Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR
"É impossível resolver o sofrimento na natureza, é grande e complexo demais"
não poder resolver tudo não é razão para não fazer nada. Já existem formas de ajudar animais selvagens que funcionam, como a vacinação de raposas contra a raiva, que ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa, e o resgate em desastres. E a parte mais importante hoje é barata: pesquisar, levar o problema a sério e não tratá-lo como absurdo.
Resposta curta
Também não vamos acabar com todas as doenças humanas, e nem por isso paramos de tratar quem dá para tratar. Já existem formas de ajudar animais selvagens: a vacinação de raposas contra a raiva ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa. E o primeiro passo é barato: pesquisar e levar o problema a sério.
Para crianças
Ninguém consegue limpar o mundo inteiro sozinho. Mas, se cada um recolher o lixo do lugar onde está, as coisas melhoram. Com os bichos da natureza é parecido: não dá para ajudar todos de uma vez, mas já dá para ajudar alguns, e cientistas podem descobrir jeitos de ajudar muitos mais.
"Como não dá para acabar com toda a pobreza do mundo, você acha que não devemos ajudar ninguém?"
Como pode aparecer
"São trilhões de animais, não adianta."
"Nunca vamos acabar com a predação."
"É uma pauta impossível, vamos focar no que dá."
"Vai dar remédio para cada formiga?"
"O problema é intratável na escala relevante."
"Um indivíduo não faz diferença." (que é K1)
A versão mais forte
"São trilhões de bichos. Nunca vamos acabar com a predação, a fome e as doenças. Não adianta."
Versão mais forte (steelman):
- P1Só temos dever de fazer o que é possível.
- P2Eliminar o sofrimento na natureza é impossível, pela escala e pela complexidade dos ecossistemas.
- CLogo, não temos dever em relação ao sofrimento dos animais selvagens.
P1 é verdadeira ("dever implica poder"). P2 também é verdadeira, se falamos de eliminar todo o sofrimento. O erro é passar de "não podemos resolver tudo" para "não temos dever nenhum".
O argumento é inválido: a conclusão só se seguiria se a única ação possível fosse resolver tudo de uma vez.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento usa "resolver" num sentido de tudo ou nada:
O que se pede É possível hoje? Eliminar todo o sofrimento na natureza Não Ajudar alguns animais em situações específicas Sim, já é feito Pesquisar o bem-estar dos animais selvagens Sim, já começou Considerar os animais selvagens em decisões que já tomamos Sim Divulgar a ideia de que esse sofrimento importa Sim O dever que se discute é o das linhas de baixo, não o da primeira.
- b
Onde o argumento quebra
1. Já ajudamos, e funciona.
A vacinação oral de raposas contra a raiva, iniciada na Suíça no fim dos anos 1970, ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa, protegendo também outros animais e pessoas. Há ainda resgates em enchentes e incêndios, tratamento de animais feridos e vacinação de animais ameaçados.
2. O impossível de hoje pode ser o possível de amanhã.
Problemas que pareciam grandes demais, como a varíola, erradicada em 1980, viraram tratáveis com pesquisa e esforço coordenado. Começar pelo estudo é o caminho, e é por isso que se propõe uma área inteira, a biologia do bem-estar, para estudar como os animais selvagens vivem e o que os ajudaria.
3. O teste humano.
Não vamos acabar com toda a pobreza, toda a fome e todas as doenças humanas. Ninguém conclui daí que é inútil ajudar pessoas. A escala de um problema é razão para priorizar bem, não para desistir.
4. Escala aumenta a importância.
Se trilhões de animais sofrem, até pequenas melhorias em escala podem evitar muito sofrimento. A grandeza do problema é argumento para levá-lo a sério.
5. A primeira tarefa é mudar a atitude.
Hoje, a maior barreira não é técnica: é a ideia de que esse sofrimento não importa. Mudar isso custa pouco e é condição para tudo o mais.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Animal Ethics, "Vaccinating and healing sick and injured animals" A vacinação de animais contra a raiva eliminou a doença em grande parte da Europa até 2010; há também vacinação de texugos e de lobos-etíopes Em inglês Animal Ethics, "Welfare biology" Define a biologia do bem-estar como o estudo dos animais sencientes e do seu ambiente com respeito ao bem-estar Em inglês Animal Ethics, "Helping animals in the wild" Reúne formas de ajuda já praticadas: resgate, vacinação, cuidado de órfãos, ajuda em desastres Em inglês Questão de Ética, vol. VII, cap. 26 O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens Ver também caps. 25 e 28 - d
A melhor réplica: o custo de oportunidade
A versão mais séria diz: os recursos são limitados. Cada real gasto com animais selvagens deixa de ir para os animais explorados, onde sabemos o que fazer. Seria melhor focar no problema tratável.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela concede que o problema importa.
Discutir prioridades já é admitir que há um dever, e a pergunta passa a ser como distribuir esforços.
Pesquisa é barata e abre caminhos.
Hoje, o que se propõe é sobretudo estudar e divulgar, o que custa pouco perto do que se gasta em outras causas.
As causas se reforçam.
Ensinar que todo animal senciente importa, independentemente de quem causou o dano, também fortalece a luta contra a exploração (M8).
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falácia do nirvana
Falso dilema
Epistemológico
A evidência sustenta?
Desconhecimento do que já existe
Moral
O critério é coerente?
Dois pesos
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "se não podemos resolver todo o problema, não temos dever de ajudar".
Se valesse para…Pobreza humanaToque para ver
Doar ou ajudar seria inútil
Ninguém aceita
Se valesse para…DoençasToque para ver
A medicina seria inútil, porque sempre haverá doenças
Absurdo
Se valesse para…Exploração animalToque para ver
O veganismo seria inútil, porque a pecuária não acabará amanhã
O mesmo raciocínio é rejeitado em K1
Contradições
Vacinas, doações e socorro não resolvem tudo e mesmo assim são valorizados.
Que são ajuda parcial a animais selvagens.
Embora ela nunca vá acabar com todas as doenças.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que o problema é imenso e complexo, que não temos hoje como resolvê-lo e que intervenções grandes e mal pensadas seriam irresponsáveis. Também acerta que é preciso escolher prioridades.
Mas
Mas a resposta à complexidade é pesquisa e cautela, não indiferença. O que já fazemos mostra que ajudar é possível, e o que ainda não sabemos fazer é exatamente o que vale estudar.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Objeções que questionam a praticidade da proposta de ajudar Vol. VII, cap. 25
- O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens? Vol. VII, cap. 26
- Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais na natureza? Vol. VII, cap. 28