se valesse para…AntiespecismoToque para ver

A espécie deixaria de importar, mas a origem do dano passaria a importar

Troca um critério arbitrário por outro

Contradições

Diz que os animais importam porque sentem.

E depois diz que o sofrimento de alguns não importa porque ninguém o causou.

Aprova resgates de animais em desastres.

Que são ajuda a animais selvagens.

Rejeita o especismo.

Mas mantém uma hierarquia entre animais conforme a origem do dano.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que o veganismo tem uma definição precisa, que vale a pena preservá-la, e que a comunicação de um movimento exige escolhas. Também acerta que a exploração é um dano causado por nós, que podemos parar agora, e que isso tem prioridade prática.

Mas

Mas o fundamento do veganismo vai além dele. Se o que importa é a senciência, os animais que sofrem na natureza também importam. Não é preciso mudar a definição de veganismo para reconhecer isso; basta não usar a definição como desculpa.

Conexões

Costuma vir antes

M7 Natureza equilibrada é natureza boa para os bichosA pauta ambiental é confundida com a dos animais
M6 Quem somos nós para interferir na natureza?A não interferência vira regra do ativismo
M8este argumento

Costuma vir depois

K6 Veganismo radical afasta as pessoas.A preocupação estratégica volta, agora contra a própria ampliação
F3 Então deveríamos impedir leões de caçar?Sem o fundamento, o vegano fica sem resposta à provocação

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências