Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR

M12

"Isso é ficção científica, temos problemas reais agora"

A resposta em uma frase

a pecuária industrial, com dezenas de bilhões de aves criadas e mortas por ano, também pareceria ficção científica há cem anos. Um risco pouco provável, mas capaz de gerar sofrimento em escala imensa, pode merecer atenção mesmo competindo com problemas certos e presentes. E boa parte do que reduz esses riscos, como ensinar que todos os seres sencientes importam, também ajuda os animais agora.

Resposta curta

A pecuária industrial também pareceria ficção científica há cem anos. Um risco pouco provável, mas gigantesco, pode merecer atenção, como fazemos com pandemias e com o clima. E as duas coisas não competem tanto: ensinar que todos os seres sencientes importam ajuda os animais de hoje e protege contra o sofrimento de amanhã.

Para crianças

Antes de sair de bicicleta, você coloca o capacete, mesmo que provavelmente não vá cair. Por quê? Porque, se cair, pode se machucar muito. Pensar no futuro é parecido: algumas coisas ruins talvez nem aconteçam, mas, se acontecerem, podem ser enormes. Por isso vale a pena se preparar, sem deixar de cuidar de quem precisa de ajuda agora.

Devolva com uma pergunta

"Você acha que preparar o mundo para uma pandemia antes de ela acontecer era ficção científica?"

Como pode aparecer

"Isso é ficção científica."
Conversa cotidiana
"Primeiro os animais de hoje, depois os do futuro."
Ativismo
"Riscos de sofrimento futuro são paranoia de nerd."
Redes sociais
"Quem fala em riscos-s só pensa em IA."
Redes sociais
"Probabilidades minúsculas não devem guiar decisões."
Versão acadêmica
"Há problemas humanos mais importantes." (que é J6)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Sofrimento de robô, colonização do espaço, riscos futuros? Isso é ficção científica. Tem bicho sofrendo agora."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Recursos e atenção são limitados.
  2. P2Problemas presentes são certos; riscos futuros são especulativos.
  3. P3Devemos priorizar o que é certo e urgente.
  4. CLogo, discutir riscos futuros de sofrimento é desperdiçar recursos que deveriam ir para os problemas reais de hoje.

P1 é verdadeira, e P3 tem peso. O problema está em P2, que trata "incerto" como "irrelevante", e na conclusão, que supõe que as duas preocupações competem sempre.

O argumento é válido na forma, mas P2 ignora que importância depende da probabilidade e também do tamanho do que está em jogo.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    A importância de um risco depende de três coisas, e o argumento olha só para uma:

    FatorPerguntaO que o argumento considera
    ProbabilidadeQual a chance de acontecer?Considera, e acha baixa
    EscalaQuantos seres seriam afetados, e quanto?Ignora
    TratabilidadePodemos fazer algo para reduzir o risco?Ignora

    Os chamados riscos-s, riscos de sofrimento em escala astronômica, combinam probabilidade incerta com escala imensa. É essa combinação que os torna dignos de atenção.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O improvável de ontem é o real de hoje.

    Há cem anos, a ideia de criar dezenas de bilhões de aves por ano em galpões fechados, com genética selecionada para crescer tão rápido que muitas mal conseguem andar, pareceria fantasia. Tecnologias podem multiplicar o sofrimento mais rápido do que a ética acompanha.

    2. Já levamos riscos futuros a sério.

    Planos contra pandemias, mudança climática, segurança nuclear e asteroides tratam de riscos incertos e futuros. Ninguém os chama de ficção científica.

    3. O teste humano.

    Se houvesse um risco, ainda que pequeno, de que bilhões de pessoas sofressem extremamente no futuro por causa de decisões tomadas agora, ninguém diria que pensar nisso é perda de tempo. Os riscos-s incluem animais, mentes artificiais e humanos; descartá-los por envolverem sobretudo não humanos é especismo.

    4. Não é só IA.

    Os fatores de risco para sofrimento futuro incluem a expansão da pecuária, o sofrimento dos animais selvagens, a possível criação de mentes artificiais e instituições políticas que ignoram quem não vota. Cada pessoa pode atuar numa parte.

    5. Muitas ações servem aos dois.

    Ampliar o círculo moral, fortalecer a consideração por todos os seres sencientes e criar instituições que os representem ajudam os animais hoje e reduzem riscos amanhã.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Center for Reducing Suffering, introdução aos riscos-sDefine riscos-s como riscos de sofrimento em escala astronômica no futuroEm inglês
    Baumann, *Avoiding the Worst* (2022)Introduz os riscos-s e foca nos que são realistas e evitáveisLivro gratuito, em inglês
    Tomasik, "Risks of astronomical future suffering"Discute cenários em que o sofrimento futuro poderia superar em muito o atualEm inglês
    Questão de Ética, vol. IX, cap. 1Riscos futuros para os seres sencientes: uma introduçãoVer também caps. 5 e 7
  4. d

    A melhor réplica: o risco do "Pascal"

    A versão mais séria diz: se qualquer risco minúsculo, mas multiplicado por números astronômicos, puder dominar nossas prioridades, seremos manipulados por cenários imaginários. É o problema conhecido como "assalto de Pascal": aceitar argumentos assim leva a decisões absurdas.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Nem todo risco futuro é minúsculo.

    Os riscos-s discutidos seriamente envolvem tendências reais, como o crescimento da pecuária industrial e o avanço rápido da IA, não probabilidades infinitesimais.

    A resposta ao problema é prudência, não indiferença.

    Pode-se evitar apostar tudo em cenários extremos e, ainda assim, dedicar uma parte dos esforços a riscos plausíveis.

    As ações recomendadas são robustas.

    Defender a consideração por todos os seres sencientes é bom em quase qualquer cenário, não só nos improváveis.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falso dilema
Ou cuidamos do presente, ou do futuro

Epistemológico

A evidência sustenta?

Ignorar a escala
Avalia o risco só pela probabilidade
Viés de normalidade
Supõe que o futuro será parecido com o presente

Moral

O critério é coerente?

Especismo
Descarta riscos que envolvem sobretudo não humanos

Vieses

Viés de normalidade

O futuro parece uma continuação tranquila do presente

Literatura sobre percepção de risco

Desconto temporal

O que está longe parece menos importante

Literatura sobre desconto hiperbólico

Viés do status quo

O mundo atual parece o padrão estável

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Extrapolações

O princípio testado é: "riscos futuros e incertos não merecem atenção enquanto houver problemas presentes".

Se valesse para…PandemiasToque para ver

Preparar-se antes seria desperdício

A covid-19 mostrou o contrário

Se valesse para…ClimaToque para ver

Reduzir emissões poderia esperar

Contraria a ciência climática

Se valesse para…Segurança nuclearToque para ver

Não valeria a pena prevenir acidentes improváveis

Ninguém aceita

Contradições

Apoia a prevenção de pandemias e o combate às mudanças climáticas.

Riscos futuros e incertos.

Faz seguro de casa ou de carro.

Para riscos pouco prováveis, mas graves.

Reconhece que a pecuária industrial cresceu além do que se imaginava.

O que mostra que o "impossível" acontece.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que há sofrimento real e urgente agora, que recursos são limitados e que discussões sobre o futuro distante podem virar especulação vazia ou desculpa para ignorar o presente. Também acerta que argumentos com probabilidades minúsculas e números enormes exigem cautela.

Mas

Mas ignorar o futuro também é uma aposta, e uma aposta arriscada. Prevenir é mais barato do que corrigir, e muitas das melhores formas de proteger o futuro são as mesmas que ajudam os animais hoje.

Conexões

Costuma vir antes

M11 Quem ainda não nasceu não importaO futuro é descartado como fantasia
M9 Máquinas nunca vão sentir, robôs e IAs não precisam de direitosA possibilidade de mentes artificiais é chamada de ficção
M12este argumento

Costuma vir depois

J6 Há problemas humanos mais importantes.A prioridade do presente vira prioridade humana
K1 Um indivíduo não faz diferença.A escala do futuro parece tornar inútil qualquer ação

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências