Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M6

"Quem somos nós para interferir na natureza?"

A resposta em uma frase

somos os mesmos que interferem na natureza o tempo todo, com cidades, agricultura, medicina e programas ambientais. Ajudar um animal ferido ou doente não é arrogância, assim como não é arrogância socorrer uma pessoa. E a "liberdade" que se diz proteger costuma ser só a liberdade de morrer cedo de fome ou de doença.

Resposta curta

Interferimos na natureza o tempo todo, para nós. Ajudar um animal doente não é arrogância, assim como não é arrogância socorrer uma pessoa ferida. Nenhum animal quer morrer de fome ou de doença; ajudá-lo nisso não impõe valores humanos, respeita os interesses dele.

Para crianças

Se um passarinho cai do ninho e quebra a asa, levar ele a um veterinário é ser mandão? Claro que não. Ele quer voar de novo, e a gente só está ajudando. Respeitar os bichos não é deixar eles sofrendo. É ajudar do jeito que eles mesmos iam querer, se pudessem pedir.

Devolva com uma pergunta

"Socorrer uma pessoa desacordada, que não pode consentir, é arrogância ou é respeito?"

Como pode aparecer

"Quem somos nós para interferir?"
Conversa cotidiana
"Bicho selvagem tem que ser livre, não tratado."
Conversa cotidiana
"Ajudar é humanizar os animais."
Conversa cotidiana
"Se a gente ajudar, eles vão ficar dependentes."
Conversa cotidiana
"O melhor que podemos fazer é sumir da vida deles."
Ambientalismo
"A soberania das comunidades de animais selvagens deve ser respeitada."
Versão acadêmica

A versão mais forte

Como se diz

"Bicho selvagem tem que ser livre. Quem somos nós para decidir o que é bom para eles?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Os animais selvagens têm uma forma de vida própria, independente dos humanos.
  2. P2Respeitar um ser inclui respeitar sua autonomia e sua forma de vida.
  3. P3Intervir para ajudá-los substitui a forma de vida deles pelos nossos valores, cria dependência e é paternalista.
  4. CLogo, respeitar os animais selvagens é não interferir.

P1 e P2 têm algo de verdadeiro. O problema está em P3: não ter fome, frio e doença não é um valor humano imposto aos animais; é o que qualquer animal busca.

O argumento é válido, mas P3 é falsa em boa parte dos casos.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento reúne várias objeções com o mesmo fundo: a ideia de que ajudar é desrespeitar.

    ObjeçãoO que dizResposta curta
    ArrogânciaNão temos direito de decidir por elesJá decidimos, inclusive quando não fazemos nada
    LiberdadeAjudar tira a liberdade delesLiberdade de quê? Da fome e da doença?
    HumanizaçãoAjudar impõe valores humanosNão sofrer não é um valor humano, é o que todo animal busca
    DependênciaAjudar cria dependênciaDependência é melhor que morte; e muita ajuda, como vacinar, não cria dependência
    PaternalismoNão sabemos o que é bom para elesSabemos que nenhum animal prefere morrer de fome
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Já interferimos o tempo todo.

    Agricultura, cidades, estradas, represas, reflorestamento, reintrodução e eliminação de espécies. Raramente chamamos isso de arrogância. A acusação aparece quase só quando a intervenção tem como meta o bem dos próprios animais.

    2. Não decidir também é decidir.

    Diante de um animal sofrendo que poderíamos ajudar, a omissão também define o destino dele. Não existe uma posição neutra.

    3. Os interesses são dos animais, não nossos.

    Evitar a fome, o frio, a dor e o medo é o que os próprios animais buscam. Ajudá-los nisso é levar a sério o ponto de vista deles, não o nosso.

    4. O teste humano.

    Socorremos pessoas desacordadas, bebês e pessoas que não podem consentir, sem chamar isso de paternalismo, porque sabemos que não querem sofrer. Ninguém diz que vacinar crianças "tira a liberdade delas". Negar ajuda aos animais com esses argumentos é aplicar uma regra que não aplicamos a humanos.

    5. Respeitar a forma de vida não exige aceitar o sofrimento.

    É possível respeitar o modo como um animal vive e, ao mesmo tempo, poupá-lo de doenças, parasitas e fome. Ninguém acha que tratar um cão doente desrespeita sua natureza de cão.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Questão de Ética, vol. VII, cap. 6A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante?Ver também caps. 7, 10, 11 e 12
    Animal Ethics, "Why wild animal suffering matters"O que importa é o que os animais sentem, não a origem do danoEm inglês
    Donaldson e Kymlicka, Zoopolis (2011)Defendem respeitar a soberania de comunidades de animais selvagens, mas admitem ajuda em certos casosOxford University Press; é a versão mais sólida da objeção
  4. d

    A melhor réplica: a soberania das comunidades selvagens

    A versão mais séria vem de Sue Donaldson e Will Kymlicka: as comunidades de animais selvagens deveriam ser tratadas como soberanas, como povos com direito a seguir seu modo de vida sem dominação. Intervenções constantes as transformariam em dependentes, o que seria uma forma de colonização.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Os próprios autores admitem ajuda.

    Donaldson e Kymlicka aceitam intervenções em desastres e casos específicos, como faríamos com países soberanos. A soberania limita a forma de ajudar; não proíbe ajudar.

    Soberania humana não impede socorro.

    Países soberanos recebem ajuda humanitária em desastres e epidemias, sem perder a soberania.

    A analogia tem limites.

    Povos humanos podem pedir ou recusar ajuda. Filhotes que morrem de fome nas primeiras horas não têm como exercer soberania nenhuma.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Equivocação
Usa "liberdade" como se significasse "bem-estar"
Falsa neutralidade
Trata a omissão como se não fosse uma decisão

Moral

O critério é coerente?

Dois pesos
Aceita socorrer humanos sem consentimento e nega isso a animais
Seletividade
Chama de arrogância só a intervenção feita pelo bem dos animais

Vieses

Viés de omissão

Não interferir parece respeitoso e neutro

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Apelo à natureza

O selvagem é visto como intocável e bom

Ligado a C1 e M1

Romantização da liberdade

A ideia de liberdade apaga a pergunta sobre o bem-estar

Ligado a B2

Extrapolações

O princípio testado é: "respeitar alguém é não interferir na vida dele, mesmo quando sofre".

Se valesse para…Pessoas desacordadasToque para ver

Socorrê-las seria desrespeito

Ninguém aceita

Se valesse para…CriançasToque para ver

Vaciná-las seria paternalismo indevido

Rejeitado

Se valesse para…Países em desastreToque para ver

A ajuda humanitária violaria a soberania

A ajuda é aceita e pedida

Contradições

Apoia intervenções ambientais.

Reflorestamento e controle de espécies também são interferências.

Leva o próprio animal ao veterinário.

Sem achar que isso o humaniza ou o desrespeita.

Apoia o resgate de animais em desastres.

Que é exatamente uma interferência para ajudar.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que o respeito pelos animais selvagens inclui respeitar seu modo de vida, que intervenções podem ser invasivas e que criar dependência pode ser um problema. Também acerta que os humanos já fizeram muito mal à natureza com intervenções descuidadas.

Mas

Mas respeitar não é abandonar. Quando ajudar é possível e seguro, recusar a ajuda em nome da liberdade ou da humildade é deixar que outros sofram por um princípio que nunca aplicaríamos a nós.

Conexões

Costuma vir antes

M5 Mexer na natureza é errado, podemos piorar tudoDo risco passa-se à acusação de arrogância
M1 Os animais selvagens vivem livres e felizesA liberdade é tomada como bem-estar
M6este argumento

Costuma vir depois

M7 Natureza equilibrada é natureza boa para os bichosO respeito à natureza vira respeito ao equilíbrio
M8 Ajudar animais selvagens não é veganismo, é outra pautaA não interferência vira regra do ativismo
E1 É minha escolha pessoal, não imponha sua moral.A acusação de imposição, agora em nome dos animais

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências

Filosofia

  • Zoopolis: A Political Theory of Animal Rights. Oxford University Press.

Ética animal e animais selvagens

Psicologia