Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M4

"É impossível resolver o sofrimento na natureza, é grande e complexo demais"

A resposta em uma frase

não poder resolver tudo não é razão para não fazer nada. Já existem formas de ajudar animais selvagens que funcionam, como a vacinação de raposas contra a raiva, que ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa, e o resgate em desastres. E a parte mais importante hoje é barata: pesquisar, levar o problema a sério e não tratá-lo como absurdo.

Resposta curta

Também não vamos acabar com todas as doenças humanas, e nem por isso paramos de tratar quem dá para tratar. Já existem formas de ajudar animais selvagens: a vacinação de raposas contra a raiva ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa. E o primeiro passo é barato: pesquisar e levar o problema a sério.

Para crianças

Ninguém consegue limpar o mundo inteiro sozinho. Mas, se cada um recolher o lixo do lugar onde está, as coisas melhoram. Com os bichos da natureza é parecido: não dá para ajudar todos de uma vez, mas já dá para ajudar alguns, e cientistas podem descobrir jeitos de ajudar muitos mais.

Devolva com uma pergunta

"Como não dá para acabar com toda a pobreza do mundo, você acha que não devemos ajudar ninguém?"

Como pode aparecer

"São trilhões de animais, não adianta."
Conversa cotidiana
"Nunca vamos acabar com a predação."
Conversa cotidiana
"É uma pauta impossível, vamos focar no que dá."
Ativismo
"Vai dar remédio para cada formiga?"
Redes sociais
"O problema é intratável na escala relevante."
Versão acadêmica
"Um indivíduo não faz diferença." (que é K1)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"São trilhões de bichos. Nunca vamos acabar com a predação, a fome e as doenças. Não adianta."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Só temos dever de fazer o que é possível.
  2. P2Eliminar o sofrimento na natureza é impossível, pela escala e pela complexidade dos ecossistemas.
  3. CLogo, não temos dever em relação ao sofrimento dos animais selvagens.

P1 é verdadeira ("dever implica poder"). P2 também é verdadeira, se falamos de eliminar todo o sofrimento. O erro é passar de "não podemos resolver tudo" para "não temos dever nenhum".

O argumento é inválido: a conclusão só se seguiria se a única ação possível fosse resolver tudo de uma vez.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento usa "resolver" num sentido de tudo ou nada:

    O que se pedeÉ possível hoje?
    Eliminar todo o sofrimento na naturezaNão
    Ajudar alguns animais em situações específicasSim, já é feito
    Pesquisar o bem-estar dos animais selvagensSim, já começou
    Considerar os animais selvagens em decisões que já tomamosSim
    Divulgar a ideia de que esse sofrimento importaSim

    O dever que se discute é o das linhas de baixo, não o da primeira.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Já ajudamos, e funciona.

    A vacinação oral de raposas contra a raiva, iniciada na Suíça no fim dos anos 1970, ajudou a eliminar a doença de grande parte da Europa, protegendo também outros animais e pessoas. Há ainda resgates em enchentes e incêndios, tratamento de animais feridos e vacinação de animais ameaçados.

    2. O impossível de hoje pode ser o possível de amanhã.

    Problemas que pareciam grandes demais, como a varíola, erradicada em 1980, viraram tratáveis com pesquisa e esforço coordenado. Começar pelo estudo é o caminho, e é por isso que se propõe uma área inteira, a biologia do bem-estar, para estudar como os animais selvagens vivem e o que os ajudaria.

    3. O teste humano.

    Não vamos acabar com toda a pobreza, toda a fome e todas as doenças humanas. Ninguém conclui daí que é inútil ajudar pessoas. A escala de um problema é razão para priorizar bem, não para desistir.

    4. Escala aumenta a importância.

    Se trilhões de animais sofrem, até pequenas melhorias em escala podem evitar muito sofrimento. A grandeza do problema é argumento para levá-lo a sério.

