Guia de Argumentação
Pelos Animais

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E9

"Comer carne não é ideologia, veganismo é."

A resposta em uma frase

toda prática que envolve escolhas sobre quem pode ser usado se apoia em crenças, inclusive comer carne. A diferença é que a crença dominante fica invisível para quem a segue. A psicóloga Melanie Joy chamou esse sistema de crenças de carnismo: ele ensina quais animais são comida e quais são companhia, e faz isso parecer natural. O veganismo não politiza a comida; apenas torna visível uma escolha que já existia.

Resposta curta

Comer carne também depende de crenças: que certos animais podem ser usados e outros não, que o porco é comida e o cão é família. Essas crenças parecem neutras porque são as da maioria, e a norma dominante fica invisível para quem a segue. A psicóloga Melanie Joy chamou esse sistema de carnismo. O veganismo não inventa uma ideologia; só torna visível uma escolha que já estava sendo feita.

Para crianças

Quem decidiu que o cachorro é amigo e o porco é comida? Ninguém nasce sabendo isso: a gente aprende com a família e com a cultura. Em outros países, as pessoas aprendem diferente. Então comer certos animais também vem de ideias que alguém nos ensinou, mesmo que pareçam normais.

Devolva com uma pergunta

"Quem te ensinou que o porco é comida e o cachorro é família?"

Como pode aparecer

"Comer carne é normal, não é filosofia."
Conversa cotidiana
"Vocês é que politizam a comida."
Conversa cotidiana
"Carnismo é palavra inventada."
Conversa cotidiana
"Eu só como; vegano é que tem ideologia."
Redes sociais
"O ônus da justificação está com quem propõe a mudança."
Versão acadêmica
"Veganismo é ideologia política ou agenda globalista." (que é J7)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Comer carne é normal, não é filosofia. Vocês é que politizam a comida. Carnismo é palavra inventada."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Comer carne é uma prática tradicional e quase universal, que não depende de nenhuma teoria.
  2. P2O veganismo depende de uma teoria moral específica sobre os animais.
  3. P3Quem propõe mudar uma prática com base numa teoria é que carrega o ônus ideológico.
  4. CLogo, comer carne é neutro, e o veganismo é ideologia.

A versão forte tem algo de verdade: quem propõe mudar um costume precisa apresentar razões. O problema está em P1: comer carne depende, sim, de crenças, como a de que certos animais podem ser usados e outros não.

O argumento é válido. A solidez falha em P1, que confunde "dominante" com "neutro".

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento trata a norma dominante como ausência de crença:

    Crença por trás de comer carneÉ neutra?
    Certos animais podem ser criados e mortos para comidaNão: é uma posição moral
    Quais animais são comida varia por culturaMostra que a escolha é aprendida
    Comer carne é normal, natural e necessárioSão justificativas, estudadas pela psicologia
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Dominante não é neutro.

    Toda prática que decide quem pode ser usado envolve juízos morais. A maioria das pessoas só não percebe os juízos que compartilha com quase todos.

    2. A escolha de quais animais comer é cultural.

    No Brasil se come porco e não cão; em outros lugares, o contrário. Isso mostra que a divisão é ensinada, e não natural.

    3. O conceito de carnismo descreve esse sistema.

    Melanie Joy propôs o termo em 2009 para nomear o sistema de crenças que condiciona as pessoas a comer certos animais. Pode-se discordar do termo, mas a ideia de que comer animais é sustentado por crenças tem apoio na pesquisa sobre os 4Ns: natural, normal, necessário e gostoso.

    4. "Ideologia" não é insulto.

    Toda posição moral é um conjunto de crenças sobre como agir. A pergunta relevante não é se algo é ideologia, e sim se suas razões são boas.

    5. O ônus vale para os dois lados.

    Quem propõe mudar precisa dar razões, e quem causa dano a outros também precisa. O fato de uma prática ser antiga não a dispensa de justificativa (D1).

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Joy, *Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas* (2009)Propõe o conceito de carnismoPágina da autora sobre o conceito
    Piazza et al., 2015As justificativas mais comuns para comer carne são que é natural, normal, necessário e gostosoMostra o sistema de crenças em ação
    Bratanova, Loughnan e Bastian, 2011Classificar um animal como comida reduz o status moral atribuído a eleMostra o peso das categorias aprendidas
  4. d

    A melhor réplica: nem todo hábito é ideologia

    A versão mais séria diz que nem todo hábito expressa uma ideologia: escovar os dentes, por exemplo, é só um costume. Chamar o consumo de carne de ideologia seria inflar a palavra.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Escovar os dentes não tem vítima.

    Hábitos que envolvem outros seres exigem justificativa moral.

    O argumento não depende da palavra.

    Pode-se trocar "ideologia" por "conjunto de crenças", e a questão continua.

    As justificativas existem e são estudadas.

    O fato de as pessoas recorrerem a elas mostra que há crenças sustentando o hábito.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Definição persuasiva
Chama de "ideologia" só a posição minoritária
Inversão do ônus
Exige justificativa só de quem propõe mudar

Epistemológico

A evidência sustenta?

Norma invisível
Não percebe as crenças que compartilha com a maioria

Moral

O critério é coerente?

Neutralidade aparente
Trata como neutra uma prática que tem vítimas

Vieses

Racionalização pelos 4Ns

As justificativas parecem fatos, e não crenças

Piazza et al., 2015

Viés do status quo

A prática dominante parece neutra

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Categorização funcional

"Comida" parece uma propriedade do animal

Bratanova, Loughnan e Bastian, 2011

Realismo ingênuo e ponto cego do viés

O próprio hábito parece neutro; o do outro, ideológico

Questão de Ética, vol. X, cap. 4

Extrapolações

O princípio testado é: "a posição da maioria não é ideologia; só a da minoria é".

Se valesse para…Abolicionismo no século XIXToque para ver

Seria ideologia; a escravidão seria neutra

Ninguém aceita

Se valesse para…Sufrágio femininoToque para ver

Seria ideologia; a exclusão seria neutra

Ninguém aceita

Se valesse para…Qualquer crença majoritáriaToque para ver

Seria imune a questionamento

O princípio protege qualquer maioria

Contradições

Não comeria cães.

O que mostra que segue uma regra sobre quais animais comer.

Defende o consumo de carne com argumentos.

Natural, normal, necessário: são crenças.

Chamaria de ideologia práticas de outras culturas.

Como comer cães em outros países.

O que o argumento acerta

O que é verdade

É verdade que quem propõe mudar um costume precisa dar boas razões, e que acusar todo mundo de "ideologia" pode empobrecer o debate. Também é verdade que o veganismo é uma posição moral, com pressupostos que podem ser discutidos.

Mas

Mas o mesmo vale para comer carne. A diferença não é que um lado tem crenças e o outro não; é que as crenças da maioria ficam invisíveis. Tornar essas crenças visíveis é o primeiro passo para examiná-las.

Conexões

Costuma vir antes

D6 Todo mundo come.A maioria vira neutralidade
E9este argumento

Costuma vir depois

L2 Veganismo é seita, religião.O veganismo vira seita
E10 Veganismo é opinião, não ciência.A ideologia vira mera opinião

Referências