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"Todo mundo come."
a popularidade de uma prática não prova que ela é certa. A escravidão foi aceita pela maioria por séculos; o voto feminino já foi defendido por uma minoria. Toda mudança moral começou como posição minoritária. Que quase todos comam carne explica por que parece normal, e não por que seria justo.
Resposta curta
Que muita gente faça algo não prova que é certo. A escravidão já foi aceita pela maioria, e as primeiras pessoas que lutaram pelo voto feminino eram minoria. Toda mudança moral começou com poucos. Que quase todos comam carne explica por que parece normal, não por que seria justo. Além disso, a maioria se beneficia da prática, e os animais, que pagam por ela, não votam.
Para crianças
Já aconteceu de todo mundo da turma rir de alguém e você achar que estava errado? O fato de muita gente fazer uma coisa não quer dizer que ela é certa. Às vezes, quem percebe primeiro que algo machuca é uma pessoa só. E, com o tempo, os outros podem perceber também.
"Você consegue pensar em alguma prática que a maioria aceitava e hoje achamos errada?"
Como pode aparecer
"Todo mundo come."
"Vocês são minoria."
"Se fosse errado, ninguém faria."
"8 bilhões de pessoas estão erradas e você está certo?"
"Você acha que é melhor que todo mundo?"
"As intuições morais compartilhadas têm peso de evidência."
"Sempre fizemos isso." (que é D1)
A versão mais forte
"Quase todo mundo come carne. Vocês são minoria. Se fosse errado, ninguém faria."
Versão mais forte (steelman):
- P1A grande maioria das pessoas, em quase todas as culturas, come animais.
- P2Práticas aceitas por quase todos tendem a refletir intuições morais compartilhadas.
- P3Intuições morais compartilhadas são um bom indício do que é certo.
- CLogo, comer animais provavelmente não é errado.
A versão forte tem algo de razoável: o consenso às vezes indica sabedoria acumulada. O problema está em P3, que a história desmente com frequência, sobretudo quando a maioria se beneficia da prática.
O argumento é válido. A solidez falha em P3: o consenso não garante a correção, e é especialmente pouco confiável quando favorece quem participa dele.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento confunde três coisas:
Afirmação Tipo Muitos comem carne Fato estatístico Por isso parece normal Fato psicológico Por isso é certo Conclusão moral que não se segue - b
Onde o argumento quebra
1. É o apelo à multidão.
A popularidade de uma ideia não é evidência de que ela é verdadeira ou justa. É uma das falácias mais conhecidas.
2. A história desmente o consenso.
A escravidão, a exclusão das mulheres da política e muitas formas de discriminação foram aceitas pela maioria por séculos. As mudanças vieram de minorias que questionaram o consenso.
3. O consenso é suspeito quando favorece quem participa dele.
Quem come carne tem interesse em que comer carne seja aceitável. Os animais, que pagam o preço, não participam do consenso.
4. "Normal" é uma das justificativas mais usadas.
Pesquisas sobre como as pessoas justificam o consumo de carne mostram que "é normal" aparece entre as quatro razões mais comuns, ao lado de "natural", "necessário" e "gostoso".
5. A conformidade social é poderosa.
Experimentos clássicos de psicologia mostram que as pessoas tendem a seguir o grupo mesmo quando o grupo está claramente errado.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Piazza et al., 2015 "Normal" é uma das quatro justificativas mais usadas para comer carne Os 4Ns: natural, normal, necessário e gostoso Asch, *Studies of independence and conformity* (1956) Pessoas tendem a seguir o grupo mesmo diante de respostas claramente erradas Psychological Monographs; os experimentos começaram em 1951 - d
A melhor réplica: o consenso tem algum peso
A versão mais séria não diz que o consenso prova algo, mas que ele deve contar como algum indício, e que quem vai contra a maioria precisa de argumentos fortes.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela muda o ônus, mas não a resposta.
Os argumentos fortes existem, e o resto deste guia os apresenta.
O peso do consenso diminui quando há interesse.
Um consenso formado por quem se beneficia vale menos como evidência.
O consenso científico vai em outra direção.
Cientistas reconhecem a senciência animal, e entidades de nutrição reconhecem que dietas veganas bem planejadas são adequadas.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Apelo à multidão
Epistemológico
A evidência sustenta?
Consenso interessado
Moral
O critério é coerente?
Normalidade como justificativa
Vieses
Conformidade social
Seguir o grupo parece seguro e correto
Literatura clássica de psicologia social
Ignorância pluralista
Muitos se incomodam em silêncio e acham que só eles se incomodam
Extrapolações
O princípio testado é: "o que a maioria faz é certo".
Se valesse para…Escravidão no século XVIIIToque para ver
Seria certa, porque a maioria a aceitava
Ninguém aceita
Se valesse para…Exclusão das mulheres do votoToque para ver
Seria certa enquanto a maioria a apoiasse
Ninguém aceita
Se valesse para…Qualquer preconceito majoritárioToque para ver
Seria justo
O princípio legitima qualquer opressão popular
Contradições
Quase todo mundo tem opiniões minoritárias em algum tema.
Abolicionistas e sufragistas eram minoria.
Se o critério é a maioria, sim, e isso mostra que ele não é um critério moral.
O que o argumento acerta
O que é verdade
É verdade que o consumo de carne é quase universal, e que isso faz o veganismo parecer estranho para muita gente. O consenso social também tem alguma importância prática: mudanças de hábito são mais fáceis quando o grupo muda junto.
Mas
Mas a frequência de uma prática explica por que ela parece normal, não por que seria justa. A história moral é cheia de maiorias que estavam erradas e de minorias que perceberam antes.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Referências
Psicologia
- Rationalizing meat consumption. The 4Ns. *Appetite*, 91.
- Status quo bias in decision making. *Journal of Risk and Uncertainty*, 1(1).
- Studies of independence and conformity. Psychological Monographs, 70(9).