    5. A primeira tarefa é mudar a atitude.

    Hoje, a maior barreira não é técnica: é a ideia de que esse sofrimento não importa. Mudar isso custa pouco e é condição para tudo o mais.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Animal Ethics, "Vaccinating and healing sick and injured animals"A vacinação de animais contra a raiva eliminou a doença em grande parte da Europa até 2010; há também vacinação de texugos e de lobos-etíopesEm inglês
    Animal Ethics, "Welfare biology"Define a biologia do bem-estar como o estudo dos animais sencientes e do seu ambiente com respeito ao bem-estarEm inglês
    Animal Ethics, "Helping animals in the wild"Reúne formas de ajuda já praticadas: resgate, vacinação, cuidado de órfãos, ajuda em desastresEm inglês
    Questão de Ética, vol. VII, cap. 26O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagensVer também caps. 25 e 28
  4. d

    A melhor réplica: o custo de oportunidade

    A versão mais séria diz: os recursos são limitados. Cada real gasto com animais selvagens deixa de ir para os animais explorados, onde sabemos o que fazer. Seria melhor focar no problema tratável.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ela concede que o problema importa.

    Discutir prioridades já é admitir que há um dever, e a pergunta passa a ser como distribuir esforços.

    Pesquisa é barata e abre caminhos.

    Hoje, o que se propõe é sobretudo estudar e divulgar, o que custa pouco perto do que se gasta em outras causas.

    As causas se reforçam.

    Ensinar que todo animal senciente importa, independentemente de quem causou o dano, também fortalece a luta contra a exploração (M8).

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falácia do nirvana
Se não dá para resolver tudo, nada vale a pena
Falso dilema
Ou eliminamos todo o sofrimento, ou não fazemos nada

Epistemológico

A evidência sustenta?

Desconhecimento do que já existe
Ignora intervenções que já funcionam

Moral

O critério é coerente?

Dois pesos
Aceita ajuda parcial a humanos e a nega a animais

Vieses

Falácia do nirvana

O ideal inalcançável vira desculpa para não fazer o possível

Ligado a L5

Insensibilidade à escala

Números enormes deixam de comover e passam a paralisar

Ligado a K1

Viés de omissão

Não agir parece mais seguro e menos grave

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Extrapolações

O princípio testado é: "se não podemos resolver todo o problema, não temos dever de ajudar".

Se valesse para…Pobreza humanaToque para ver

Doar ou ajudar seria inútil

Ninguém aceita

Se valesse para…DoençasToque para ver

A medicina seria inútil, porque sempre haverá doenças

Absurdo

Se valesse para…Exploração animalToque para ver

O veganismo seria inútil, porque a pecuária não acabará amanhã

O mesmo raciocínio é rejeitado em K1

Contradições

Apoia ajuda parcial a humanos.

Vacinas, doações e socorro não resolvem tudo e mesmo assim são valorizados.

Aprova resgates de animais em desastres.

Que são ajuda parcial a animais selvagens.

Não diz que a medicina é inútil.

Embora ela nunca vá acabar com todas as doenças.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que o problema é imenso e complexo, que não temos hoje como resolvê-lo e que intervenções grandes e mal pensadas seriam irresponsáveis. Também acerta que é preciso escolher prioridades.

Mas

Mas a resposta à complexidade é pesquisa e cautela, não indiferença. O que já fazemos mostra que ajudar é possível, e o que ainda não sabemos fazer é exatamente o que vale estudar.

Conexões

Costuma vir antes

M3 Não fomos nós que causamos, então não temos obrigação de ajudarAdmitido o dever, alega-se que é impossível cumpri-lo
M1 Os animais selvagens vivem livres e felizesQuando se vê a escala, ela vira desculpa
M4este argumento

Costuma vir depois

M5 Mexer na natureza é errado, podemos piorar tudoDa impossibilidade passa-se ao risco
K1 Um indivíduo não faz diferença.A escala torna cada ação aparentemente inútil
F3 Então deveríamos impedir leões de caçar?O problema é reduzido ao caso mais difícil

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências