Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / F. Casos-limite e hipotéticos / Parte DIR

F7

"Ostras e mexilhões não sentem."

A resposta em uma frase

o argumento é parcialmente plausível, e é justamente por isso que confirma o critério. Ostras e mexilhões têm sistemas nervosos muito simples, sem cérebro centralizado, e há filósofos defensores dos animais que admitem que talvez não sintam. Mas, ao dizer "não sentem, então pode", a pessoa aceita que o que importa é a senciência. E esse critério condena o consumo de todos os animais que sentem, inclusive peixes, polvos e caranguejos.

Resposta curta

Talvez você tenha razão sobre ostras e mexilhões: eles têm sistemas nervosos muito simples, e até alguns defensores dos animais admitem que talvez não sintam. Mas, ao dizer isso, você aceita que o que importa é se o animal sente. E esse critério condena comer peixes, polvos, caranguejos, galinhas e porcos, que sentem. A exceção, se existir, confirma a regra.

Para crianças

Alguns animais, como ostras e mexilhões, são muito simples e talvez não sintam dor. Os cientistas ainda estão estudando isso. Mas, se a gente decide que só importa quem sente, então precisa cuidar de todos os que sentem, como peixes, polvos, galinhas e porcos.

Devolva com uma pergunta

"Se o que importa é se o animal sente, por que comer os que sentem?"

Como pode aparecer

"Ostras e mexilhões não sentem."
Conversa cotidiana
"Ostra não tem sistema nervoso central."
Conversa cotidiana
"Bivalves são quase plantas."
Conversa cotidiana
"Vegano que não come ostra não entende biologia."
Redes sociais
"Bivalves provavelmente não são sencientes."
Versão acadêmica
"Peixes e invertebrados não sentem dor." (que é A6)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Ostra não tem sistema nervoso central. Bivalves são quase plantas."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Ostras e mexilhões não têm cérebro centralizado e têm sistemas nervosos muito simples.
  2. P2Sem esse tipo de sistema, é improvável que sejam sencientes.
  3. P3Se não são sencientes, comê-los não causa sofrimento.
  4. CLogo, comer ostras e mexilhões é aceitável.

P1 é verdadeira. P2 é plausível, mas incerta. P3 é verdadeira se P2 for. O ponto mais importante é que o argumento aceita a senciência como critério.

O argumento é válido e talvez sólido para bivalves. Mas ele não serve para defender o consumo de animais que sentem, e a incerteza sobre P2 é uma razão para cautela.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento aceita o critério da senciência, e isso tem consequências:

    AnimalEvidência de senciênciaO que o critério implica
    Mamíferos e avesForteNão comer
    PeixesForte e crescenteNão comer
    Polvos e caranguejosForte, reconhecida até em lei no Reino UnidoNão comer
    Ostras e mexilhõesFraca e incertaTalvez seja aceitável; cautela recomendada
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Ele confirma o critério.

    Se o problema é a falta de senciência, a senciência é o que importa. É exatamente o critério do veganismo e da ética animal.

    2. A exceção não se estende.

    Polvos, lulas, caranguejos e lagostas têm evidências fortes de senciência. Em 2021, um relatório da London School of Economics recomendou tratá-los como sencientes, e o Reino Unido os incluiu na sua lei de senciência animal em 2022.

    3. A incerteza pede cautela.

    Bivalves têm gânglios nervosos e reagem a estímulos. A ausência de evidência forte não é evidência forte de ausência. Na dúvida, o custo de não comer é muito pequeno.

    4. A exceção não cobre o resto do prato.

    Há quem coma só bivalves por esse motivo, mas, na maioria das vezes, o argumento vem de quem come muitos outros animais, para os quais ele não vale.

    5. A pesca e o cultivo de bivalves também têm efeitos.

    A coleta e a produção podem afetar outros animais e ecossistemas, o que deve ser considerado.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Birch et al., LSE, 2021Revisou mais de 300 estudos e recomendou tratar cefalópodes e crustáceos decápodes como sencientesNão trata de bivalves
    Reino Unido, Animal Welfare (Sentience) Act 2022Inclui cefalópodes e crustáceos decápodes entre os animais sencientesLei britânica
    Declaração de Nova York sobre a Consciência Animal (2024)Reconhece uma possibilidade realista de consciência em muitos invertebradosAssinada por centenas de pesquisadores
  4. d

    A melhor réplica: o veganismo deveria então aceitar bivalves

    A versão mais séria diz que, se bivalves provavelmente não sentem, o veganismo deveria aceitá-los, e que recusá-los mostra que o movimento é dogmático.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Há defensores dos animais que os aceitam.

    Alguns filósofos e ativistas consideram o consumo de bivalves aceitável. O debate é honesto e aberto.

    A cautela não é dogma.

    Diante da incerteza, preferir não arriscar é uma posição razoável.

    Nada muda para os outros animais.

    Aceitar ou não bivalves não afeta a conclusão sobre os animais que sentem.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Generalização do acidente
Usa o caso dos bivalves para outros animais

Epistemológico

A evidência sustenta?

Ausência de evidência tomada como evidência de ausência
A incerteza vira certeza

Moral

O critério é coerente?

Critério usado só onde convém
Aceita a senciência como critério e ignora o que ela implica

Vieses

Negação de mente

Animais pouco familiares parecem ter menos mente

Bastian et al., 2012

Raciocínio motivado

O caso favorável é lembrado; os desfavoráveis, esquecidos

Literatura geral sobre cognição motivada

Extrapolações

O princípio testado é: "se um animal não sente, comê-lo não é errado".

Se valesse para…Ostras e mexilhõesToque para ver

Talvez aceitável

Com cautela pela incerteza

Se valesse para…Polvos e caranguejosToque para ver

Não aceitável, porque sentem

Reconhecido por lei no Reino Unido

Se valesse para…Peixes, aves e mamíferosToque para ver

Não aceitável, porque sentem

O princípio condena quase todo o consumo

Contradições

Aceita a senciência como critério.

E come animais claramente sencientes.

Não come só bivalves.

O argumento não descreve o próprio consumo.

Pediria cautela em outros casos de incerteza.

Na medicina, na segurança, no meio ambiente.

O que o argumento acerta

O que é verdade

O argumento acerta em boa parte. Bivalves são casos genuinamente difíceis, a ciência sobre eles é incerta, e há defensores dos animais que admitem que talvez não sintam. Reconhecer isso é sinal de honestidade e mostra que o veganismo se baseia em critérios, e não em dogmas.

Mas

E é justamente esse critério que decide o resto. Quem aceita que o que importa é sentir já tem a resposta para todos os outros animais que estão no prato.

Conexões

Costuma vir antes

A15 Onde traçar a linha? Insetos? Bactérias?Busca um caso de fronteira favorável
H10 Pesca sustentável e aquicultura resolvem.Diz que ostras e mexilhões não sentem
F7este argumento

Costuma vir depois

A14 Plantas também sentem.Estende a dúvida às plantas
A6 Peixes e invertebrados não sentem dor.Estende a dúvida a peixes e outros invertebrados

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências