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"Povos indígenas e tradicionais comem animais."
o argumento usa quem não tem alternativa para justificar quem tem. O veganismo nunca exigiu o impossível: sua definição clássica fala em evitar a exploração dos animais "na medida do possível e praticável". O que vale para um povo isolado no Ártico ou na floresta não vale para quem escolhe no supermercado.
Nota: este capítulo também responde a "E os inuítes, que não têm alternativa?", que foi unido a ele.
Resposta curta
O veganismo nunca pediu o impossível: sua definição clássica fala em evitar a exploração dos animais "na medida do possível e praticável". Um povo isolado que depende da caça para sobreviver está numa situação completamente diferente de quem compra carne no supermercado. Usar esses povos para justificar o próprio prato é usar quem não tem escolha para desculpar quem tem.
Para crianças
Algumas pessoas vivem em lugares muito frios ou distantes, onde quase não crescem plantas e não existem mercados. Para elas, caçar pode ser a única forma de sobreviver. Mas a maioria de nós vive perto de mercados cheios de comida. A pergunta não é sobre quem não tem escolha, é sobre o que a gente faz quando tem.
"Você vive na situação desses povos, ou tem um supermercado perto de casa?"
Como pode aparecer
"E os povos originários?"
"Vai dizer aos indígenas que estão errados?"
"E quem vive no Ártico?"
"Nem todo lugar tem supermercado."
"Veganismo é colonialista."
"O veganismo universaliza uma ética urbana e ocidental."
"É cultural, criticar é etnocentrismo." (que é D2)
A versão mais forte
"E os povos originários? Vai dizer aos indígenas que estão errados? E os inuítes, que não têm alternativa?"
Versão mais forte (steelman):
- P1Povos indígenas e tradicionais comem animais há milhares de anos, muitas vezes de forma integrada ao ambiente.
- P2Seria injusto e colonialista condenar esses povos.
- P3Se comer animais não é errado para eles, não pode ser errado em si.
- CLogo, comer animais não é errado.
P1 e P2 são verdadeiras em grande medida. O problema está em P3: o que torna aceitável a situação desses povos é justamente o que falta a quem usa o argumento.
O argumento é válido. A solidez falha em P3, que generaliza a partir de casos excepcionais.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento compara situações muito diferentes:
Situação Alternativas reais Responsabilidade Povo isolado que depende da caça ou da pesca para sobreviver Poucas ou nenhuma Muito reduzida Morador urbano com acesso a mercados Muitas Plena O argumento usa o primeiro caso para concluir sobre o segundo. É uma generalização do acidente: uma exceção vira regra.
- b
Onde o argumento quebra
1. O veganismo já prevê a exceção.
A definição da Vegan Society fala em evitar a exploração "na medida do possível e praticável". Quem não tem alternativa não está violando essa definição.
2. Quem usa o argumento costuma não estar nessa situação.
Em geral, ele é usado por pessoas urbanas, com supermercados e alternativas, que não vivem como os povos que citam. Para elas, a situação daqueles povos não muda a pergunta.
3. Esses povos não praticam pecuária industrial.
Mesmo quando comem animais, povos tradicionais em geral não confinam bilhões de animais, não os selecionam para crescer até sofrer e não os abatem em linhas de produção. A comparação não serve para defender o sistema de onde vem a carne do supermercado.
4. Muitos povos tradicionais têm práticas de respeito aos animais.
Tradições indígenas variam muito, e várias incluem limites, rituais e reconhecimento da vida animal. Tratar todos esses povos como prova de que "comer animais é normal" também é uma simplificação.
5. A questão não é condenar esses povos.
O veganismo se dirige a quem pode escolher. Não há contradição entre respeitar quem vive em condições extremas e pedir mudança a quem não vive.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação The Vegan Society, definição de veganismo O veganismo busca excluir, "na medida do possível e praticável", todas as formas de exploração e crueldade com os animais Definição clássica usada pelo movimento - d
A melhor réplica: o veganismo deveria então ser relativo
A versão mais séria diz que, se o veganismo admite exceções para alguns povos, ele não é uma obrigação moral universal, mas uma escolha que depende do contexto, e então cada um pode decidir onde está a sua exceção.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Toda ética admite exceções por necessidade.
Matar em legítima defesa não torna o homicídio uma escolha pessoal.
A exceção depende de fatos, não de preferências.
Ou há alternativa razoável ou não há. Para quem tem um supermercado, há.
Ser sensível ao contexto não é ser relativo.
O princípio é o mesmo para todos; o que muda é o que é possível.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Generalização do acidente
Falsa analogia
Epistemológico
A evidência sustenta?
Simplificação de culturas
Moral
O critério é coerente?
Escudo alheio
Vieses
Raciocínio motivado
Um caso distante serve para dispensar a mudança próxima
Literatura geral sobre cognição motivada
Extrapolações
O princípio testado é: "se algo é aceitável para quem não tem alternativa, é aceitável para todos".
Se valesse para…Furto por fomeToque para ver
Furtar seria aceitável para qualquer pessoa
Ninguém aceita
Se valesse para…Legítima defesaToque para ver
Qualquer violência seria aceitável
Ninguém aceita
Se valesse para…Desmatamento para sobrevivênciaToque para ver
Grandes empresas poderiam desmatar livremente
Ninguém aceita
Contradições
Nem na alimentação, nem em mais nada.
Muitas vezes, o mesmo argumento aparece em quem não apoia a demarcação de terras indígenas.
A comparação não descreve o que a pessoa faz.
O que o argumento acerta
O que é verdade
A preocupação com povos indígenas e tradicionais é legítima. O veganismo não deve ser usado para julgar quem vive em condições de escassez, e muitos desses povos têm relações com a natureza mais respeitosas que as da sociedade industrial. Ignorar isso seria arrogância.
Mas
Mas respeitar esses povos não é usá-los como escudo. O que torna compreensível a situação deles é a falta de alternativa, e isso é justamente o que não falta a quem faz a pergunta.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois