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"Ajudar animais selvagens não é veganismo, é outra pauta"
é verdade que o veganismo, como definido, trata de não explorar animais. Mas o fundamento do veganismo é a senciência: os animais importam porque podem sofrer e ter uma vida boa ou ruim. Esse fundamento não muda conforme quem causou o sofrimento. Um antiespecismo que só se importa com as vítimas humanas da natureza, e não com as animais, mantém exatamente o tipo de exclusão que diz combater.
Nota: esta é uma objeção feita sobretudo por veganos e ativistas, e muitos deles a sustentam com boa-fé. O capítulo não questiona a definição de veganismo; questiona se o fundamento dele para na exploração.
Resposta curta
Concordo que veganismo, pela definição, é sobre não explorar. Mas por que não explorar? Porque os animais sentem. E um animal com fome, doença ou parasitas sente do mesmo jeito, mesmo que ninguém tenha causado isso. Ninguém precisa abandonar a luta contra a pecuária: dá para defender as duas coisas, e as duas vêm da mesma ideia.
Para crianças
Imagine que você aprendeu que não pode machucar os outros. Ótimo! Mas, se um colega cai e se machuca sozinho, você também não ia querer ajudar? Não machucar é o começo. Se a gente se importa com os outros de verdade, também quer ajudar quando eles precisam, mesmo que a culpa não seja nossa.
"Se o motivo de ser vegano é que os animais sentem, por que o sofrimento de um animal deixaria de importar só porque foi a natureza que o causou?"
Como pode aparecer
"Veganismo é só não explorar."
"Primeiro acabe com a pecuária, depois falamos de bicho do mato."
"Ajudar bicho selvagem é bem-estarismo."
"Querer mexer na natureza é especismo ao contrário."
"A ética animal trata de deveres negativos; os positivos são outra questão."
"Não fomos nós que causamos, então não temos obrigação de ajudar." (que é M3)
A versão mais forte
"Veganismo é não explorar animais. Bicho do mato não é problema nosso. Primeiro acabe com a pecuária, depois a gente conversa."
Versão mais forte (steelman):
- P1O veganismo é uma posição contra a exploração dos animais pelos humanos.
- P2O sofrimento dos animais selvagens não resulta de exploração humana.
- P3Misturar as duas pautas confunde o público e desvia recursos da luta contra a exploração.
- CLogo, ajudar animais selvagens não faz parte do veganismo e não deve ser defendido por veganos.
P1 e P2 são verdadeiras como definição. P3 é uma preocupação estratégica legítima. O problema é a conclusão moral: que algo não esteja na definição de veganismo não mostra que não seja uma consequência do mesmo princípio.
O argumento é válido quanto à definição, mas inválido quanto ao que importa: de "não é veganismo" não se segue "não é dever".
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento depende de confundir a definição de um movimento com o alcance do seu fundamento:
Nível O que diz Alcance Definição de veganismo Excluir, na medida do possível e praticável, a exploração e a crueldade contra animais Práticas humanas de uso Fundamento Seres sencientes têm interesses que importam, independentemente da espécie Todo ser senciente, em qualquer situação Consequências do fundamento Não explorar; e também levar em conta o sofrimento que podemos evitar Inclui, mas não se limita, à exploração O veganismo pode continuar com a sua definição. O que não se sustenta é dizer que o fundamento para nela.
- b
Onde o argumento quebra
1. O fundamento não pergunta quem causou.
2. O teste humano.
Um movimento de direitos humanos pode se concentrar em violações cometidas por governos. Mas ninguém diria que, por isso, socorrer vítimas de enchentes ou de epidemias não importa moralmente. Uma coisa é escolher o foco de um movimento; outra é dizer que o resto não é problema.
3. Não é bem-estarismo.
O bem-estarismo regula a exploração; a proposta de ajudar animais selvagens não regula exploração nenhuma. Abolicionistas também se importam com o bem-estar dos animais, e a proposta é compatível com rejeitar toda exploração.
4. Pautas diferentes não precisam competir.
Uma pessoa pode lutar contra a pecuária e apoiar pesquisa sobre animais selvagens. E ensinar que todo ser senciente importa, independentemente de quem causou o dano, fortalece o antiespecismo como um todo.
5. É uma hierarquia que sobrevive entre veganos.
Dar mais peso aos animais explorados do que aos selvagens, só pela origem do dano, é uma das formas de especismo que persistem mesmo entre quem já rejeitou a exploração.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Questão de Ética, vol. VII, cap. 9 A proposta de ajudar os animais selvagens não é bem-estarista Ver também caps. 22 e 35 Animal Ethics, "Why wild animal suffering matters" O sofrimento importa para quem o sofre, independentemente da causa Em inglês The Vegan Society, definição de veganismo Excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais Em inglês - d
A melhor réplica: a estratégia importa
A versão mais séria diz: mesmo que o fundamento alcance os animais selvagens, falar disso agora prejudica o movimento. O público já acha o veganismo radical; falar em intervir na natureza o fará parecer absurdo, e isso atrasa o fim da exploração.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
É um argumento sobre quando e como falar, não sobre o que é certo.
Pode justificar cuidado na comunicação, mas não negar que o problema existe.
Esconder o fundamento enfraquece o argumento.
Se o veganismo é defendido só como "não explorar", sem explicar por quê, ele perde a base que o torna coerente e fica mais vulnerável a objeções (F3).
O público pode entender.
A maioria das pessoas já aprova resgatar animais em incêndios e enchentes. A ideia de ajudar animais selvagens não é estranha; estranho é tratá-la como absurda.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Confusão entre definição e fundamento
Non sequitur
Moral
O critério é coerente?
Especismo residual
Foco no agente
Vieses
Viés de intenção
O dano só parece grave quando há um culpado
Tomasik, "Intention-based moral reactions distort intuitions about wild animals"
Extrapolações
O princípio testado é: "só importa o sofrimento que faz parte da pauta do nosso movimento".
Se valesse para…Direitos humanosToque para ver
Vítimas de desastres naturais não importariam moralmente
Ninguém aceita
Se valesse para…Animais resgatadosToque para ver
Socorrer animais em incêndios não seria assunto de quem defende os animais
Quase todos os veganos apoiam o resgate
Se valesse para…AntiespecismoToque para ver
A espécie deixaria de importar, mas a origem do dano passaria a importar
Troca um critério arbitrário por outro
Contradições
E depois diz que o sofrimento de alguns não importa porque ninguém o causou.
Que são ajuda a animais selvagens.
Mas mantém uma hierarquia entre animais conforme a origem do dano.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que o veganismo tem uma definição precisa, que vale a pena preservá-la, e que a comunicação de um movimento exige escolhas. Também acerta que a exploração é um dano causado por nós, que podemos parar agora, e que isso tem prioridade prática.
Mas
Mas o fundamento do veganismo vai além dele. Se o que importa é a senciência, os animais que sofrem na natureza também importam. Não é preciso mudar a definição de veganismo para reconhecer isso; basta não usar a definição como desculpa.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Seria a proposta de ajudar os animais selvagens bem-estarista? Vol. VII, cap. 9
- Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados Vol. VII, cap. 22
- Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens? Vol. VII, cap. 35