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"Quem somos nós para interferir na natureza?"
somos os mesmos que interferem na natureza o tempo todo, com cidades, agricultura, medicina e programas ambientais. Ajudar um animal ferido ou doente não é arrogância, assim como não é arrogância socorrer uma pessoa. E a "liberdade" que se diz proteger costuma ser só a liberdade de morrer cedo de fome ou de doença.
Resposta curta
Interferimos na natureza o tempo todo, para nós. Ajudar um animal doente não é arrogância, assim como não é arrogância socorrer uma pessoa ferida. Nenhum animal quer morrer de fome ou de doença; ajudá-lo nisso não impõe valores humanos, respeita os interesses dele.
Para crianças
Se um passarinho cai do ninho e quebra a asa, levar ele a um veterinário é ser mandão? Claro que não. Ele quer voar de novo, e a gente só está ajudando. Respeitar os bichos não é deixar eles sofrendo. É ajudar do jeito que eles mesmos iam querer, se pudessem pedir.
"Socorrer uma pessoa desacordada, que não pode consentir, é arrogância ou é respeito?"
Como pode aparecer
"Quem somos nós para interferir?"
"Bicho selvagem tem que ser livre, não tratado."
"Ajudar é humanizar os animais."
"Se a gente ajudar, eles vão ficar dependentes."
"O melhor que podemos fazer é sumir da vida deles."
"A soberania das comunidades de animais selvagens deve ser respeitada."
A versão mais forte
"Bicho selvagem tem que ser livre. Quem somos nós para decidir o que é bom para eles?"
Versão mais forte (steelman):
- P1Os animais selvagens têm uma forma de vida própria, independente dos humanos.
- P2Respeitar um ser inclui respeitar sua autonomia e sua forma de vida.
- P3Intervir para ajudá-los substitui a forma de vida deles pelos nossos valores, cria dependência e é paternalista.
- CLogo, respeitar os animais selvagens é não interferir.
P1 e P2 têm algo de verdadeiro. O problema está em P3: não ter fome, frio e doença não é um valor humano imposto aos animais; é o que qualquer animal busca.
O argumento é válido, mas P3 é falsa em boa parte dos casos.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento reúne várias objeções com o mesmo fundo: a ideia de que ajudar é desrespeitar.
Objeção O que diz Resposta curta Arrogância Não temos direito de decidir por eles Já decidimos, inclusive quando não fazemos nada Liberdade Ajudar tira a liberdade deles Liberdade de quê? Da fome e da doença? Humanização Ajudar impõe valores humanos Não sofrer não é um valor humano, é o que todo animal busca Dependência Ajudar cria dependência Dependência é melhor que morte; e muita ajuda, como vacinar, não cria dependência Paternalismo Não sabemos o que é bom para eles Sabemos que nenhum animal prefere morrer de fome - b
Onde o argumento quebra
1. Já interferimos o tempo todo.
Agricultura, cidades, estradas, represas, reflorestamento, reintrodução e eliminação de espécies. Raramente chamamos isso de arrogância. A acusação aparece quase só quando a intervenção tem como meta o bem dos próprios animais.
2. Não decidir também é decidir.
Diante de um animal sofrendo que poderíamos ajudar, a omissão também define o destino dele. Não existe uma posição neutra.
3. Os interesses são dos animais, não nossos.
Evitar a fome, o frio, a dor e o medo é o que os próprios animais buscam. Ajudá-los nisso é levar a sério o ponto de vista deles, não o nosso.
4. O teste humano.
Socorremos pessoas desacordadas, bebês e pessoas que não podem consentir, sem chamar isso de paternalismo, porque sabemos que não querem sofrer. Ninguém diz que vacinar crianças "tira a liberdade delas". Negar ajuda aos animais com esses argumentos é aplicar uma regra que não aplicamos a humanos.
5. Respeitar a forma de vida não exige aceitar o sofrimento.
É possível respeitar o modo como um animal vive e, ao mesmo tempo, poupá-lo de doenças, parasitas e fome. Ninguém acha que tratar um cão doente desrespeita sua natureza de cão.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Questão de Ética, vol. VII, cap. 6 A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante? Ver também caps. 7, 10, 11 e 12 Animal Ethics, "Why wild animal suffering matters" O que importa é o que os animais sentem, não a origem do dano Em inglês Donaldson e Kymlicka, Zoopolis (2011) Defendem respeitar a soberania de comunidades de animais selvagens, mas admitem ajuda em certos casos Oxford University Press; é a versão mais sólida da objeção - d
A melhor réplica: a soberania das comunidades selvagens
A versão mais séria vem de Sue Donaldson e Will Kymlicka: as comunidades de animais selvagens deveriam ser tratadas como soberanas, como povos com direito a seguir seu modo de vida sem dominação. Intervenções constantes as transformariam em dependentes, o que seria uma forma de colonização.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Os próprios autores admitem ajuda.
Donaldson e Kymlicka aceitam intervenções em desastres e casos específicos, como faríamos com países soberanos. A soberania limita a forma de ajudar; não proíbe ajudar.
Soberania humana não impede socorro.
Países soberanos recebem ajuda humanitária em desastres e epidemias, sem perder a soberania.
A analogia tem limites.
Povos humanos podem pedir ou recusar ajuda. Filhotes que morrem de fome nas primeiras horas não têm como exercer soberania nenhuma.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Equivocação
Falsa neutralidade
Moral
O critério é coerente?
Dois pesos
Seletividade
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "respeitar alguém é não interferir na vida dele, mesmo quando sofre".
Se valesse para…Pessoas desacordadasToque para ver
Socorrê-las seria desrespeito
Ninguém aceita
Se valesse para…CriançasToque para ver
Vaciná-las seria paternalismo indevido
Rejeitado
Se valesse para…Países em desastreToque para ver
A ajuda humanitária violaria a soberania
A ajuda é aceita e pedida
Contradições
Reflorestamento e controle de espécies também são interferências.
Sem achar que isso o humaniza ou o desrespeita.
Que é exatamente uma interferência para ajudar.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que o respeito pelos animais selvagens inclui respeitar seu modo de vida, que intervenções podem ser invasivas e que criar dependência pode ser um problema. Também acerta que os humanos já fizeram muito mal à natureza com intervenções descuidadas.
Mas
Mas respeitar não é abandonar. Quando ajudar é possível e seguro, recusar a ajuda em nome da liberdade ou da humildade é deixar que outros sofram por um princípio que nunca aplicaríamos a nós.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante? Vol. VII, cap. 6
- A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica? Vol. VII, cap. 7
- A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles? Vol. VII, cap. 10
- A acusação de criar dependência Vol. VII, cap. 11
- A acusação de paternalismo Vol. VII, cap. 12
Referências
Filosofia
- Zoopolis: A Political Theory of Animal Rights. Oxford University Press.