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Início / N. Ex-veganos: por que desisti / Parte IND

N1

"Deixei de ser vegano porque comecei a me sentir mal"

A resposta em uma frase

o mal-estar de quem tentou é real e merece ser levado a sério, mas quase nunca é investigado. Cansaço, fraqueza, fome e "falta de energia" costumam vir de comer pouco, de mudanças bruscas, de falta de B12 ou de um cardápio mal planejado, e tendem a ter solução. Na pesquisa da Faunalytics com ex-vegetarianos e ex-veganos, a saúde foi citada por 26% como motivo para desistir. Um mal-estar é razão para procurar ajuda e ajustar a dieta, e não para concluir que os animais deixaram de importar.

Resposta curta

Seu mal-estar foi real, e ninguém deve fingir que não foi. Mas você chegou a investigar a causa? Na maioria das vezes, é falta de calorias, de B12 ou de planejamento, e tudo isso tem solução sem produtos animais. As principais entidades de nutrição, como a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos, consideram dietas veganas bem planejadas adequadas para todas as fases da vida. Se quiser tentar de novo, com acompanhamento, posso te ajudar.

Para crianças

Quando a gente muda o que come, às vezes o corpo estranha, como quando se muda de casa. Se alguém se sente cansado, o certo é ir ao médico ou a um nutricionista para descobrir o motivo: pode ser que a pessoa esteja comendo pouco ou que falte uma vitamina. Dá para resolver sem machucar nenhum animal.

Devolva com uma pergunta

"Você chegou a fazer exames ou a conversar com um nutricionista enquanto era vegano?"

Como pode aparecer

"Meu corpo sente falta de carne, me sinto mal."
Conversa cotidiana
"Deixei de ser vegano por causa da energia."
Conversa cotidiana
"Voltei a comer carne e melhorei na hora."
Conversa cotidiana
"Fui vegano por cinco anos e destruí minha saúde."
Redes sociais
"Meu corpo não se adapta." (que é G11)
Versão biológica
"Conheço alguém que adoeceu sendo vegano." (que é G10)
Versão de terceiros

A versão mais forte

Como se diz

"Eu fui vegano por um tempo, mas comecei a me sentir mal, sem energia. Meu corpo sentia falta de carne. Voltei a comer e melhorei."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Enquanto era vegano, me senti mal.
  2. P2Quando voltei a comer carne, me senti melhor.
  3. P3Ninguém tem a obrigação de seguir uma dieta que lhe faz mal.
  4. CLogo, eu não tenho a obrigação de ser vegano.

P1 e P2 podem ser verdadeiras. P3 é verdadeira. O problema é o salto entre elas: P1 e P2 não mostram que o mal-estar vinha da falta de produtos animais, e não de comer pouco, de falta de B12 ou de um cardápio mal montado. E, mesmo que a pessoa precisasse de algum ajuste, isso não mostraria que ela precisa de todos os produtos animais que consome hoje.

O argumento é válido, mas não é sólido: a conclusão depende de uma causa que não foi investigada.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento tira uma conclusão geral de uma experiência que não foi investigada:

    O que a pessoa observaO que costuma concluirO que a observação permite concluir
    Senti cansaço sendo veganoA carne faz faltaAlgo na dieta precisava de ajuste
    Melhorei ao voltar a comer carneA carne era necessáriaVoltei a comer mais, e de forma mais familiar
    Outras pessoas também desistemO veganismo não funcionaMudar é difícil sem apoio (L10)
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. A causa raramente é investigada.

    Quem muda de dieta sem orientação costuma comer menos calorias, porque alimentos vegetais tendem a ser menos densos em energia, e menos proteína, se apenas tira a carne do prato sem colocar leguminosas no lugar. Falta de B12 e de ferro também causa cansaço. Tudo isso se resolve com planejamento e, no caso da B12, com suplemento.

    2. Melhorar ao voltar não prova a causa.

    Quem volta à dieta antiga também volta a comer mais e a comer o que já conhece. A melhora pode vir disso, e não da carne em si. Sem exames antes e depois, não há como saber.

    3. As entidades de nutrição dizem o contrário da conclusão.

    A posição da Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos (2016) afirma que dietas vegetarianas e veganas bem planejadas são saudáveis e adequadas em todas as fases da vida. Isso não quer dizer que qualquer dieta vegana seja boa, e sim que o problema está no planejamento.

    4. A desistência é comum, e o apoio é raro.

    Na pesquisa da Faunalytics, 84% dos ex-vegetarianos e ex-veganos não participavam de nenhum grupo ou organização, e um terço desistiu nos três primeiros meses. É o período em que o corpo e a rotina ainda estão se ajustando, e em que mais se precisa de orientação.

    5. Casos raros existem, e pedem ajuste, e não abandono.

    Há pessoas com condições de saúde que tornam a dieta mais difícil, como doenças intestinais ou alergias a vários alimentos vegetais. Mesmo nesses casos, o ponto é reduzir ao máximo o dano, e não voltar a consumir tudo como antes.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Faunalytics, 201484% dos vegetarianos e veganos abandonam a dieta; 34% em até três meses, 53% em menos de um ano. Motivos: insatisfação com a comida (32%), saúde (26%), questões sociais (13%), inconveniência (13%)Pesquisa feita em 2014 nos Estados Unidos
    Faunalytics, 201484% dos ex-vegetarianos e ex-veganos não participavam de grupos ou organizações; 37% têm interesse em voltar
    Melina, Craig e Levin, 2016Dietas vegetarianas e veganas bem planejadas são adequadas em todas as fases da vidaPosição da Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos
  4. d

    A melhor réplica: eu sei o que senti, e ninguém pode me dizer o contrário

    A versão mais séria diz: a pessoa conhece o próprio corpo melhor que qualquer pesquisa. Se ela se sentiu mal e melhorou ao mudar, é razoável confiar na própria experiência.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ninguém nega o que a pessoa sentiu.

    O que se discute é a causa. Sentir algo é um dado; explicar por que se sentiu exige investigação.

    A experiência pessoal engana sobre causas.

    Por isso a medicina usa exames e estudos controlados: duas coisas que acontecem juntas nem sempre têm relação de causa.

    A experiência de milhões de veganos saudáveis também conta.

    Se a experiência pessoal valesse como prova, a deles também valeria.

  6. f

    De volta à questão moral

    Mesmo que uma pessoa precisasse de algum alimento de origem animal, a pergunta continuaria a mesma: é justo fazer animais sofrerem e morrerem quando se pode evitar? A necessidade, se for real, justifica o mínimo necessário, e não tudo o que se consumia antes. E, para a grande maioria das pessoas, com orientação, a necessidade não existe.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falsa causa
Atribui o mal-estar à falta de carne sem investigar outras causas

Epistemológico

A evidência sustenta?

Evidência anedótica
Usa um caso pessoal contra o que dizem as revisões e as entidades de nutrição
Generalização apressada
Conclui que o veganismo não funciona a partir de uma tentativa sem orientação

Moral

O critério é coerente?

Da necessidade parcial ao consumo total
Uma eventual necessidade justificaria o mínimo, e não tudo

Vieses

Viés de confirmação

A explicação que permite voltar ao hábito é aceita sem exame

Ligado a G11

Racionalização pelos 4Ns

"Necessário" e "natural" justificam a volta

Piazza et al., 2015

Viés do status quo

A dieta antiga parece o estado normal do corpo

Samuelson e Zeckhauser, 1988

Extrapolações

O princípio testado é: "se me senti mal ao mudar um hábito, o hábito antigo era necessário".

Se valesse para…Parar de fumarToque para ver

Quem sente abstinência precisaria de cigarro

A abstinência passa

Se valesse para…Começar a fazer exercíciosToque para ver

Quem sente dor nos primeiros dias deveria parar

O corpo se adapta

Se valesse para…Qualquer dieta novaToque para ver

Nenhuma mudança alimentar seria possível

Toda mudança exige ajuste

Contradições

Procuraria um médico por qualquer outro mal-estar.

Mas aceitou a primeira explicação quando ela permitia voltar ao hábito antigo.

Admite que os animais importam, tanto que tentou.

Mas a dificuldade passou a valer como prova de que eles não importam tanto.

Diz que conhece o próprio corpo.

Mas não sabe, com exames, o que faltava.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que o mal-estar é real, que ninguém deve seguir uma dieta que faz mal e que muitas pessoas tentam o veganismo sem nenhuma orientação. Também acerta que os veganos às vezes subestimam essa dificuldade, ou respondem com desconfiança a quem conta que passou mal.

Mas

Mas sentir-se mal é motivo para investigar e ajustar, e não para concluir que os animais deixaram de importar. A melhor resposta a quem passou mal é oferecer ajuda: exames, um nutricionista e receitas que funcionem.

Conexões

Costuma vir antes

C11 Temos vontade natural de carneA vontade de comer carne é lida como sinal do corpo
N1este argumento

Costuma vir depois

G11 Meu corpo não se adaptaA experiência pessoal vira afirmação sobre o corpo
G10 Conheço alguém que adoeceu sendo veganoO caso pessoal passa a ser contado como prova
G16 Veganos são fracos, pálidos e deprimidosDo caso pessoal passa-se a uma generalização
L10 A maioria dos veganos desisteA desistência pessoal é somada às dos outros

Referências