Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR
"Animais não têm alma."
a existência de uma alma não pode ser verificada publicamente e, mesmo nas tradições que a afirmam, não autoriza causar sofrimento. A própria palavra "animal" vem do latim anima, alma; a filosofia clássica atribuía alma aos animais; e as grandes religiões condenam a crueldade. O que importa moralmente, a capacidade de sofrer, existe com ou sem alma imortal.
Nota de tom: este capítulo não discute se Deus ou a alma existem. Discute se a crença numa alma exclusivamente humana justifica causar sofrimento a outros seres, e mostra que as próprias tradições religiosas costumam responder que não.
Resposta curta
Ninguém consegue provar quem tem ou não tem alma, então isso não pode ser o critério para decidir quem podemos fazer sofrer. A própria palavra "animal" vem do latim anima, que significa alma. E as religiões costumam condenar a crueldade: o Catecismo da Igreja Católica diz que é contrário à dignidade humana fazer animais sofrerem ou morrerem sem necessidade. Por fim, se um animal não tem vida após a morte, esta vida é tudo o que ele tem, o que torna tirá-la ainda mais grave.
Para crianças
Algumas pessoas acreditam que só os humanos têm alma, outras acreditam que os animais também têm, e cada família pode conversar sobre isso. Mas uma coisa todo mundo pode ver: quando um cachorro se machuca, ele sente dor, e quando fica sozinho, pode ficar triste. Para saber se é errado machucar alguém, não precisamos saber se ele tem alma. Basta saber que ele sente. E quase todas as religiões ensinam a cuidar bem dos animais.
"Se só a alma importa, por que a sua própria religião condena a crueldade com animais?"
Como pode aparecer
"Bicho não tem espírito."
"Quando o animal morre, acabou."
"Animal não vai para o céu."
"Vegano acha que galinha tem alma."
"Você vai rezar pela alma do frango?"
"Só o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus."
"Deus deu os animais para nos servir." (desenvolvida em D4)
"Animais são máquinas complexas, sem mente."
"A vida humana é sagrada; animais são recursos."
A versão mais forte
"Animais não têm alma, então não há problema em matá-los."
Versão mais forte (steelman). Na forma teológica mais elaborada, inspirada no tomismo:
- P1O valor moral pleno de um ser vem de ter uma alma racional e imortal, criada por Deus.
- P2Só humanos têm alma racional e imortal.
- C1Logo, só humanos têm valor moral pleno.
- P3Seres sem valor moral pleno foram confiados por Deus ao uso humano.
- C2Logo, usar animais para alimentação e outros fins é permitido.
Há também uma versão cartesiana, não religiosa no mesmo sentido: sem alma (mente), os animais seriam máquinas complexas que reagem, mas não sentem. Essa versão nega a senciência e é tratada em A5.
O argumento teológico é válido. Seus problemas de solidez são de três tipos: P1 e P2 não podem ser avaliadas por critérios públicos; "alma" é usada em sentidos diferentes; e P3 não autoriza o que se pratica hoje, nem segundo as próprias tradições religiosas que a sustentam.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
"Alma" tem pelo menos três sentidos, e o argumento só parece funcionar quando eles se misturam.
Sentido de "alma" O que acontece com P2 O que acontece com P1 Princípio de vida e sensibilidade (Aristóteles, Tomás de Aquino) Falsa: nessa tradição, animais têm alma sensitiva, que percebe, deseja e sente Perde o sentido: ter alma não separa humanos de animais Mente ou consciência (uso popular) Falsa diante da evidência de senciência (ver A5) Aproxima-se do senciocentrismo Alma racional e imortal (teologia) Não pode ser verificada nem refutada por evidência pública Não explica por que a dor de um ser sem imortalidade não importaria Na tradição aristotélica, que moldou o pensamento cristão medieval, há três níveis de alma: a nutritiva (plantas), a sensitiva (animais) e a racional (humanos). Ou seja, a filosofia que deu origem ao argumento atribuía alma aos animais. O que ela negava era a alma racional.
- b
Onde o argumento quebra
1. A premissa não pode ser examinada por todos (P1 e P2).
Quem tem ou não tem alma imortal é uma questão de fé, não de evidência compartilhada, e as tradições discordam entre si. No jainismo e em correntes do hinduísmo, todos os seres vivos têm um princípio espiritual; no budismo, o renascimento atravessa espécies. Escolher a resposta de uma teologia específica para autorizar o dano a terceiros é um apelo especial. Isso não é um ataque à fé: é a exigência de que um critério usado para justificar sofrimento seja acessível a quem não compartilha a mesma crença.
2. Mesmo nas tradições que afirmam a alma humana única, a crueldade é condenada.
A tabela em (c) mostra que o cristianismo, o judaísmo, o islã, o hinduísmo e o budismo têm ensinamentos explícitos contra fazer animais sofrerem. Quem usa A4 costuma atribuir à religião uma licença que ela não concede.
3. A imortalidade não é o que torna a dor ruim.
A dor é ruim enquanto é sentida, aqui e agora. Ter ou não ter vida após a morte não muda o que um animal sente no confinamento ou no abate. Há até uma razão para pensar o contrário: se não existe compensação depois da morte, esta vida é a única que o animal tem, e o dano de tirá-la ou arruiná-la é definitivo. C. S. Lewis, um dos apologistas cristãos mais lidos do século XX, tratou o sofrimento animal como um problema sério justamente por isso (O Problema do Sofrimento, 1940).
4. O critério acaba reduzido à espécie.
Na prática, a alma racional é atribuída a todo e qualquer humano e negada a todo e qualquer animal, independentemente das capacidades de cada um. Assim, "ter alma" funciona como outro nome para "ser humano", e o argumento volta a ser A10 ("são só animais") com vocabulário teológico.
- c
Dados e fontes: o que as tradições dizem
A tabela não afirma que as religiões são veganas. Mostra que elas não autorizam o sofrimento desnecessário, e registra com honestidade onde permitem o uso de animais.
Tradição O que diz Fonte Observação honesta Catolicismo É contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem ou morrerem sem necessidade (tradução livre da versão em inglês) Catecismo da Igreja Católica, § 2418 O parágrafo anterior (§ 2417) considera legítimo usar animais para alimentação e vestuário. A questão é o que conta como "inutilmente" quando há alternativas Catolicismo Rejeita a ideia de que ter sido criado à imagem de Deus e receber domínio sobre a terra justifique "um domínio absoluto sobre as outras criaturas" Papa Francisco, Laudato Si' (2015), § 67, citado aqui A encíclica reconhece valor próprio nas criaturas, mas não trata diretamente da pecuária industrial Cristianismo e judaísmo (Bíblia hebraica) "O justo cuida da vida dos seus animais"; no Éden, a alimentação descrita é vegetal; a visão profética de paz inclui o lobo e o cordeiro Provérbios 12:10; Gênesis 1:29-30; Isaías 11:6-9 Outros textos, como Gênesis 9:3, permitem comer carne Judaísmo Princípio tza'ar ba'alei chayim: proibição de causar sofrimento desnecessário aos animais Talmude Babilônico, Bava Metzia 32b Coexiste com regras de abate ritual Islã Uma mulher foi punida por prender um gato até a morte sem dar comida nem água; uma prostituta foi perdoada por dar água a um cão com sede Sahih al-Bukhari 3482 e 3321 Coexiste com regras de abate ritual Hinduísmo e jainismo Ahimsa, a não violência contra seres vivos; no jainismo, todos os seres vivos têm alma (jiva) Tradição textual e prática O jainismo leva o princípio mais longe que qualquer outra grande tradição Budismo Primeiro preceito: abster-se de tirar a vida de seres vivos Tradição textual A prática alimentar varia entre escolas e países - d
A melhor réplica: dignidade humana e permissão religiosa
A versão mais sólida não diz que animais não importam. Diz que humanos têm uma dignidade única, fundada na alma racional e na imagem de Deus, e que Deus permitiu o uso dos animais, desde que sem crueldade. Nessa leitura, comer carne seria compatível com a fé, e o veganismo exigiria mais do que a religião exige.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
O próprio limite da permissão condena a prática atual.
A permissão vem com a condição de não causar sofrimento desnecessário. Quando existem alternativas alimentares e o sistema dominante envolve confinamento, mutilações e abate em escala industrial, a maior parte desse sofrimento é desnecessária pelo critério da própria tradição.
Dignidade gera deveres, não licença.
Nas tradições abraâmicas, o ser humano recebe os animais como alguém que cuida em nome de outro, não como dono absoluto. O próprio Laudato Si' rejeita o domínio absoluto. Há inclusive uma linha de teologia cristã que defende os animais a partir da fé (Linzey, 1994).
Permissão não é obrigação.
Mesmo que a religião permita comer carne, nenhuma exige. Escolher não causar sofrimento continua disponível dentro de todas essas tradições.
Fé e senciocentrismo são compatíveis.
É possível acreditar que só humanos têm alma imortal e, ao mesmo tempo, reconhecer que o sofrimento animal importa. Não há contradição entre as duas crenças; há contradição entre condenar a crueldade e financiá-la quando se pode evitá-la.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Equivocação
Non sequitur
Petição de princípio
Apelo especial
Epistemológico
A evidência sustenta?
Premissa infalsificável
Leitura seletiva de textos
Desconhecimento da própria tradição
Moral
O critério é coerente?
Critério irrelevante
Dignidade como licença
Ausência de justificação pública
Vieses
Essencialismo psicológico
A tendência de pensar que categorias têm uma essência invisível faz a "alma" parecer uma fronteira natural entre humanos e animais
Medin e Ortony, 1989; Gelman, 2003
Raciocínio motivado
Busca-se na religião a justificativa para uma prática que já se deseja manter
Literatura geral sobre cognição motivada
Viés de confirmação na leitura de textos
Lembra-se das passagens que permitem o uso e esquece-se das que condenam a crueldade
Padrão conhecido na interpretação de textos de autoridade
Deferência à autoridade
"A religião diz" encerra a análise antes que ela comece
Padrão conhecido de apelo à autoridade
Negação motivada de mente
Negar alma aos animais comidos é uma forma de negar-lhes mente
Bastian et al., 2012; replicado por Jacobs et al., 2024
Extrapolações
O princípio testado é: "quem não tem alma (racional) pode ser usado".
Se valesse para…Povos considerados "sem razão" ou "sem alma plena"Toque para ver
Bastaria afirmar que um grupo humano não tem alma racional plena para justificar seu uso. Como a posse de alma não pode ser verificada, quem tem poder decide a quem ela pertence
No século XVI, havia quem defendesse que os indígenas das Américas fossem tratados "como brutos criados para o nosso serviço". A bula Sublimis Deus (1537) respondeu que eram "verdadeiramente homens" e não podiam ser escravizados
Se valesse para…O sofrimento físico humanoToque para ver
A dor do corpo seria moralmente secundária. Se o valor está só na alma imortal, e a alma não é ferida pela dor física, aliviar a dor de um doente seria menos importante do que parece
As tradições religiosas fazem o oposto e tratam o cuidado com o corpo sofredor como dever
Se valesse para…Tradições religiosas diferentesToque para ver
Cada religião poderia impor sua própria resposta sobre almas a todos. Se a alma decide, um jainista poderia exigir que todos tratassem insetos como seres com alma, com o mesmo direito de quem nega alma aos bois
Mostra por que o critério para autorizar dano precisa ser público, e não dependente de uma fé específica
Se valesse para…Seres conscientes sem alma reconhecidaToque para ver
Extraterrestres sencientes ou uma inteligência artificial consciente poderiam ser torturados. Se não têm a alma que certa tradição atribui aos humanos, o sofrimento deles não contaria
Quem sente que isso seria errado está apelando à senciência, não à alma
Contradições
Quase todos que usam A4 acham errado torturar um animal, e suas religiões também. Isso só faz sentido se o sofrimento animal importa, com ou sem alma.
Muitas pessoas que dizem que animais não têm alma esperam reencontrar o cão ou o gato "num lugar melhor" ou falam de sua "alma boa", mas não estendem essa ideia ao porco ou à vaca.
As tradições falam em responsabilidade e compaixão; o argumento as usa para encerrar a conversa sobre responsabilidade.
Se só a alma imortal importasse, a dor física humana também seria secundária. As mesmas religiões, porém, mantêm hospitais e ensinam a aliviar o sofrimento do corpo.
O que o argumento acerta
O que é verdade
O argumento expressa uma intuição que merece respeito: a de que há algo de especial na vida humana e de que temos uma responsabilidade que nenhum outro animal tem. Para bilhões de pessoas, essa intuição é vivida por meio da fé, e um guia honesto não precisa atacá-la. Também é verdade que a natureza última da consciência continua sendo uma questão aberta na filosofia e na ciência: ninguém sabe explicar completamente por que existe experiência subjetiva.
Mas
Mas nenhum desses pontos leva à conclusão de que podemos fazer animais sofrerem sem necessidade. A responsabilidade especial que as tradições atribuem aos humanos é, em quase todas elas, responsabilidade de cuidar. E a incerteza sobre a natureza da consciência não elimina a evidência de que os animais sentem.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Características metafísicas poderiam justificar o especismo? Vol. I, cap. 3
Referências
Os links levam às fontes conferidas na redação deste capítulo.
Textos religiosos e magistério
- Bíblia: Gênesis 1:29-30 e 9:3; Provérbios 12:10; Isaías 11:6-9.
- Catecismo da Igreja Católica, § 2415-2418.
- Laudato Si', § 67 e § 130. Trechos conferidos em Catholic Moral Theology.
- Sublimis Deus.
- Sahih al-Bukhari 3482 e 3321.
- Talmude Babilônico, Bava Metzia 32b.
Filosofia e teologia
- Sobre a Alma (De Anima), livro II.
- Discurso do Método, parte V.
- O Problema do Sofrimento, capítulo sobre a dor animal.
- Animal Theology. SCM Press.
- Suma contra os Gentios, livro III, cap. 112.
Psicologia
- The Essential Child: Origins of Essentialism in Everyday Thought. Oxford University Press.
- Replication registered report of Bastian et al. (2012). International Review of Social Psychology.
- Psychological essentialism. In S. Vosniadou & A. Ortony (Eds.), Similarity and Analogical Reasoning. Cambridge University Press.