Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / D. Tradição, cultura e religião / Parte DIR

D10

"Grandes pensadores comiam carne."

A resposta em uma frase

a grandeza de alguém numa área não torna corretas todas as suas práticas. Muitos grandes pensadores também defendiam hierarquias entre humanos que hoje rejeitamos: Aristóteles defendeu a escravidão natural. E a lista corta para os dois lados: Pitágoras, Plutarco e Leonardo da Vinci são lembrados como críticos do consumo de carne. Uma autoridade só vale como argumento quando apresenta razões, e não pelo nome.

Resposta curta

Grandes pensadores também erraram sobre os costumes de sua época: Aristóteles defendeu que alguns humanos seriam escravos por natureza. Por isso, o que eles faziam não prova que era certo. Além disso, a lista corta para os dois lados: Pitágoras, Plutarco e Leonardo da Vinci são lembrados por criticar o consumo de carne. O que importa não é quem comia o quê, e sim quais razões cada um apresentou.

Para crianças

Pessoas muito inteligentes também erram. Alguns grandes pensadores do passado achavam certo que algumas pessoas fossem escravas. Eles eram muito inteligentes em várias coisas, mas estavam errados nisso. Ser inteligente não quer dizer que tudo o que a pessoa faz é certo.

Devolva com uma pergunta

"Aristóteles também defendeu a escravidão. Isso torna a escravidão certa?"

Como pode aparecer

"Aristóteles comia carne."
Conversa cotidiana
"Einstein não era vegano."
Conversa cotidiana
"Você é mais inteligente que eles?"
Conversa cotidiana
"Todos os gênios da humanidade comiam carne."
Redes sociais
"A tradição filosófica, em sua maioria, não condenou o consumo de animais."
Versão acadêmica
"Nem os filósofos concordam." (que é E11)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Aristóteles comia carne. Einstein não era vegano. Você é mais inteligente que eles?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Muitos dos maiores pensadores da história comiam carne.
  2. P2Esses pensadores refletiram profundamente sobre ética.
  3. P3Se comer carne fosse claramente errado, eles teriam percebido.
  4. CLogo, comer carne provavelmente não é errado.

P1 e P2 são verdadeiras. O problema está em P3: esses mesmos pensadores deixaram de perceber muitas injustiças que hoje consideramos óbvias.

O argumento é válido. A solidez falha em P3, que supõe que grandes mentes não erram sobre os costumes de sua época.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento usa o prestígio no lugar das razões:

    Uso legítimo da autoridadeUso falacioso
    Citar as razões que um pensador apresentouCitar só o nome ou o hábito
    Consultar especialistas na área em questãoTratar o prestígio geral como prova em qualquer assunto
    Considerar o consenso atual dos especialistasUsar práticas de séculos atrás como critério
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. É apelo à autoridade.

    A grandeza intelectual de alguém não torna corretas todas as suas práticas. Um físico genial não é autoridade em ética.

    2. Grandes pensadores erraram muito.

    Aristóteles defendeu a escravidão natural e a inferioridade das mulheres (C9). Kant defendeu apenas deveres indiretos para com os animais. Muitos pensadores aceitaram as hierarquias de seu tempo.

    3. A lista corta para os dois lados.

    Pitágoras e Plutarco criticaram o consumo de carne na Antiguidade, e Leonardo da Vinci é frequentemente lembrado como vegetariano. Se o argumento valesse, eles também contariam.

    4. Hábito não é argumento.

    O que um pensador comia não é parte de sua filosofia. Mais relevante seria saber que razões ele deu, e muitos nunca trataram do tema.

    5. A ética atual tem argumentos que eles não conheciam.

    A filosofia sobre animais se desenvolveu muito desde os anos 1970, e a ciência da senciência animal avançou ainda mais (E11).

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Aristóteles, *Política*, livro IDefende que alguns humanos são escravos por naturezaTexto integral no Projeto Gutenberg; usado também em C9
    Plutarco, *Sobre comer carne*Crítica antiga ao consumo de carneTexto integral em inglês (Loeb), no LacusCurtius
    PhilPapers Survey 2020Cerca de 26% dos filósofos defendem ou tendem a defender o vegetarianismo como posição ética, e cerca de 18% o veganismoA pergunta é sobre o que é permissível comer, e não sobre o que cada um come; mostra que, entre os filósofos, a questão está longe de resolvida a favor da carne
  4. d

    A melhor réplica: o peso da tradição filosófica

    A versão mais séria não cita hábitos, mas a tradição: a maior parte da filosofia ocidental, de Aristóteles a Kant, colocou os humanos acima dos animais, e isso deveria contar como indício.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A mesma tradição excluía muitos humanos.

    O círculo moral dos filósofos clássicos era estreito também entre humanos.

    Tradição não é argumento.

    O que importa são as razões, e elas são examinadas nos capítulos da família A.

    A tradição está mudando.

    Uma parte considerável dos filósofos atuais aceita ou tende ao vegetarianismo ou ao veganismo.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Apelo à autoridade
O nome substitui as razões
Seleção conveniente
Cita os pensadores que comiam carne e omite os que não comiam

Epistemológico

A evidência sustenta?

Anacronismo
Usa práticas de séculos atrás como critério atual

Moral

O critério é coerente?

Terceirização do juízo
Deixa a outros a decisão moral

Vieses

Viés de autoridade

A opinião de alguém prestigiado parece prova

Literatura geral sobre heurísticas

Viés de confirmação

Busca só as autoridades que confirmam o hábito

Literatura geral sobre viés de confirmação

Extrapolações

O princípio testado é: "se grandes pensadores faziam algo, não é errado".

Se valesse para…EscravidãoToque para ver

Seria aceitável, porque Aristóteles a defendeu

Ninguém aceita

Se valesse para…Exclusão das mulheresToque para ver

Seria aceitável, porque muitos filósofos a defenderam

Ninguém aceita

Se valesse para…VegetarianismoToque para ver

Também seria certo, porque Pitágoras e Plutarco o defenderam

O argumento se anula

Contradições

Não segue esses pensadores em outros temas.

Ninguém defende a escravidão porque Aristóteles a defendeu.

Não cita os pensadores que criticaram a carne.

A seleção revela o critério real.

Discorda de grandes pensadores em muitos assuntos.

O prestígio não decide nada nesses casos.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Grandes pensadores merecem ser ouvidos, e é razoável hesitar antes de concluir que todos eles estavam errados sobre algo. A tradição filosófica tem muito a ensinar.

Mas

Mas ouvir os grandes pensadores é examinar suas razões, e não copiar seus hábitos. Eles mesmos nos ensinaram a questionar os costumes, inclusive os que eles próprios seguiam.

Conexões

Costuma vir antes

D5 Jesus comeu peixe.Passa a outras autoridades
D10este argumento

Costuma vir depois

E11 Nem os filósofos concordam.Diz que nem os filósofos concordam
D1 Sempre fizemos isso.A autoridade vira tradição
A2 Humanos são superiores, então podemos usar os inferiores.Usa os filósofos que defenderam a superioridade humana

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências