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"Vou pagar pelos meus erros na próxima vida"
a frase admite que comer animais é um erro, e só adia a consequência para quem come. Mas quem paga agora é o animal, e nenhuma conta futura desfaz o que ele sofreu. Além disso, as tradições que falam de carma e de renascimento costumam ensinar o contrário do que a frase sugere: a não violência (ahimsa) é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo, e o primeiro preceito budista proíbe tirar a vida de qualquer ser senciente, inclusive animais. O carma é um motivo para evitar o dano, e não uma licença para causá-lo.
Resposta curta
Você está dizendo que é um erro, e eu concordo. Mas quem paga agora é o animal, e nenhuma conta futura desfaz o que ele sofreu. E as tradições que falam de carma e renascimento ensinam justamente a não violência contra todos os seres: no budismo, o primeiro preceito é não tirar a vida de nenhum ser senciente, inclusive animais. O carma é uma razão para parar, e não para continuar.
Para crianças
Algumas pessoas acreditam que, quando fazemos algo errado, um dia isso volta para nós. Mas, enquanto isso, quem sofre é o animal. Pagar depois não tira a dor que ele sentiu. O melhor é não fazer o erro, e não guardar a conta para depois.
"Se é um erro que você vai pagar, por que não parar de cometê-lo agora?"
Como pode aparecer
"Vou pagar na próxima encarnação."
"Isso é entre mim e o meu carma."
"Deus vai me julgar, não você."
"Cada um colhe o que planta."
"Sei que é errado, mas não vou mudar." (que é E12)
"Minha religião aprova o consumo de animais." (que é D11)
A versão mais forte
"Eu sei que comer carne não é certo. Vou pagar pelos meus erros na próxima vida."
Versão mais forte (steelman):
- P1Toda ação errada tem uma consequência para quem a pratica, nesta vida ou em outra.
- P2Se eu aceito pagar essa consequência, a escolha é minha.
- CLogo, posso continuar comendo animais, desde que aceite as consequências.
P1 é uma crença religiosa que muitos têm. O problema está em P2: a escolha não afeta só quem escolhe. O animal sofre e morre agora, e o fato de alguém aceitar pagar depois não muda nada para ele. Uma dívida não autoriza a fazer o dano.
O argumento é válido, mas não é sólido: P2 trata como assunto pessoal um dano feito a outro.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
A frase concede o ponto moral e muda de assunto:
O que a frase admite O que ela muda O que fica de fora Comer animais é um erro A pergunta passa a ser sobre a consequência para quem come O dano que o animal sofre agora - b
Onde o argumento quebra
1. A frase admite o erro.
Ninguém espera pagar por algo certo. Como em E12, o ponto moral já foi concedido, e o que resta é a decisão de agir.
2. Quem paga agora é o animal.
A dívida de quem come é futura e incerta. O sofrimento do animal é presente e real. Aceitar pagar depois não autoriza a causar o dano, assim como aceitar ir preso não autoriza a roubar.
3. As tradições do carma ensinam a não violência.
A ahimsa, a não violência contra todos os seres vivos, é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo. No budismo, o primeiro dos cinco preceitos é não tirar a vida de nenhum ser senciente, e ele inclui os animais. No jainismo, a não violência é o princípio mais importante e leva ao vegetarianismo rigoroso.
4. Honestidade sobre a tradição.
Nem todas essas tradições exigem vegetarianismo. Nos textos budistas antigos, o Buda aceitava a comida oferecida, inclusive carne, desde que o animal não tivesse sido morto para ele, e os monges theravada seguem essa regra até hoje. Mas a regra era sobre aceitar esmolas, e não sobre comprar carne, e sutras mahayana posteriores condenam comer carne. Em nenhuma dessas tradições, saber que se está errando é uma licença para continuar.
5. O carma é sobre a intenção.
Em muitas leituras budistas, o que pesa no carma é a intenção (cetanā). Escolher continuar algo que se sabe errado, sabendo que causa sofrimento, é justamente o tipo de intenção que essas tradições ensinam a evitar.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Five precepts O primeiro preceito budista proíbe tirar a vida de humanos e de todos os animais Em inglês Ahimsa A não violência contra todos os seres vivos é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo Ahimsa in Jainism A não violência é o princípio central do jainismo Em inglês Buddhist vegetarianism Monges theravada aceitam carne oferecida, salvo se o animal foi morto para eles; sutras mahayana condenam comer carne Em inglês Carma O carma liga a intenção e a ação às suas consequências - d
A melhor réplica: a minha fé diz que a justiça vem depois, e não cabe a você julgar
A versão mais séria diz: na minha crença, a justiça é cósmica ou divina, e cada um responde pelos próprios atos. Ninguém precisa cobrar ninguém aqui; a conta será feita no tempo certo.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Ninguém está julgando a pessoa.
A conversa é sobre o animal, que sofre agora, e não sobre o destino de quem come.
A justiça futura não protege o animal presente.
Mesmo que a conta seja feita depois, o dano já terá acontecido.
As próprias crenças pedem que se evite o erro.
Nenhuma tradição ensina que, por haver punição depois, é aceitável errar agora.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de assunto
Moral
O critério é coerente?
Esquecer o afetado
Acrasia
Vieses
Extrapolações
O princípio testado é: "posso fazer algo que sei que é errado, desde que aceite pagar por isso depois".
Se valesse para…RouboToque para ver
Quem aceita ir preso poderia roubar
Absurdo
Se valesse para…AgressãoToque para ver
Quem aceita o castigo poderia agredir
Absurdo
Se valesse para…Qualquer danoToque para ver
Bastaria aceitar a punição para tornar o dano aceitável
A punição não desfaz o dano
Contradições
Mas continua.
Mas usa a crença para justificar o que ela condena.
Mas a consequência imediata é de outro.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta ao admitir o erro, o que é mais honesto que negá-lo. Também acerta que as ações têm consequências, e que a fé de cada um merece respeito.
Mas
Mas, se é um erro, o melhor momento para pará-lo é agora. As tradições que falam de carma são, quase todas, tradições de não violência.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois