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"Temos vontade natural de carne."
a vontade de comer carne existe, mas é em grande parte aprendida e reforçada: pela cultura, pela infância, pelo sal, pela gordura e pelo tempero. E, mesmo que fosse inteiramente natural, um desejo não é uma justificativa. Temos muitas vontades fortes que não seguimos quando elas prejudicam outros.
Resposta curta
Vontade não é necessidade. Boa parte do gosto pela carne é aprendida desde a infância e reforçada pelo sal, pela gordura e pelo tempero, que também tornam muito saborosas as versões vegetais bem temperadas. E, mesmo que o desejo fosse natural, desejos não justificam causar dano: temos muitas vontades fortes que não seguimos quando elas prejudicam alguém.
Para crianças
Às vezes a gente sente muita vontade de comer doce. Isso não quer dizer que o corpo precisa de doce: quer dizer que o doce é gostoso e que a gente se acostumou com ele. Com a carne é parecido. E, mesmo quando a vontade é grande, a gente pode pensar se aquilo machuca alguém antes de fazer.
"Existe alguma outra vontade forte que você deixa de seguir porque prejudicaria alguém?"
Como pode aparecer
"É o corpo pedindo."
"O cheiro do churrasco é irresistível por algum motivo."
"Eu tentei, mas meu corpo pede carne."
"Todo vegano sente cheiro de bacon e fraqueja."
"Se não fosse natural, por que seria tão gostoso?"
"Carne é gostosa." (que é J11)
A versão mais forte
"É o corpo pedindo. O cheiro do churrasco é irresistível por algum motivo."
Versão mais forte (steelman):
- P1Muitas pessoas sentem uma vontade forte e espontânea de comer carne.
- P2Vontades fortes e espontâneas indicam necessidades do corpo.
- P3Satisfazer necessidades do corpo é legítimo.
- CLogo, comer carne é legítimo.
P1 é verdadeira. O problema está em P2, que trata desejo como necessidade, e em P3, que supõe que satisfazer o corpo nunca entra em conflito com interesses de outros.
O argumento é válido. A solidez falha em P2 e em P3.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento mistura três coisas:
Afirmação Situação Sinto vontade de comer carne Verdadeiro para muitas pessoas Essa vontade é uma necessidade do corpo Falso: dietas veganas bem planejadas são adequadas Logo, posso satisfazê-la mesmo que outro sofra Não se segue de nada acima - b
Onde o argumento quebra
1. Desejo não é necessidade.
O corpo precisa de nutrientes, não de alimentos específicos. Proteína, ferro e outros nutrientes podem ser obtidos sem carne, segundo a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos.
2. Grande parte do gosto é aprendida.
Preferências alimentares se formam pela exposição repetida, sobretudo na infância, e mudam com o tempo. Muitas pessoas que deixam de comer carne relatam que a vontade diminui depois de algumas semanas ou meses.
3. Boa parte do que atrai é o sabor, e não o animal.
O cheiro do churrasco vem em boa parte da gordura queimada, do sal, da fumaça e do tempero. Produtos vegetais preparados do mesmo jeito não são idênticos, mas despertam muitas das mesmas respostas, o que mostra que boa parte do desejo é por sabores e texturas que não dependem da morte de ninguém.
4. Desejos não justificam dano.
Temos muitas vontades fortes que não seguimos quando elas prejudicariam alguém. Isso não é negar a natureza, é ter ética.
5. O argumento leva a J11.
Se a vontade não é necessidade, o que sobra é o prazer, e o prazer de quem come precisa ser comparado ao que o animal perde.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Academy of Nutrition and Dietetics, 2016 Dietas veganas bem planejadas são adequadas em todas as fases da vida Mostra que o desejo não corresponde a uma necessidade Birch, *Development of food preferences* (1999) A exposição repetida, sobretudo na infância, molda o gosto Annual Review of Nutrition; revisão sobre exposição repetida e preferências infantis - d
A melhor réplica: as vontades são difíceis de vencer
A versão mais séria não diz que a vontade justifica, mas que ela é real e forte, e que pedir às pessoas que a ignorem é exigir demais. A ética precisa ser realista sobre o que as pessoas conseguem fazer.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela passa a falar de dificuldade, e não de justificativa.
Ser difícil não torna certo (E6).
A dificuldade costuma diminuir.
Com substitutos, tempero e tempo, a vontade tende a perder força.
Ser realista é ajudar a mudar, não dispensar a mudança.
Uma ética realista oferece caminhos, e não desculpas.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Apelo à natureza
Equivocação
Epistemológico
A evidência sustenta?
Desconhecimento da formação do gosto
Moral
O critério é coerente?
Desejo como justificativa
Vieses
Raciocínio motivado
O desejo é promovido a necessidade porque isso dispensa a mudança
Literatura geral sobre cognição motivada
Extrapolações
O princípio testado é: "se sinto uma vontade forte, satisfazê-la é legítimo".
Se valesse para…RaivaToque para ver
Agredir quem nos irrita seria legítimo
Ninguém aceita
Se valesse para…Desejos sexuaisToque para ver
Qualquer desejo justificaria agir, mesmo sem consentimento
Ninguém aceita
Se valesse para…Vontade de comer o cão do vizinhoToque para ver
Seria legítima, se fosse forte
O princípio não depende da espécie
Contradições
Ninguém segue todo desejo forte sem pensar nas consequências.
Quase todo adulto passou a gostar de alimentos que rejeitava na infância.
O que atrai é o sabor, e não a origem.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A vontade de comer carne é real, e é desonesto fingir que não. Para muita gente, carne está ligada a lembranças, afetos e prazer, e mudar exige esforço. Reconhecer isso é importante para ajudar as pessoas na transição.
Mas
Mas reconhecer a força de uma vontade não é aceitá-la como justificativa. O gosto pode mudar, os sabores podem ser recriados, e a vida do animal não pode.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois