Guia de Argumentação
Pelos Animais
EN

Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M3

"Não fomos nós que causamos, então não temos obrigação de ajudar"

A resposta em uma frase

a diferença entre causar um dano e deixar de evitá-lo pode ter algum peso moral, mas não apaga o dever de ajudar quando ajudar é possível e custa pouco. Ninguém aceitaria esse raciocínio diante de uma criança se afogando ou de vítimas de uma enchente. A sensação de que a omissão é inocente é um viés conhecido, o viés de omissão, e ele pesa mais quando as vítimas são animais.

Resposta curta

Ninguém jogou a criança no lago, e mesmo assim todo mundo acha que quem pode salvá-la sem grande risco deve salvar. Não ter causado um sofrimento não nos dispensa de ajudar quando podemos. E, para a vítima, tanto faz se o mal veio de alguém ou da natureza.

Para crianças

Se você visse um gatinho preso num bueiro, você não foi quem colocou ele lá. Mesmo assim, ia querer chamar alguém para tirar ele de lá, não ia? Não ter causado o problema não quer dizer que a gente não possa ajudar. Às vezes ajudar é o mais importante.

Devolva com uma pergunta

"Se você visse uma criança se afogando e pudesse salvá-la sem risco, diria que não é obrigação sua porque não foi você que a jogou na água?"

Como pode aparecer

"Problema da natureza não é problema meu."
Conversa cotidiana
"Temos dever de não prejudicar, não de ajudar."
Conversa cotidiana
"Veganismo é não explorar; o resto não é com a gente." (que leva a M8)
Ativismo
"Deveres negativos são estritos; deveres positivos são imperfeitos."
Versão acadêmica
"Eu não mato, só como." (que é K7)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Eu não fiz nada para esses bichos. Se eles sofrem na natureza, não é problema meu."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Temos um dever forte de não causar dano a outros.
  2. P2O dever de ajudar quem sofre por causas que não criamos é, no máximo, fraco e opcional.
  3. P3O sofrimento dos animais selvagens não foi causado por nós.
  4. CLogo, não temos obrigação de ajudá-los.

P1 e P3 são aceitáveis. P2 tem defensores sérios na filosofia, sob o nome de distinção entre fazer e permitir. O problema é tirar dela a conclusão de que não há dever nenhum.

O argumento é válido, mas P2, na forma forte, não resiste aos casos humanos que todos aceitamos.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento depende de transformar uma diferença de grau numa diferença de tudo ou nada:

    PosiçãoO que dizConsequência
    Fazer e permitir pesam igualDeixar de salvar é tão grave quanto matarDeveres de ajuda enormes
    Fazer pesa mais que permitirCausar dano é pior que não evitá-lo, mas não evitar ainda contaDeveres de ajuda reais, proporcionais ao custo e ao benefício
    Permitir não pesa nadaSó há dever de não causarNinguém precisaria salvar a criança no lago

    O argumento precisa da terceira posição, que quase ninguém aceita quando a vítima é humana.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O caso da criança no lago.

    Peter Singer propôs em 1972: se você pode salvar uma criança que se afoga num lago raso, ao custo de sujar a roupa, deve salvá-la. Quase todos concordam, e ninguém foi o causador do afogamento.

    2. A omissão parece mais leve do que é.

    Experimentos de psicologia mostram que as pessoas julgam um dano causado por omissão como menos grave que o mesmo dano causado por ação, mesmo quando o resultado e a intenção são iguais. É o viés de omissão. Ele explica a sensação de inocência, mas não a justifica.

    3. O teste humano.

    Diante de uma enchente, de um terremoto ou de uma epidemia, aceitamos que governos, organizações e pessoas devem ajudar, mesmo sem terem causado o desastre. Ninguém diz que socorrer vítimas é opcional porque a culpa é da chuva. Se negamos esse raciocínio aos animais, é a espécie das vítimas que está decidindo.

    4. Mesmo os defensores da distinção admitem ajuda.

    Quem defende que deveres de não prejudicar são mais fortes costuma aceitar que há razões para ajudar quando o custo é pequeno e o benefício é grande. A escala do sofrimento na natureza torna essas razões fortes.

    5. Ajudar não exige heroísmo.

    O dever de ajudar pode começar pelo mais simples: não se opor a quem ajuda, apoiar pesquisa e defender que o bem-estar dos animais selvagens seja levado em conta em decisões que já tomamos.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Spranca, Minsk e Baron, 1991Danos por omissão são julgados menos graves que danos por ação equivalentesJournal of Experimental Social Psychology, 27(1)
    Ritov e Baron, 1990Pais preferem não vacinar mesmo quando o risco da omissão é maior que o da vacinaJournal of Behavioral Decision Making, 3(4)
    Singer, "Famine, Affluence, and Morality" (1972)O exemplo da criança se afogando: se podemos evitar algo muito ruim sem sacrificar nada comparável, devemosPhilosophy & Public Affairs, 1(3)
    Questão de Ética, vol. VII, cap. 5Mesmo quem só aceita deveres fortes de não prejudicar costuma admitir razões para ajudar vítimas de desastresBase dos pontos 3 e 4
  4. d

    A melhor réplica: o dever de ajudar não tem limite

    A versão mais séria diz: se omitir ajuda conta, então seríamos culpados por todo sofrimento que poderíamos ter evitado no mundo, humano e animal. Uma moral assim seria impossível de cumprir. A distinção entre fazer e permitir existe justamente para dar um limite razoável às nossas obrigações.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Limite não é zero.

    É razoável que o dever de ajudar tenha limites de custo. Isso não leva à conclusão de que não há dever nenhum.

    Aplicamos limites razoáveis a humanos.

    Não exigimos que cada pessoa dê tudo o que tem, mas esperamos que ajude quando é fácil. O mesmo critério, aplicado aos animais, já pede muito mais do que fazemos hoje.

    O primeiro passo não custa quase nada.

    Levar o problema a sério, apoiar pesquisa e não atrapalhar quem ajuda está bem dentro de qualquer limite razoável.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falso dilema
Ou o dever de ajudar é igual ao de não prejudicar, ou não existe

Epistemológico

A evidência sustenta?

Viés de omissão
Trata a omissão como inocente porque parece menos grave

Moral

O critério é coerente?

Dois pesos
Aceita o dever de socorro para humanos e nega para animais
Foco no agente
Pergunta só "quem causou?" e esquece "quem sofre?"

Vieses

Viés de omissão

Não agir parece menos grave que agir

Spranca, Minsk e Baron, 1991

Viés de intenção

O dano só parece grave quando há alguém que quis causá-lo

Tomasik, "Intention-based moral reactions distort intuitions about wild animals"

Viés de grupo

O dever de socorro é sentido como forte só para humanos

Caviola, Everett e Faber, 2019

Extrapolações

O princípio testado é: "só temos obrigação em relação ao sofrimento que nós causamos".

Se valesse para…Criança se afogandoToque para ver

Não haveria dever de salvá-la

Quase ninguém aceita

Se valesse para…Vítimas de desastresToque para ver

A ajuda humanitária seria só caridade opcional

Muitos países a tratam como dever

Se valesse para…Pessoa caída na ruaToque para ver

Passar reto seria moralmente neutro

Em vários países, a omissão de socorro é até crime

Contradições

Acha que se deve salvar a criança no lago.

Sem ter causado o afogamento.

Doa ou apoia ajuda em desastres.

Sem ter causado o desastre.

Aprova o resgate de animais em enchentes e incêndios.

O que já admite o dever de ajudar animais que não prejudicou.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que causar um dano costuma ser pior do que não evitá-lo, e que nossos deveres de ajudar precisam de limites razoáveis. Também acerta que, para os animais explorados, o primeiro dever é parar de prejudicá-los.

Mas

Mas "pior" não quer dizer "o único". Quando podemos aliviar um sofrimento enorme sem grande custo, não ter sido a causa não é uma resposta, nem para humanos nem para animais.

Conexões

Costuma vir antes

M2 Sofrimento e morte fazem parte da naturezaDa falta de culpado passa-se à falta de dever
K7 Eu não mato, só como.A mesma fuga pela distância entre o ato e o dano
M1 Os animais selvagens vivem livres e felizesAdmite-se o sofrimento, mas nega-se o dever
M3este argumento

Costuma vir depois

M4 É impossível resolver o sofrimento na natureza, é grande e complexo demaisAdmitido o dever, alega-se que é impossível cumpri-lo
F2 Se um cão e uma criança se afogassem, quem você salvaria?O mesmo tipo de caso, usado no sentido contrário

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências