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"Comer carne nos fez evoluir."
mesmo que a carne tivesse sido decisiva na evolução humana, o passado adaptativo não dita o presente moral. E a própria tese está em disputa: um estudo de 2022 mostrou que o aparente aumento das evidências de consumo de carne após o surgimento do Homo erectus desaparece quando se corrige o esforço de pesquisa. O cozimento, e não só a carne, aparece como uma explicação forte.
Resposta curta
Mesmo que a carne tenha ajudado nossos ancestrais, isso não diz o que devemos fazer hoje. Nossos ancestrais também viveram sem medicina e sem anestesia, e ninguém quer voltar a isso. E a própria tese está em discussão: um estudo de 2022 mostrou que o aparente aumento das evidências de consumo de carne na época do Homo erectus some quando se corrige o esforço de pesquisa. O cozimento de alimentos, inclusive vegetais, é outra explicação forte.
Para crianças
Há muito tempo, nossos antepassados faziam muitas coisas para sobreviver: dormiam em cavernas, não tinham remédios e caçavam. Isso ajudou a espécie a chegar até aqui. Mas hoje a gente vive de outro jeito: tem casa, remédio e comida no mercado. O que foi preciso no passado não precisa ser repetido para sempre.
"Se o que nos ajudou a evoluir é obrigatório, devemos voltar a morar em cavernas?"
Como pode aparecer
"Sem carne, ainda estaríamos nas árvores."
"O cérebro cresceu com a carne."
"Seus ancestrais não ficaram inteligentes comendo alface."
"Você quer desfazer milhões de anos de evolução?"
"A carne foi essencial para a encefalização humana."
"É natural comer carne." (que é C1)
A versão mais forte
"Sem carne, ainda estaríamos nas árvores. O cérebro cresceu com a carne."
Versão mais forte (steelman):
- P1O consumo de carne forneceu nutrientes e energia que permitiram o crescimento do cérebro humano.
- P2Devemos nossa inteligência e nossa civilização a esse passado.
- CLogo, comer carne é parte legítima do que nos tornou humanos, e não há razão para abandoná-la.
A versão forte se apoia na hipótese conhecida como "a carne nos fez humanos", que teve grande influência na antropologia. Ela merece respeito como hipótese científica.
O argumento é válido. A solidez falha porque P1 está em disputa e porque, mesmo verdadeira, ela não leva à conclusão: um fato sobre o passado não é uma norma para o presente.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento passa de uma hipótese sobre o passado para uma regra sobre o presente:
Afirmação Tipo Situação A carne contribuiu para a evolução do cérebro Hipótese científica Em disputa Logo, comer carne hoje é legítimo Conclusão moral Não se segue da hipótese - b
Onde o argumento quebra
1. O passado não dita o presente.
Muitas coisas que ajudaram nossos ancestrais a sobreviver não são obrigações hoje, e algumas seriam inaceitáveis. Passar de "foi útil" para "deve continuar" é a lei de Hume (C1).
2. A hipótese está em disputa.
Em 2022, Barr e colegas analisaram 59 níveis de sítios arqueológicos do leste da África, entre 2,6 e 1,2 milhão de anos atrás. Concluíram que o aparente aumento das evidências de consumo de carne após o surgimento do Homo erectus desaparece quando se corrige o esforço de amostragem: os sítios mais estudados mostram mais evidências porque foram mais estudados.
3. Há explicações alternativas.
O antropólogo Richard Wrangham defende que o cozimento de alimentos, inclusive de tubérculos e outros vegetais, foi decisivo para liberar energia para o cérebro. Provavelmente vários fatores contribuíram.
4. Mesmo verdadeira, a hipótese não fala do presente.
O que nossos ancestrais precisavam para sobreviver em ambientes sem agricultura não diz nada sobre o que precisamos com supermercados e alternativas.
5. Devemos também à cooperação e à empatia.
Se o argumento valesse, também deveríamos valorizar as capacidades que, segundo a antropologia, foram decisivas para nossa espécie, como cooperar e cuidar dos vulneráveis.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Barr et al., 2022, *PNAS* O aumento das evidências de consumo de carne após o Homo erectus desaparece quando se corrige o esforço de amostragem 59 níveis de sítios no leste da África, de 2,6 a 1,2 milhão de anos Wrangham, *Pegando Fogo* (2009) O cozimento de alimentos foi decisivo para a evolução humana Basic Books; a tese é debatida entre antropólogos - d
A melhor réplica: a carne continua sendo o alimento ideal
A versão mais séria diz que, se a carne foi importante na evolução, nosso corpo ainda está adaptado a ela, e removê-la da dieta pode trazer riscos.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela vira um argumento de saúde.
E a evidência atual mostra que dietas veganas bem planejadas são adequadas (família G).
Adaptação não é necessidade.
O corpo humano se adapta a dietas variadas; é isso que significa ser onívoro (C3).
A pergunta moral continua.
Mesmo que a carne fosse ideal, isso não responderia se é justo obtê-la à custa de outros.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Lei de Hume (do é ao deve)
Falácia genética
Epistemológico
A evidência sustenta?
Hipótese tratada como fato
Moral
O critério é coerente?
Anacronismo
Vieses
Viés de confirmação
Aceita a hipótese que confirma o hábito sem conhecer a disputa
Literatura geral sobre viés de confirmação
Extrapolações
O princípio testado é: "o que ajudou a espécie a evoluir deve continuar".
Se valesse para…Violência entre gruposToque para ver
Deveria continuar, se ajudou a sobrevivência de grupos
Ninguém aceita
Se valesse para…Vida nômadeToque para ver
Deveríamos voltar a ela
Absurdo
Se valesse para…Cozimento de vegetaisToque para ver
Também seria obrigatório, se a hipótese do cozimento estiver certa
O argumento não favorece só a carne
Contradições
Moradia, medicina e trabalho mudaram completamente.
Frangos e porcos de criação industrial não existiam.
A capacidade de questionar o que fazemos é parte da mesma história.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A evolução humana é fascinante, e há boas razões para pensar que alimentos de origem animal tiveram algum papel nela, ao lado do cozimento e de outras mudanças. Entender nossa história é importante, e o tema merece ser estudado sem preconceitos.
Mas
Mas o passado explica de onde viemos, não para onde devemos ir. Se a evolução nos deu a capacidade de pensar sobre o que fazemos, usar essa capacidade é tão humano quanto qualquer outro hábito ancestral.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Referências
Ciência
- No sustained increase in zooarchaeological evidence for carnivory after the appearance of *Homo erectus*. *PNAS*, 119(5).
- Catching Fire: How Cooking Made Us Human.