Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / D. Tradição, cultura e religião / Parte DIR

D12

"Vou pagar pelos meus erros na próxima vida"

A resposta em uma frase

a frase admite que comer animais é um erro, e só adia a consequência para quem come. Mas quem paga agora é o animal, e nenhuma conta futura desfaz o que ele sofreu. Além disso, as tradições que falam de carma e de renascimento costumam ensinar o contrário do que a frase sugere: a não violência (ahimsa) é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo, e o primeiro preceito budista proíbe tirar a vida de qualquer ser senciente, inclusive animais. O carma é um motivo para evitar o dano, e não uma licença para causá-lo.

Resposta curta

Você está dizendo que é um erro, e eu concordo. Mas quem paga agora é o animal, e nenhuma conta futura desfaz o que ele sofreu. E as tradições que falam de carma e renascimento ensinam justamente a não violência contra todos os seres: no budismo, o primeiro preceito é não tirar a vida de nenhum ser senciente, inclusive animais. O carma é uma razão para parar, e não para continuar.

Para crianças

Algumas pessoas acreditam que, quando fazemos algo errado, um dia isso volta para nós. Mas, enquanto isso, quem sofre é o animal. Pagar depois não tira a dor que ele sentiu. O melhor é não fazer o erro, e não guardar a conta para depois.

Devolva com uma pergunta

"Se é um erro que você vai pagar, por que não parar de cometê-lo agora?"

Como pode aparecer

"Vou pagar na próxima encarnação."
Conversa cotidiana
"Isso é entre mim e o meu carma."
Conversa cotidiana
"Deus vai me julgar, não você."
Conversa cotidiana
"Cada um colhe o que planta."
Redes sociais
"Sei que é errado, mas não vou mudar." (que é E12)
Versão honesta
"Minha religião aprova o consumo de animais." (que é D11)
Versão religiosa

A versão mais forte

Como se diz

"Eu sei que comer carne não é certo. Vou pagar pelos meus erros na próxima vida."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Toda ação errada tem uma consequência para quem a pratica, nesta vida ou em outra.
  2. P2Se eu aceito pagar essa consequência, a escolha é minha.
  3. CLogo, posso continuar comendo animais, desde que aceite as consequências.

P1 é uma crença religiosa que muitos têm. O problema está em P2: a escolha não afeta só quem escolhe. O animal sofre e morre agora, e o fato de alguém aceitar pagar depois não muda nada para ele. Uma dívida não autoriza a fazer o dano.

O argumento é válido, mas não é sólido: P2 trata como assunto pessoal um dano feito a outro.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    A frase concede o ponto moral e muda de assunto:

    O que a frase admiteO que ela mudaO que fica de fora
    Comer animais é um erroA pergunta passa a ser sobre a consequência para quem comeO dano que o animal sofre agora
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. A frase admite o erro.

    Ninguém espera pagar por algo certo. Como em E12, o ponto moral já foi concedido, e o que resta é a decisão de agir.

    2. Quem paga agora é o animal.

    A dívida de quem come é futura e incerta. O sofrimento do animal é presente e real. Aceitar pagar depois não autoriza a causar o dano, assim como aceitar ir preso não autoriza a roubar.

    3. As tradições do carma ensinam a não violência.

    A ahimsa, a não violência contra todos os seres vivos, é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo. No budismo, o primeiro dos cinco preceitos é não tirar a vida de nenhum ser senciente, e ele inclui os animais. No jainismo, a não violência é o princípio mais importante e leva ao vegetarianismo rigoroso.

    4. Honestidade sobre a tradição.

    Nem todas essas tradições exigem vegetarianismo. Nos textos budistas antigos, o Buda aceitava a comida oferecida, inclusive carne, desde que o animal não tivesse sido morto para ele, e os monges theravada seguem essa regra até hoje. Mas a regra era sobre aceitar esmolas, e não sobre comprar carne, e sutras mahayana posteriores condenam comer carne. Em nenhuma dessas tradições, saber que se está errando é uma licença para continuar.

    5. O carma é sobre a intenção.

    Em muitas leituras budistas, o que pesa no carma é a intenção (cetanā). Escolher continuar algo que se sabe errado, sabendo que causa sofrimento, é justamente o tipo de intenção que essas tradições ensinam a evitar.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Five preceptsO primeiro preceito budista proíbe tirar a vida de humanos e de todos os animaisEm inglês
    AhimsaA não violência contra todos os seres vivos é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo
    Ahimsa in JainismA não violência é o princípio central do jainismoEm inglês
    Buddhist vegetarianismMonges theravada aceitam carne oferecida, salvo se o animal foi morto para eles; sutras mahayana condenam comer carneEm inglês
    CarmaO carma liga a intenção e a ação às suas consequências
  4. d

    A melhor réplica: a minha fé diz que a justiça vem depois, e não cabe a você julgar

    A versão mais séria diz: na minha crença, a justiça é cósmica ou divina, e cada um responde pelos próprios atos. Ninguém precisa cobrar ninguém aqui; a conta será feita no tempo certo.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Ninguém está julgando a pessoa.

    A conversa é sobre o animal, que sofre agora, e não sobre o destino de quem come.

    A justiça futura não protege o animal presente.

    Mesmo que a conta seja feita depois, o dano já terá acontecido.

    As próprias crenças pedem que se evite o erro.

    Nenhuma tradição ensina que, por haver punição depois, é aceitável errar agora.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Mudança de assunto
Passa do dano ao animal para a consequência para quem come

Moral

O critério é coerente?

Esquecer o afetado
Trata como dívida pessoal um dano feito a outro
Acrasia
Admite o erro e decide continuar

Vieses

Raciocínio motivado

A crença é usada para aliviar a culpa

Ligado a E12

Dissociação

O animal some da conversa

Benningstad e Kunst, 2020

Extrapolações

O princípio testado é: "posso fazer algo que sei que é errado, desde que aceite pagar por isso depois".

Se valesse para…RouboToque para ver

Quem aceita ir preso poderia roubar

Absurdo

Se valesse para…AgressãoToque para ver

Quem aceita o castigo poderia agredir

Absurdo

Se valesse para…Qualquer danoToque para ver

Bastaria aceitar a punição para tornar o dano aceitável

A punição não desfaz o dano

Contradições

Admite que é um erro.

Mas continua.

Acredita no carma.

Mas usa a crença para justificar o que ela condena.

Diz que a escolha é sua.

Mas a consequência imediata é de outro.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta ao admitir o erro, o que é mais honesto que negá-lo. Também acerta que as ações têm consequências, e que a fé de cada um merece respeito.

Mas

Mas, se é um erro, o melhor momento para pará-lo é agora. As tradições que falam de carma são, quase todas, tradições de não violência.

Conexões

Costuma vir antes

D11 Minha religião aprova o consumo de animaisA questão é entregue à religião
E12 Sei que é errado, mas não vou mudarO erro é admitido, e a mudança é recusada
D12este argumento

Costuma vir depois

D4 Deus nos deu domínio sobre os animaisA justiça divina é usada para encerrar a conversa
E1 É minha escolha pessoal, não imponha sua moralO dano ao animal é tratado como assunto pessoal

Referências