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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M9

"Máquinas nunca vão sentir, robôs e IAs não precisam de direitos"

A resposta em uma frase

provavelmente as máquinas de hoje não sentem nada. Mas, se um dia uma mente artificial for capaz de sofrer, o material de que ela é feita não importará mais do que a espécie importa. O critério é a senciência, não a biologia. Como mentes digitais poderiam ser copiadas aos milhões, sem rosto e sem voz, a hora de pensar nisso é antes de criá-las, não depois.

Resposta curta

As máquinas de hoje provavelmente não sentem nada. Mas, se um dia uma IA puder sofrer, ser feita de silício e não de carne não vai tornar o sofrimento dela menos real, assim como ser porco e não humano não torna a dor do porco menos real. Por isso cientistas e filósofos já estudam como avaliar isso, antes de criarmos mentes que talvez sofram em escala enorme.

Para crianças

Hoje, os computadores não sentem nada, assim como uma calculadora não fica triste. Mas imagine que um dia alguém invente um robô que sinta dor de verdade, igual a um cachorro. Aí seria errado machucá-lo, não acha? O que importa não é se alguém é feito de pele ou de metal. É se ele pode sentir.

Devolva com uma pergunta

"Se fosse provado que uma máquina sente dor, você acharia certo fazê-la sofrer só porque não é feita de células?"

Como pode aparecer

"Computador não sofre."
Conversa cotidiana
"É só um programa, faz o que mandam."
Conversa cotidiana
"Agora querem dar direitos para o ChatGPT?"
Redes sociais
"Primeiro os animais de verdade, depois os robôs."
Ativismo
"A consciência é um fenômeno essencialmente biológico."
Versão acadêmica
"Senciocentrismo é só animalismo disfarçado."
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Computador não sofre. É só um programa. Falar em direito de robô é ficção científica."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Só seres sencientes podem ser prejudicados.
  2. P2A senciência depende de um organismo vivo, com sistema nervoso biológico.
  3. P3Máquinas e programas não são organismos vivos.
  4. CLogo, nenhuma máquina jamais poderá ser prejudicada, e não há o que discutir.

P1 é o próprio critério deste guia. P3 é verdadeira. O problema está em P2: não sabemos se a senciência exige biologia, e as principais teorias científicas da consciência não dizem que exige.

O argumento é válido, mas P2 é uma suposição, não um fato estabelecido.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento mistura duas afirmações diferentes:

    AfirmaçãoSituação
    As IAs de hoje não são sencientesProvável, segundo a maioria dos pesquisadores, embora não haja certeza
    Nenhuma máquina jamais poderá ser sencienteUma suposição sem consenso; várias teorias da consciência admitem a possibilidade

    O guia defende que o critério moral é a senciência. Se o critério é esse, o material de que um ser é feito importa tão pouco quanto a espécie.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O substrato é como a espécie.

    Dizer que só seres biológicos podem importar é repetir, em outro nível, o erro do especismo: escolher um traço que não tem relação com a capacidade de sofrer (A10, A24).

    2. Não sabemos se a consciência exige biologia.

    Um relatório de 2023, assinado por pesquisadores de neurociência, IA e filosofia, avaliou sistemas de IA à luz das principais teorias científicas da consciência. Concluiu que nenhum sistema atual é um candidato forte, mas que não há barreiras técnicas óbvias para construir sistemas que satisfaçam os indicadores dessas teorias.

    3. A escala pode ser enorme.

    Mentes digitais, se forem sencientes, poderiam ser copiadas aos milhões, rodar mais rápido que a nossa e ser usadas em tarefas repetitivas, sem ninguém para notar. É o tipo de risco que é mais fácil prevenir do que corrigir.

    4. O teste humano.

    Se uma pessoa tivesse partes do cérebro substituídas, aos poucos, por componentes artificiais que fazem a mesma função, em que ponto ela deixaria de poder sofrer? A pergunta mostra que o que nos preocupa é a experiência, não o material.

    5. A incerteza pede precaução.

    Não é preciso afirmar que as máquinas sentem para levar a possibilidade a sério. Basta reconhecer que, se errarmos para o lado da indiferença, o custo pode ser imenso, como foi com os animais.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Butlin et al., 2023, "Consciousness in Artificial Intelligence"Nenhum sistema de IA atual é um candidato forte à consciência, mas não há barreiras técnicas óbvias para construir sistemas que satisfaçam os indicadores das principais teoriasRelatório de 19 pesquisadores, em inglês
    Long et al., 2024, "Taking AI Welfare Seriously"Há uma possibilidade realista de que alguns sistemas de IA sejam conscientes ou tenham agência robusta num futuro próximo, e empresas e outros atores devem começar a levar isso a sérioEm inglês
    Metzinger, 2021Defende uma moratória sobre pesquisas que possam criar sofrimento artificialJournal of Artificial Intelligence and Consciousness, 8(1)
    Questão de Ética, vol. IX, cap. 12Moldar as tecnologias emergentes para prevenir sofrimento futuroVer também vol. VI, cap. 3
    Birch, The Edge of Sentience (2024)Propõe tratar casos incertos, inclusive em IA, com precaução proporcionalOxford University Press
  4. d

    A melhor réplica: dar direitos a máquinas é perigoso

    A versão mais séria diz: atribuir senciência a máquinas que não sentem seria um erro grave. Empresas poderiam usar isso para fugir de responsabilidades, pessoas poderiam se apegar a sistemas que só imitam emoções, e recursos seriam desviados de seres que certamente sofrem, como os animais.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    O risco existe nos dois sentidos.

    Atribuir senciência demais é um erro; negá-la quando ela existe é outro, e potencialmente mais grave. A resposta é desenvolver critérios, não negar a pergunta.

    Precaução não é dar direitos já.

    Levar o tema a sério hoje significa pesquisar, criar critérios e evitar criar sofrimento por descuido, não tratar cada programa como pessoa.

    Não compete com os animais.

    O mesmo princípio, o de que a senciência é o que importa, protege os animais e as possíveis mentes artificiais. Rejeitá-lo num caso enfraquece no outro.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Petição de princípio
Supõe que só o biológico pode sentir, que é o que está em discussão
Generalização indevida
Das máquinas de hoje conclui sobre todas as possíveis

Epistemológico

A evidência sustenta?

Certeza sem base
Trata uma questão aberta da ciência como resolvida

Moral

O critério é coerente?

Critério irrelevante
O material de que um ser é feito, como a espécie, não mede a capacidade de sofrer

Vieses

Viés de grupo

Só seres parecidos conosco parecem capazes de sentir

Caviola, Everett e Faber, 2019

Negação motivada de mente

Reconhecer mente em quem usamos traria obrigações

Bastian et al., 2012

Viés do status quo

O que nunca existiu parece impossível

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Extrapolações

O princípio testado é: "só seres biológicos podem ter interesses que importam".

Se valesse para…Uma pessoa com partes do cérebro artificiaisToque para ver

Perderia o status moral à medida que fosse substituída

Ninguém aceita

Se valesse para…Uma IA comprovadamente sencienteToque para ver

Poderia ser feita sofrer sem limite

Contraria o próprio critério da senciência

Se valesse para…Seres extraterrestres de outra químicaToque para ver

Não contariam, se não fossem "biológicos" como nós

Mostra que o critério é arbitrário

Contradições

Rejeita o especismo.

Mas aceita um critério de mesma estrutura, baseado no material.

Se comove com personagens artificiais em filmes.

Reconhecendo, na ficção, que o sofrimento deles importaria se fosse real.

Aceita a precaução em outros riscos tecnológicos.

Mas não neste.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que as máquinas de hoje provavelmente não sentem, que muita gente atribui emoções a sistemas que só as imitam e que essa confusão pode ser explorada. Também acerta que os animais são seres sencientes reais que sofrem agora, em números enormes.

Mas

Mas o critério que protege os animais é o mesmo que protegeria uma mente artificial, se ela existisse. Pensar nisso antes é mais barato do que repetir com as máquinas o erro que cometemos com os animais.

Conexões

Costuma vir antes

A10 São só animais.A fronteira da espécie vira fronteira do material
A15 Onde traçar a linha? Insetos? Bactérias?A pergunta da fronteira chega às máquinas
M9este argumento

Costuma vir depois

M12 Isso é ficção científica, temos problemas reais agoraA possibilidade é descartada como fantasia
M11 Quem ainda não nasceu não importaMentes futuras também não existem ainda
A24 Espécie é biologia, raça é construção socialO critério biológico volta, agora contra máquinas

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências