Início / M. Animais selvagens, novas mentes e o futuro / Parte DIR
"Os animais selvagens vivem livres e felizes"
os animais selvagens que vemos são os sobreviventes. Na maioria das espécies, cada fêmea produz centenas, milhares ou até milhões de filhotes ao longo da vida, e numa população estável só uns poucos chegam à idade adulta. Todos os outros morrem cedo, de fome, frio, doença, parasitas ou predação. Uma natureza em que a regra é nascer e morrer em poucos dias não é um paraíso para quem vive nela.
Nota: esta família leva o critério da senciência além da exploração. Muitos veganos discordam de parte dela, e o debate é legítimo. O teste proposto em cada capítulo é simples: aplicar o mesmo cenário a seres humanos e ver se a resposta seria aceita.
Resposta curta
Os bichos que vemos são os que sobreviveram. Na maioria das espécies, cada mãe tem uma enorme quantidade de filhotes, e quase todos morrem de fome, frio, doença ou predação logo depois de nascer. Se isso acontecesse com crianças humanas, chamaríamos de catástrofe, não de liberdade. Isso não torna a exploração menos errada: só mostra que deixar os animais em paz não basta para que vivam bem.
Para crianças
Uma tartaruga marinha bota muitos ovos na praia. Dos filhotes que nascem, quase todos são comidos por pássaros, peixes e caranguejos antes de crescer. Só alguns viram tartarugas grandes, e são essas que a gente vê nos vídeos. A natureza é bonita, mas a vida dos bichos que vivem nela muitas vezes é bem difícil.
"Se quase todos os bebês de uma população humana morressem de fome nos primeiros dias, você diria que eles vivem livres e felizes?"
Como pode aparecer
"Bicho solto é bicho feliz."
"A natureza é um paraíso para os animais."
Imagens de adultos saudáveis num ambiente bonito, sem os filhotes que não sobreviveram
"O problema dos animais é o ser humano, só isso."
"Você acha que um animal livre sofre mais do que um preso numa granja?"
"A vida selvagem tem valor positivo para os indivíduos que a vivem."
A versão mais forte
"Bicho solto é bicho feliz. Na natureza eles são livres, não têm ninguém explorando."
Versão mais forte (steelman):
- P1O que mais prejudica os animais é a ação humana: exploração, caça e destruição de habitats.
- P2Na natureza, longe dos humanos, os animais vivem de acordo com o próprio modo de vida.
- P3Viver de acordo com o próprio modo de vida é, em geral, viver bem.
- CLogo, os animais selvagens vivem bem, e a única tarefa moral é deixá-los em paz.
P1 é em boa parte verdadeira para os animais explorados. O problema está em P3, que descreve uma natureza idealizada, e na conclusão, que olha só para os adultos visíveis.
O argumento é válido, mas não é sólido: P3 é desmentida pela dinâmica de populações da maioria das espécies.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento olha para uma amostra enviesada: os adultos que conseguimos ver.
Quem vemos Quem não vemos Adultos saudáveis, fotografados em documentários Os filhotes, ovos e larvas que morreram antes de crescer Uma fração pequena de cada geração A imensa maioria de cada geração Animais grandes, como mamíferos e aves Peixes, anfíbios, insetos e outros invertebrados, que são a maioria absoluta É um caso clássico de viés de sobrevivência: tirar conclusões sobre um grupo olhando só para quem passou pelo filtro.
- b
Onde o argumento quebra
1. A conta da população desmente a idílica.
Numa população estável, cada animal, em média, é substituído por um único descendente que chega a se reproduzir. Se uma fêmea produz centenas ou milhares de filhotes ao longo da vida, quase todos precisam morrer antes de se reproduzir. Isso é aritmética, não opinião. É a chamada estratégia de reprodução r, a mais comum na natureza.
2. Os que morrem cedo costumam morrer mal.
Fome, desidratação, frio, parasitas, doenças e predação não são mortes rápidas e indolores. Se esses animais são sencientes, o que muitos deles parecem ser, sua curta vida é sobretudo de privação.
3. Os números são imensos.
Estimativas indicam centenas de bilhões de aves e mamíferos selvagens, trilhões de peixes e algo entre cem quatrilhões e dez quintilhões de artrópodes terrestres. Mesmo com grande incerteza sobre a senciência dos menores, a escala é muitas vezes maior que a da pecuária.
4. O teste humano.
Se uma população humana vivesse sem atendimento médico, com a maioria das crianças morrendo de fome ou de infecção nos primeiros dias, ninguém chamaria isso de liberdade. Chamaríamos de crise humanitária e mandaríamos ajuda. O que muda no caso dos animais é só a espécie das vítimas.
5. Liberdade não é o mesmo que bem-estar.
Estar livre de humanos não significa estar livre de fome, doença ou medo. A palavra "livre" esconde a pergunta sobre como a vida vai para quem a vive.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Animal Ethics, "Wild animal suffering: an introduction" A maioria dos animais selvagens morre pouco depois de nascer, por causa da estratégia reprodutiva dominante na natureza Em inglês Tomasik, "How many wild animals are there?" Mamíferos: 10¹¹ a 10¹²; aves: cerca de 1 a 4 × 10¹¹; peixes: 10¹³ a 10¹⁵ ou mais; artrópodes terrestres: 10¹⁷ a 10¹⁹ Estimativas com grande margem, em inglês Horta, "Debunking the idyllic view of natural processes" (2010) Mostra que a dinâmica de populações torna o sofrimento e a morte precoce a regra, não a exceção Télos, 17 Ng, 1995 Argumenta, com base em biologia evolutiva, que o sofrimento provavelmente supera o bem-estar na natureza Biology and Philosophy, 10; propõe a biologia do bem-estar - d
A melhor réplica: não sabemos se essas vidas são ruins
A versão mais séria diz: não temos como medir o bem-estar de um filhote de peixe ou de um inseto. Talvez suas vidas curtas tenham momentos bons que compensem o fim. Concluir que a natureza é dominada pelo sofrimento seria tão especulativo quanto concluir que ela é um paraíso.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
A incerteza não favorece a idílica.
Se não sabemos, não podemos afirmar que os animais "vivem livres e felizes". A réplica derruba o argumento original, não a preocupação.
Algumas mortes sabemos que são ruins.
Morrer de fome, de frio ou devorado vivo por parasitas não é uma experiência ambígua para quem a sente.
A incerteza pede pesquisa.
É exatamente o que propõe a biologia do bem-estar: estudar o bem-estar dos animais selvagens antes de concluir ou agir (M5).
Erros de raciocínio
Epistemológico
A evidência sustenta?
Viés de sobrevivência
Generalização a partir de animais grandes
Lógico
A forma é válida?
Equivocação
Moral
O critério é coerente?
Apelo à natureza
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "longe da intervenção humana, a vida é boa para quem a vive".
Se valesse para…Populações humanas isoladasToque para ver
Não precisariam de vacinas, médicos ou ajuda em desastres
Ninguém aceita
Se valesse para…Animais domésticos abandonadosToque para ver
Estariam melhor soltos do que cuidados
Quem resgata animais sabe que não
Se valesse para…Animais selvagens feridosToque para ver
Socorrê-los seria um erro
A maioria das pessoas aprova o resgate
Contradições
Ninguém acha que a mortalidade infantil do passado era sinal de liberdade.
Reconhece que doença e parasitas fazem mal, mesmo sendo naturais.
E isso pressupõe que o animal estava em perigo, não "livre e feliz".
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que a exploração humana é uma fonte enorme e evitável de sofrimento, e que para os animais explorados o primeiro passo é parar de prejudicá-los. Também acerta que a natureza tem beleza e que muitos animais têm momentos de bem-estar.
Mas
Mas a beleza da paisagem não é a mesma coisa que o bem-estar de quem vive nela. Para a maioria dos animais que nascem na natureza, a vida é curta e difícil, e isso importa se o que conta é o que eles sentem.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens? Vol. VII, cap. 3
- O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza? Vol. VII, cap. 1
Referências
Ética animal e animais selvagens
- Animal Ethics. Wild animal suffering: an introduction.
- How many wild animals are there? *Essays on Reducing Suffering*.
- Debunking the idyllic view of natural processes: population dynamics and suffering in the wild. Télos, 17.
- Towards welfare biology: evolutionary economics of animal consciousness and suffering. *Biology and Philosophy*, 10.