Guia de Argumentação
Pelos Animais

Início / B. Dano, morte e bem-estar / Parte DIR

B9

"Esses vídeos são exceções ou manipulados."

A resposta em uma frase

muito do que aparece nos vídeos de granjas e abatedouros não é exceção, é o padrão permitido pelas normas: celas de gestação, aves penduradas conscientes, descarte de pintinhos, castração sem anestesia. Quando há abuso além da norma, ele é revelado justamente por essas gravações. E a reação de parte da indústria não foi provar que os vídeos mentem, mas tentar proibir que sejam feitos.

Resposta curta

Parte do que aparece nos vídeos é abuso, e parte é exatamente o que as normas permitem: celas de gestação, aves penduradas conscientes antes do atordoamento, descarte de pintinhos machos, castração sem anestesia até o fim do prazo da norma. Isso não é exceção; é o padrão legal. E, quando há abuso, foram esses vídeos que o revelaram. Nos Estados Unidos, vários estados tentaram proibir as gravações, e tribunais derrubaram essas leis.

Para crianças

Às vezes alguém mostra uma foto e diz que todo mundo é assim, e não é verdade. Mas muitos vídeos de fazendas mostram coisas que são permitidas e acontecem todo dia, como porcas presas em espaços apertados e pintinhos machos sendo descartados. Isso não é exceção: é o jeito normal de produzir. Por isso é importante olhar com atenção, e não só fechar os olhos.

Devolva com uma pergunta

"Se o padrão é bom, por que tentar proibir que ele seja filmado?"

Como pode aparecer

"Isso é vídeo de outro país."
Conversa cotidiana
"Filmaram o pior caso."
Conversa cotidiana
"É propaganda de ONG."
Conversa cotidiana
"Vídeo editado para chocar."
Redes sociais
"Você acredita em tudo o que vê na internet?"
Pergunta retórica
"Casos isolados não representam o setor."
Versão técnica
"Não quero ver esses vídeos." (que é E7)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Esse vídeo é de outro país. Filmaram o pior caso. É propaganda de ONG."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Organizações de defesa animal têm interesse em mostrar o pior.
  2. P2Vídeos podem ser editados, descontextualizados ou feitos em locais atípicos.
  3. P3A maioria dos produtores segue as normas e trata bem os animais.
  4. CLogo, os vídeos não representam a realidade da produção.

P1 e P2 são verdadeiras: imagens podem enganar, e quem as divulga tem um ponto de vista. O problema está em P3, que supõe que seguir a norma significa tratar bem, e na conclusão, que descarta todos os vídeos por causa dos piores.

O argumento é válido. A solidez falha porque grande parte do que os vídeos mostram é prática legal e padrão (B8), e não violação.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento trata todo vídeo como se mostrasse uma violação. Mas os vídeos mostram dois tipos de coisa:

    O que o vídeo mostraÉ exceção?Exemplo
    Prática permitida pela normaNão, é o padrãoCelas de gestação no início da prenhez, cuba de imersão para aves, descarte de pintinhos (B7, B8)
    Abuso além da normaSim, mas recorrenteAgressões, falhas de atordoamento não corrigidas

    O primeiro tipo não pode ser descartado como exceção. O segundo, quando aparece repetidamente em locais diferentes, também deixa de ser.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O padrão legal é o que choca.

    Muitas cenas que parecem abuso são práticas permitidas pelas normas brasileiras, como mostra o capítulo B8. Dizer que são exceções é desconhecer o que a lei autoriza.

    2. As investigações revelam o que a inspeção não vê.

    A inspeção oficial não acompanha cada animal a cada momento. Gravações feitas por trabalhadores e investigadores mostram o que acontece longe dos olhos, e várias já levaram a fechamentos e processos.

    3. A reação da indústria é reveladora.

    Nos Estados Unidos, vários estados aprovaram as chamadas leis ag-gag, que criminalizavam gravações em instalações de produção animal. Tribunais derrubaram leis desse tipo em Idaho, Iowa, Kansas, Utah, Wyoming e Carolina do Norte por violarem a liberdade de expressão. Quem tem um padrão bom a mostrar não precisa proibir que ele seja filmado.

    4. O ônus é de quem nega.

    Se os vídeos são manipulados, bastaria abrir as granjas e os abatedouros para mostrar o contrário. As leis ag-gag mostram que, em vários lugares, a resposta escolhida foi a oposta.

    5. A dúvida costuma ser seletiva.

    Dizer que os vídeos são exceções muitas vezes vem junto com a recusa de ver como é a produção comum do que se consome (E7).

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Animal Legal and Historical Center, leis *ag-gag*Panorama das leis americanas que criminalizavam gravações em instalações agrícolas e das decisões judiciais contra elasCentro de estudos jurídicos da Michigan State University
    Instrução Normativa MAPA nº 113/2020Admite celas de gestação no início da prenhez e dá prazo até 2030 para anestesia obrigatória na castração cirúrgicaMostra que parte do que choca é legal
    Portaria SDA/MAPA nº 365/2021Permite a cuba de imersão para aves penduradas e o abate religioso sem atordoamentoUsado também em B1
  4. d

    A melhor réplica: o viés de seleção é real

    A versão mais séria admite que as práticas mostradas existem, mas diz que os vídeos escolhem os piores momentos, que uma granja passa a maior parte do tempo sem nenhum evento chocante, e que julgar um setor inteiro por alguns minutos de imagens é injusto.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    As práticas padrão não dependem do momento.

    Uma porca numa cela de gestação passa ali o tempo inteiro, e não só nos minutos filmados.

    A escala torna o raro comum.

    Com bilhões de animais por ano, mesmo uma prática rara acontece milhões de vezes (B1).

    A solução para o viés é mais transparência.

    Se a seleção de imagens distorce, o remédio seria mostrar tudo, e não proibir a gravação.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Ad hominem
Desqualifica quem filmou em vez de discutir o que foi filmado
Generalização às avessas
Usa os vídeos mais extremos para descartar também os que mostram o padrão

Epistemológico

A evidência sustenta?

Desconhecimento das normas
Supõe que o que choca é ilegal

Moral

O critério é coerente?

Ignorância deliberada
Prefere duvidar a verificar

Vieses

Ignorância deliberada

Evitar informação que geraria obrigação

Ligado a E7

Justificação do sistema

A produção oficial parece correta por ser oficial

Ligado a B8

Viés de confirmação

Aceita só as informações que confirmam que está tudo bem

Literatura geral sobre viés de confirmação

Paradoxo da carne

Desacreditar a imagem alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Extrapolações

O princípio testado é: "imagens de dano produzidas por quem denuncia não contam".

Se valesse para…Denúncias de trabalho escravoToque para ver

Seriam descartadas por virem de fiscais e jornalistas

Ninguém aceita

Se valesse para…Violência policial filmadaToque para ver

Seria desconsiderada como "caso isolado" por princípio

É o tipo de argumento que se critica nesses casos

Se valesse para…Maus-tratos a cãesToque para ver

Gravações seriam suspeitas por virem de ativistas

Servem como prova em processos

Contradições

Acredita em vídeos que denunciam outros abusos.

A mesma pessoa aceita gravações escondidas que revelam corrupção ou maus-tratos a pessoas.

Não verifica o padrão que defende.

Diz que os vídeos são exceção sem saber como é a regra.

Aceitaria a abertura das granjas?

Se o padrão é bom, a transparência total deveria ser bem-vinda.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Ceticismo diante de imagens é saudável: vídeos podem ser editados, descontextualizados ou escolhidos a dedo, e quem os divulga tem um objetivo. Também é verdade que muitos produtores se esforçam para tratar bem os animais e que é injusto acusar todos pelo pior.

Mas

Mas o ceticismo precisa valer para os dois lados. O que muitos vídeos mostram não é a exceção ilegal, e sim a regra permitida. E a melhor forma de provar que as imagens enganam seria mostrar tudo, e não esconder.

Conexões

Costuma vir antes

E7 Não quero ver esses vídeos.Diz que os vídeos são exceções
B8 A legislação garante o bem-estar.Diante das imagens, afirma-se que o padrão é outro
B9este argumento

Costuma vir depois

B1 Existe abate humanitário.Se as imagens são reais, alega-se que o padrão é o abate humanitário
E7 Não quero ver esses vídeos.Quando os vídeos são inegáveis, evita-se vê-los

Referências