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"E a carne que vai para o lixo?"
consumir algo que já seria descartado, sem gerar demanda, é um caso diferente de comprar carne. Mas é um caso raro, que não descreve o consumo cotidiano, e ainda tem um custo: reforça a ideia de que animais são comida. Além disso, o desperdício não é argumento para continuar produzindo; é mais uma razão para produzir menos.
Resposta curta
É verdade que comer algo que já seria jogado fora, sem que ninguém compre mais por isso, não aumenta a demanda. É um caso raro e diferente. Mas ele não descreve o dia a dia: a maior parte da carne é comprada, e cada compra gera demanda. E até a sobra tem um custo: comê-la reforça a ideia de que animais são comida, para quem come e para quem vê. O desperdício é razão para produzir menos, e não para continuar produzindo.
Para crianças
Se sobrou um pedaço de carne numa festa e ia para o lixo, comer ou não comer não muda nada para aquele animal, que já morreu. Mas, se as pessoas se acostumam a pensar que "tudo bem comer", continuam comprando mais carne. E aí mais animais morrem. O melhor é fazer menos carne sobrar, comprando menos.
"A maior parte da carne que você come era sobra que iria para o lixo?"
Como pode aparecer
"E a carne que vai para o lixo?"
"Se vai ser jogada fora, melhor comer."
"Sobra de festa não conta."
"Vegano prefere desperdiçar a comer."
"O consumo sem efeito sobre a demanda não tem custo moral."
"O animal já está morto." (que é K2)
A versão mais forte
"Se vai ser jogada fora, melhor comer. Sobra de festa não conta."
Versão mais forte (steelman):
- P1O dano ao animal acontece na criação e no abate, e não no consumo.
- P2Se a carne já foi produzida e será jogada fora, comê-la não aumenta a demanda.
- P3Se não há aumento de demanda, comer essa carne não causa novo dano.
- CLogo, comer carne que iria para o lixo não é errado.
P1, P2 e P3 podem ser verdadeiras em casos específicos. O argumento é mais forte do que parece. O problema é que ele só vale para esses casos, e mesmo neles há efeitos indiretos.
O argumento é válido e talvez sólido para o caso estrito. Falha quando é usado para justificar o consumo comum.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento separa o consumo da demanda:
Situação Gera demanda? Caso comum? Comprar carne no mercado Sim Sim Pedir carne no restaurante Sim Sim Comer sobra que iria para o lixo, sem planejar Talvez não Não, é raro Planejar "pegar a sobra" sempre Sim, a sobra passa a ser esperada Não - b
Onde o argumento quebra
1. É um caso raro.
Quase toda a carne consumida é comprada. O caso da sobra não descreve o consumo cotidiano (K1).
2. A sobra recorrente gera demanda.
Se uma pessoa sempre come a sobra, quem cozinha passa a contar com isso, e a sobra deixa de ser sobra.
3. Há efeitos indiretos.
Comer carne, mesmo que fosse descartada, reforça para quem come e para quem vê a ideia de que animais são comida. Isso afeta a disposição de mudar.
4. O desperdício é parte do problema.
Segundo a FAO, cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado. Na carne, isso significa animais criados e mortos para nada. A resposta é produzir menos, e não normalizar o consumo.
5. O argumento muda de assunto.
A pergunta era sobre comprar carne, e não sobre o que fazer com sobras.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação FAO, *Global Food Losses and Food Waste* (2011) Cerca de um terço dos alimentos produzidos para consumo humano é perdido ou desperdiçado, cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano Mostra a escala do desperdício - d
A melhor réplica: desperdiçar também desrespeita o animal
A versão mais séria diz que jogar fora a carne de um animal que já morreu é uma forma de desrespeito, e que comê-la honra, de algum modo, a vida que foi tirada.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
O animal não se beneficia.
Comer ou não comer não muda nada para ele.
O respeito estaria em não matar.
Honrar a vida tirada seria evitar que outras sejam tiradas.
A réplica não se aplica ao consumo comum.
Continua sendo sobre um caso raro.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Generalização do acidente
Epistemológico
A evidência sustenta?
Ignorar efeitos indiretos
Moral
O critério é coerente?
Mudança de assunto
Vieses
Raciocínio motivado
O caso raro serve para dispensar a mudança no caso comum
Literatura geral sobre cognição motivada
Categorização funcional
A carne continua sendo vista como comida, e não como animal
Extrapolações
O princípio testado é: "se algo seria descartado, consumi-lo não tem custo moral".
Se valesse para…Produtos de trabalho escravo descartadosToque para ver
Comprá-los seria aceitável
Depende de não gerar demanda
Se valesse para…Marfim apreendidoToque para ver
Poderia ser vendido
Muitos países o destroem para não estimular o mercado
Se valesse para…Carne de qualquer animalToque para ver
Toda sobra seria comida
Inclusive de animais que a pessoa não comeria
Contradições
O caso não descreve o próprio consumo.
Uma sobra de carne de cão não seria comida "para não desperdiçar".
O desperdício é argumento para reduzir a produção.
O que o argumento acerta
O que é verdade
O argumento é mais forte do que muitos admitem. Comer algo que realmente iria para o lixo, sem gerar nenhuma demanda, é diferente de comprar carne, e há filósofos que consideram isso aceitável. Também é verdade que o desperdício de alimentos é um problema sério.
Mas
Mas o caso é raro, os efeitos indiretos existem, e o desperdício aponta para a necessidade de produzir menos, e não para a normalização do consumo.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois