Início / D. Tradição, cultura e religião / Parte DIR
"Meus avós comiam carne e viveram até 90."
um caso não desmente milhões. Os avós que viveram até os 90 são lembrados justamente porque viveram; os que morreram cedo não aparecem na conversa. Isso é o viés de sobrevivência. Os dados populacionais mostram que dietas inadequadas estão entre os maiores fatores de risco de morte no mundo, sobretudo pelo excesso de sal e pela falta de grãos integrais e frutas, e que a carne processada é cancerígena. E, mesmo que a carne não fizesse mal a ninguém, a pergunta moral continuaria de pé.
Resposta curta
Um caso não desmente milhões. Há avós que fumavam e viveram até os 90, e mesmo assim o cigarro mata. Lembramos de quem viveu muito, e esquecemos de quem morreu cedo: é o viés de sobrevivência. Os estudos populacionais mostram que dietas inadequadas estiveram ligadas a cerca de 11 milhões de mortes em 2017, sobretudo por excesso de sal e falta de grãos integrais e frutas, e a carne processada é classificada como cancerígena. E, mesmo que a carne fosse saudável, a questão moral sobre os animais continuaria a mesma.
Para crianças
Algumas pessoas que andam sem cinto de segurança nunca sofrem acidente. Isso quer dizer que o cinto não serve para nada? Não! Quer dizer que elas tiveram sorte. Para saber se algo faz bem ou mal, os cientistas olham para muitas e muitas pessoas, e não só para uma.
"Se um avô fumante viveu até os 90, isso prova que o cigarro não faz mal?"
Como pode aparecer
"Meus avós comiam carne e viveram até 90."
"Minha avó comia banha e viveu 100 anos."
"Antigamente ninguém tinha essas doenças."
"Meu avô fumava e bebia e morreu com 95."
"Por que mudar o que sempre deu certo?"
"Conheço alguém que adoeceu sendo vegano." (que é G10)
A versão mais forte
"Minha avó comia banha e viveu 100 anos. Antigamente ninguém tinha essas doenças."
Versão mais forte (steelman):
- P1Muitas pessoas das gerações anteriores comiam carne e viveram muito.
- P2Se a carne fizesse mal, essas pessoas não teriam vivido tanto.
- CLogo, comer carne não faz mal, e não há razão para mudar.
P1 é verdadeira em muitos casos. P2 é falsa: fatores de risco aumentam a probabilidade de doença, mas não a tornam certa, e casos individuais não dizem nada sobre o efeito médio.
O argumento é válido. A solidez falha em P2, e a conclusão ignora que o debate moral não depende da saúde de quem come.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento tira uma conclusão geral de casos escolhidos:
O que o argumento usa O que ele deixa de fora Avós que viveram muito Parentes que morreram cedo de doenças do coração, derrames ou câncer A dieta de antigamente O estilo de vida, a atividade física e a quantidade de carne, que eram diferentes Uma geração Os dados de populações inteiras - b
Onde o argumento quebra
1. É evidência anedótica.
Casos individuais não mostram efeitos médios. Fatores de risco aumentam a probabilidade de doença, mas nunca garantem que ela aconteça.
2. É o viés de sobrevivência.
Os avós que viveram até os 90 são lembrados justamente por isso. Os que morreram aos 50 de infarto não entram na conversa.
3. Os dados populacionais mostram outra coisa.
O estudo Global Burden of Disease estimou que riscos alimentares estiveram associados a cerca de 11 milhões de mortes em 2017. A maior parte veio do excesso de sal e da falta de grãos integrais e frutas, e não da carne; o dado mostra que a dieta importa, e não que a carne seja o principal risco. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificou a carne processada como cancerígena para humanos e a carne vermelha como provavelmente cancerígena.
4. "Antigamente" era diferente.
As gerações anteriores costumavam comer menos carne, menos ultraprocessados e ter mais atividade física. E a expectativa de vida era menor, não maior.
5. O argumento muda de assunto.
Mesmo que a carne não fizesse mal a ninguém, a pergunta continuaria a mesma: é justo matar animais quando não precisamos?
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação GBD 2017 Diet Collaborators, *The Lancet* (2019) Riscos alimentares estiveram associados a cerca de 11 milhões de mortes em 2017 Os principais riscos foram excesso de sódio e baixo consumo de grãos integrais e frutas IARC, comunicado nº 240 (2015) Carne processada classificada como cancerígena (grupo 1); carne vermelha como provavelmente cancerígena (grupo 2A) Cada 50 g diários de carne processada associados a 18% mais risco de câncer colorretal - d
A melhor réplica: o risco individual é pequeno
A versão mais séria admite os dados, mas diz que o aumento do risco individual é pequeno, e que cada um pode aceitar esse risco, como aceita outros.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ela abandona o argumento original.
Já não diz que a carne não faz mal, e sim que o mal é aceitável.
O risco para si não é o centro do debate.
O que está em jogo para o animal não é um risco, é a vida inteira.
A escolha pessoal tem limites.
Aceitar um risco para si é diferente de impor um dano certo a outro (E1).
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Evidência anedótica
Epistemológico
A evidência sustenta?
Viés de sobrevivência
Confusão entre risco e certeza
Moral
O critério é coerente?
Mudança de assunto
Vieses
Viés de disponibilidade
Casos de família vêm à mente mais fácil que estatísticas
Literatura geral sobre heurísticas
Viés de confirmação
Aceita o caso que confirma o hábito
Literatura geral sobre viés de confirmação
Retrospecção rosada
A vida dos avós é lembrada sem as doenças e as mortes precoces
Extrapolações
O princípio testado é: "se alguém fez algo e viveu muito, isso não faz mal".
Se valesse para…CigarroToque para ver
Não faria mal, porque há fumantes longevos
Ninguém aceita
Se valesse para…Dirigir alcoolizadoToque para ver
Seria seguro, porque muitos nunca se acidentaram
Ninguém aceita
Se valesse para…Dietas veganasToque para ver
Também seriam saudáveis por existir veganos longevos
O argumento não favorece nenhum lado
Contradições
Ninguém conclui que fumar é saudável porque um avô fumante viveu muito.
Mesmo sabendo que muita gente sem cinto nunca se acidentou.
As gerações anteriores, em média, viviam menos.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A experiência das gerações anteriores merece respeito, e é verdade que muitas pessoas viveram muito comendo carne. Também é verdade que o efeito da carne sobre a saúde depende da quantidade, do tipo e do resto da dieta, e que alarmismo nutricional não ajuda ninguém.
Mas
Mas casos de família não substituem os dados de milhões de pessoas. E, mesmo que a carne fosse perfeitamente saudável, a pergunta sobre os animais continuaria sem resposta.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois