Guia de Argumentação
Pelos Animais

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D7

"É legal, a lei permite."

A resposta em uma frase

legal e moral não são a mesma coisa. A lei acompanha a moral, muitas vezes com atraso: a escravidão foi legal no Brasil até 1888. E a própria lei brasileira já reconhece que os animais não são coisas quaisquer: a Constituição proíbe submetê-los a crueldade, e a Lei de Crimes Ambientais pune maus-tratos. A pergunta moral é se a lei está certa, e não apenas o que ela diz.

Resposta curta

Legal não é o mesmo que certo. A escravidão foi legal no Brasil até 1888; mulheres só puderam votar a partir de 1932. As leis mudam quando a sociedade percebe que estavam erradas. E a própria lei brasileira já protege os animais: a Constituição proíbe submetê-los a crueldade, e maus-tratos são crime. A questão não é se é permitido, mas se deveria ser.

Para crianças

As leis são regras que as pessoas fizeram, e às vezes as pessoas erram. Já houve leis que permitiam coisas muito injustas, e foi preciso mudar essas leis. Por isso, além de perguntar "é permitido?", é bom perguntar "é justo?".

Devolva com uma pergunta

"Tudo o que já foi legal no Brasil era certo?"

Como pode aparecer

"Não é crime."
Conversa cotidiana
"Se é vendido no mercado, pode."
Conversa cotidiana
"Está tudo dentro da lei."
Conversa cotidiana
"Vegano quer criminalizar o churrasco."
Redes sociais
"Você vai me denunciar por comer carne?"
Pergunta retórica
"A legitimidade democrática das normas basta."
Versão acadêmica
"A legislação garante o bem-estar." (que é B8)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Não é crime. Se é vendido no mercado, pode."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Numa democracia, as leis expressam os valores aceitos pela sociedade.
  2. P2As leis brasileiras permitem a criação e o abate de animais para alimentação.
  3. P3O que a sociedade aceita democraticamente é legítimo.
  4. CLogo, comer animais é legítimo.

A versão forte tem peso: a legalidade democrática é um valor importante, e quem cumpre a lei não pode ser tratado como criminoso. O problema está em P3: leis democráticas já permitiram injustiças graves.

O argumento é válido. A solidez falha em P3, que confunde legalidade com justiça.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento confunde duas perguntas:

    PerguntaQuem responde
    É permitido por lei?O direito vigente
    É justo?A ética, que também serve para avaliar as leis

    Se a resposta à primeira respondesse à segunda, nenhuma lei poderia ser injusta, e nenhuma lei teria motivo para mudar.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Leis injustas existiram e existem.

    A escravidão, a exclusão das mulheres e muitas formas de discriminação foram legais. A legalidade não as tornava justas.

    2. A lei acompanha a moral, com atraso.

    As mudanças legais costumam vir depois de mudanças morais defendidas por minorias. Usar a lei atual para encerrar o debate moral é impedir o processo que muda as leis.

    3. A lei brasileira já reconhece os animais.

    A Constituição de 1988, no artigo 225, proíbe práticas que submetam os animais a crueldade. A Lei 9.605/1998, no artigo 32, pune maus-tratos a animais. O próprio direito reconhece que eles não são coisas quaisquer.

    4. A lei é incoerente.

    Maltratar um cão é crime; práticas muito piores com porcos e galinhas são legais quando fazem parte da produção (B8). A diferença não está no animal, e sim no uso.

    5. Ninguém está propondo prender quem come carne.

    O debate aqui é moral. A pergunta "deve ser proibido?" é outra, e é tratada em E4.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Constituição Federal, art. 225, § 1º, VIIVeda práticas que submetam os animais a crueldadeBase constitucional da proteção animal
    Lei 9.605/1998, art. 32Pune quem pratica ato de abuso ou maus-tratos a animaisLei de Crimes Ambientais
  4. d

    A melhor réplica: numa democracia, a lei é o critério comum

    A versão mais séria diz que, numa sociedade com valores diversos, a lei é o único critério que todos aceitam, e que exigir mais do que a lei é impor a própria moral aos outros.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A democracia inclui o debate moral.

    É justamente pelo debate que as leis mudam.

    Ninguém vive só pelo mínimo legal.

    Mentir para um amigo é legal, e quase todos acham errado.

    A lei já impõe limites morais.

    A proibição de maus-tratos é uma moral "imposta" que quase todos aceitam (E1).

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falácia legalista
Do "é permitido" conclui "é certo"
Lei de Hume (do é ao deve)
Da norma vigente tira a norma moral

Epistemológico

A evidência sustenta?

Desconhecimento da lei
Ignora que a lei já protege os animais contra crueldade

Moral

O critério é coerente?

Terceirização da consciência
Deixa à lei a decisão moral

Vieses

Justificação do sistema

A ordem legal parece justa por ser oficial

Ligado a B8 e J4

Viés do status quo

A lei atual parece a ordem natural

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Extrapolações

O princípio testado é: "o que é legal é moralmente aceitável".

Se valesse para…Escravidão antes de 1888Toque para ver

Seria moralmente aceitável

Ninguém aceita

Se valesse para…Leis de segregação racialToque para ver

Seriam justas enquanto vigoraram

Ninguém aceita

Se valesse para…Países sem lei contra maus-tratosToque para ver

Maltratar cães seria aceitável lá

Ninguém aceita

Contradições

Critica leis que considera injustas.

Quase todo mundo discorda de alguma lei.

Faz coisas legais que considera erradas e evita fazê-las.

Como mentir ou trair.

Aceita a proibição de maus-tratos a cães.

Que é uma lei moral sobre animais.

O que o argumento acerta

O que é verdade

A legalidade importa. Quem cumpre a lei não deve ser tratado como criminoso, e a democracia depende de que as regras valham para todos. Também é verdade que mudanças legais precisam passar pelo debate público, e não ser impostas.

Mas

Mas a lei é o ponto de chegada de debates morais, não o seu fim. A própria Constituição brasileira já reconhece que os animais merecem proteção contra a crueldade; a pergunta é se a lei está sendo coerente com esse princípio.

Conexões

Costuma vir antes

A17 Animais são propriedade.Do estatuto de propriedade passa-se à legalidade
D7este argumento

Costuma vir depois

B8 A legislação garante o bem-estar.Confia que a lei garante o bem-estar
E4 O Estado não pode proibir o que eu como.Diz que o Estado não pode proibir
D1 Sempre fizemos isso.A lei vira tradição

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências