Guia de Argumentação
Pelos Animais

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F8

"E a carne que vai para o lixo?"

A resposta em uma frase

consumir algo que já seria descartado, sem gerar demanda, é um caso diferente de comprar carne. Mas é um caso raro, que não descreve o consumo cotidiano, e ainda tem um custo: reforça a ideia de que animais são comida. Além disso, o desperdício não é argumento para continuar produzindo; é mais uma razão para produzir menos.

Resposta curta

É verdade que comer algo que já seria jogado fora, sem que ninguém compre mais por isso, não aumenta a demanda. É um caso raro e diferente. Mas ele não descreve o dia a dia: a maior parte da carne é comprada, e cada compra gera demanda. E até a sobra tem um custo: comê-la reforça a ideia de que animais são comida, para quem come e para quem vê. O desperdício é razão para produzir menos, e não para continuar produzindo.

Para crianças

Se sobrou um pedaço de carne numa festa e ia para o lixo, comer ou não comer não muda nada para aquele animal, que já morreu. Mas, se as pessoas se acostumam a pensar que "tudo bem comer", continuam comprando mais carne. E aí mais animais morrem. O melhor é fazer menos carne sobrar, comprando menos.

Devolva com uma pergunta

"A maior parte da carne que você come era sobra que iria para o lixo?"

Como pode aparecer

"E a carne que vai para o lixo?"
Conversa cotidiana
"Se vai ser jogada fora, melhor comer."
Conversa cotidiana
"Sobra de festa não conta."
Conversa cotidiana
"Vegano prefere desperdiçar a comer."
Redes sociais
"O consumo sem efeito sobre a demanda não tem custo moral."
Versão acadêmica
"O animal já está morto." (que é K2)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Se vai ser jogada fora, melhor comer. Sobra de festa não conta."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1O dano ao animal acontece na criação e no abate, e não no consumo.
  2. P2Se a carne já foi produzida e será jogada fora, comê-la não aumenta a demanda.
  3. P3Se não há aumento de demanda, comer essa carne não causa novo dano.
  4. CLogo, comer carne que iria para o lixo não é errado.

P1, P2 e P3 podem ser verdadeiras em casos específicos. O argumento é mais forte do que parece. O problema é que ele só vale para esses casos, e mesmo neles há efeitos indiretos.

O argumento é válido e talvez sólido para o caso estrito. Falha quando é usado para justificar o consumo comum.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento separa o consumo da demanda:

    SituaçãoGera demanda?Caso comum?
    Comprar carne no mercadoSimSim
    Pedir carne no restauranteSimSim
    Comer sobra que iria para o lixo, sem planejarTalvez nãoNão, é raro
    Planejar "pegar a sobra" sempreSim, a sobra passa a ser esperadaNão
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. É um caso raro.

    Quase toda a carne consumida é comprada. O caso da sobra não descreve o consumo cotidiano (K1).

    2. A sobra recorrente gera demanda.

    Se uma pessoa sempre come a sobra, quem cozinha passa a contar com isso, e a sobra deixa de ser sobra.

    3. Há efeitos indiretos.

    Comer carne, mesmo que fosse descartada, reforça para quem come e para quem vê a ideia de que animais são comida. Isso afeta a disposição de mudar.

    4. O desperdício é parte do problema.

    Segundo a FAO, cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado. Na carne, isso significa animais criados e mortos para nada. A resposta é produzir menos, e não normalizar o consumo.

    5. O argumento muda de assunto.

    A pergunta era sobre comprar carne, e não sobre o que fazer com sobras.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    FAO, *Global Food Losses and Food Waste* (2011)Cerca de um terço dos alimentos produzidos para consumo humano é perdido ou desperdiçado, cerca de 1,3 bilhão de toneladas por anoMostra a escala do desperdício
  4. d

    A melhor réplica: desperdiçar também desrespeita o animal

    A versão mais séria diz que jogar fora a carne de um animal que já morreu é uma forma de desrespeito, e que comê-la honra, de algum modo, a vida que foi tirada.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    O animal não se beneficia.

    Comer ou não comer não muda nada para ele.

    O respeito estaria em não matar.

    Honrar a vida tirada seria evitar que outras sejam tiradas.

    A réplica não se aplica ao consumo comum.

    Continua sendo sobre um caso raro.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Generalização do acidente
Um caso raro vira defesa do consumo comum

Epistemológico

A evidência sustenta?

Ignorar efeitos indiretos
Supõe que comer não afeta normas nem demanda futura

Moral

O critério é coerente?

Mudança de assunto
Da compra passa-se à sobra

Vieses

Raciocínio motivado

O caso raro serve para dispensar a mudança no caso comum

Literatura geral sobre cognição motivada

Categorização funcional

A carne continua sendo vista como comida, e não como animal

Bratanova, Loughnan e Bastian, 2011

Extrapolações

O princípio testado é: "se algo seria descartado, consumi-lo não tem custo moral".

Se valesse para…Produtos de trabalho escravo descartadosToque para ver

Comprá-los seria aceitável

Depende de não gerar demanda

Se valesse para…Marfim apreendidoToque para ver

Poderia ser vendido

Muitos países o destroem para não estimular o mercado

Se valesse para…Carne de qualquer animalToque para ver

Toda sobra seria comida

Inclusive de animais que a pessoa não comeria

Contradições

Compra carne, e não apenas come sobras.

O caso não descreve o próprio consumo.

Não comeria sobras de qualquer animal.

Uma sobra de carne de cão não seria comida "para não desperdiçar".

Combate o desperdício produzindo mais?

O desperdício é argumento para reduzir a produção.

O que o argumento acerta

O que é verdade

O argumento é mais forte do que muitos admitem. Comer algo que realmente iria para o lixo, sem gerar nenhuma demanda, é diferente de comprar carne, e há filósofos que consideram isso aceitável. Também é verdade que o desperdício de alimentos é um problema sério.

Mas

Mas o caso é raro, os efeitos indiretos existem, e o desperdício aponta para a necessidade de produzir menos, e não para a normalização do consumo.

Conexões

Costuma vir antes

F8este argumento

Costuma vir depois

K2 O animal já está morto.O animal já está morto
F6 E os ovos da minha galinha resgatada?Busca outro caso sem dano aparente
K1 Um indivíduo não faz diferença.Do caso da sobra passa-se à ideia de que uma compra não muda nada

Referências