Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / D. Tradição, cultura e religião / Parte DIR

D11

"Minha religião aprova o consumo de animais"

A resposta em uma frase

permitir não é obrigar. Muitas religiões permitem comer animais, mas nenhuma das grandes tradições obriga a fazê-lo, e quase todas proíbem o sofrimento desnecessário. O Catecismo da Igreja Católica diz que é contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem inutilmente; o judaísmo tem o mandamento de não causar sofrimento desnecessário aos animais (tza'ar ba'alei chayim); a tradição islâmica exige afiar a lâmina para poupar o animal. E há correntes vegetarianas dentro de várias religiões. A pecuária industrial dificilmente passaria nesses próprios critérios.

Resposta curta

Permitir não é obrigar. Sua religião permite comer animais, mas não obriga ninguém a comer. E a maioria das religiões também proíbe o sofrimento desnecessário: o Catecismo católico diz que é contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem inutilmente. Hoje, o sofrimento dos animais nas fazendas é, quase todo, desnecessário. Muitos religiosos, de várias tradições, escolhem não comer animais justamente por causa da fé.

Para crianças

Muitas religiões dizem que é permitido comer animais. Mas quase todas também dizem que não se deve fazer os animais sofrerem à toa. Hoje, muitos animais sofrem muito nas fazendas. Algumas pessoas religiosas acham que o jeito mais bonito de seguir a fé é não comer animais.

Devolva com uma pergunta

"Sua religião aprova fazer os animais sofrerem quando isso pode ser evitado?"

Como pode aparecer

"Minha religião permite."
Conversa cotidiana
"Se Deus não quisesse que a gente comesse, não teria feito os animais de carne."
Conversa cotidiana
"Na minha religião, o animal é sacrificado com respeito."
Conversa cotidiana
"Veganismo vai contra a Bíblia."
Redes sociais
"Deus nos deu domínio sobre os animais." (que é D4)
Versão bíblica
"Jesus comeu peixe." (que é D5)
Versão de exemplo

A versão mais forte

Como se diz

"Minha religião permite comer carne. Se Deus permitiu, não tem nada de errado."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Minha religião é uma fonte confiável sobre o que é certo e errado.
  2. P2Minha religião permite comer animais.
  3. P3O que é permitido por uma fonte confiável não é errado.
  4. CLogo, comer animais não é errado.

P2 é verdadeira para muitas religiões. O problema está em duas coisas: as mesmas religiões que permitem comer animais também impõem limites, como não causar sofrimento desnecessário, que a produção atual dificilmente cumpre. E P1, sendo uma premissa de fé, não pode ser exigida de quem não a compartilha.

O argumento é válido. A solidez falha porque a permissão vem acompanhada de condições, e a premissa P1 vale só para quem tem a mesma fé.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento lê uma permissão como se fosse um aval sem condições:

    O que a tradição dizO que o argumento concluiO que a tradição também diz
    É permitido comer animaisQualquer forma de produção é aceitávelÉ proibido o sofrimento desnecessário
    O ser humano pode se servir dos animaisOs animais não importamOs animais são criaturas de Deus e devem ser respeitados
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Permissão não é obrigação.

    Uma religião que permite comer animais também permite não comer. Escolher não comer não contraria nenhuma das grandes tradições.

    2. As próprias tradições proíbem o sofrimento desnecessário.

    O Catecismo da Igreja Católica afirma que é legítimo servir-se dos animais para alimentação, mas que é contrário à dignidade humana fazê-los sofrer inutilmente (§2417–2418). No judaísmo, o tza'ar ba'alei chayim é o mandamento que proíbe causar sofrimento desnecessário aos animais, considerado de origem bíblica e rabínica. Na tradição islâmica, quem abate deve afiar a lâmina para poupar o animal, e uma narração atribuída a Maomé diz que há recompensa por fazer o bem a qualquer ser vivo.

    3. A produção atual dificilmente cumpre esses critérios.

    Confinamento extremo, mutilações sem anestesia, seleção genética que causa dor e abates em ritmo industrial. Se o sofrimento que pode ser evitado é inútil, e quase todo ele pode ser evitado, as próprias tradições têm razões para rejeitar a maior parte dessa produção.

    4. Há correntes vegetarianas dentro de várias religiões.

    O jainismo tem a não violência (ahimsa) contra todos os seres vivos como princípio central. Muitos hindus são vegetarianos. Os adventistas do sétimo dia recomendam a dieta vegetariana, e muitos a seguem. Alguns sutras budistas mahayana condenam comer carne, e boa parte dos monges e leigos mahayana é vegetariana. Há também cristãos, judeus e muçulmanos vegetarianos e veganos.

    5. Argumentos públicos precisam de razões que todos possam avaliar.

    Para quem tem a mesma fé, a tradição é uma razão. Para quem não tem, não é. Por isso, numa conversa entre pessoas de crenças diferentes, a questão precisa ser discutida também em termos que todos aceitem, como o sofrimento dos animais.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Catecismo da Igreja Católica, §2415–2418É legítimo usar os animais para alimentação, mas é contrário à dignidade humana fazê-los sofrer inutilmente e dispor indiscriminadamente das suas vidasTexto oficial no site do Vaticano
    Tza'ar ba'alei chayimMandamento judaico que proíbe causar sofrimento desnecessário aos animais; o Talmude o deriva de Êxodo 23:5Em inglês
    Animals in IslamMuçulmanos devem afiar a lâmina para que o animal não sinta dor; há recompensa por fazer o bem a qualquer ser vivoEm inglês
    AhimsaA não violência contra todos os seres vivos é virtude central no jainismo, no hinduísmo e no budismo
    Buddhist vegetarianismSutras mahayana, como o Laṅkāvatāra, condenam comer carne; monges theravada aceitam carne oferecida, salvo se o animal foi morto para elesEm inglês; mostra as diferenças entre correntes
    Adventist Health StudiesEstudos de saúde com adventistas, entre eles vegetarianos e veganosEm inglês
  4. d

    A melhor réplica: o sacrifício e o consumo de animais estão no centro da minha tradição

    A versão mais séria diz: em algumas tradições, o abate ritual e o consumo de animais em datas sagradas são parte da prática religiosa, e não só uma permissão. Pedir que deixem de existir é pedir que a fé mude.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Mesmo nesses casos, o consumo ritual é uma parte pequena.

    Ele não justifica o consumo diário de produtos de origem animal, que é a maior parte.

    As tradições mudam.

    Em várias religiões, práticas antigas, como os sacrifícios de animais em templos, deixaram de existir sem que a fé acabasse. Dentro de cada tradição, há debates sobre como aplicar seus princípios hoje.

    A tradição não decide sozinha para quem não a compartilha.

    O animal que sofre não pertence à religião de quem o come. O sofrimento dele precisa ser levado em conta por razões que valem para todos.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Confusão entre permitir e obrigar
Trata a permissão como razão para comer
Leitura seletiva
Usa a permissão e ignora as condições

Moral

O critério é coerente?

Apelo à autoridade fora do seu alcance
Usa a fé para decidir por quem não a compartilha

Vieses

Raciocínio motivado

A permissão é lembrada, e as condições, esquecidas

Ligado a D4

Racionalização pelos 4Ns

"Natural" e "normal" ganham reforço religioso

Piazza et al., 2015

Extrapolações

O princípio testado é: "se a minha religião permite algo, não há o que discutir".

Se valesse para…EscravidãoToque para ver

Textos religiosos foram usados para justificá-la

As próprias religiões hoje a condenam

Se valesse para…Rodeios e brigas de animaisToque para ver

Seriam aceitáveis se alguma tradição permitisse

A permissão não encerra a questão

Se valesse para…Religiões diferentesToque para ver

Cada um poderia justificar práticas opostas

Não há como decidir entre elas sem razões comuns

Contradições

A própria religião proíbe o sofrimento desnecessário.

Mas o consumo apoia uma produção cheia dele.

Segue a religião em muitas coisas difíceis.

Mas não nas que pedem cuidado com os animais.

Aceita que religiosos sejam vegetarianos por fé.

O que mostra que a religião não obriga a comer.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que muitas religiões permitem comer animais, que a fé é importante para quem a tem e que deve ser respeitada. Também acerta que veganos às vezes tratam a religião com desdém, o que só afasta.

Mas

Mas permitir não é obrigar, e as mesmas tradições que permitem pedem que os animais não sofram sem necessidade. Muitos religiosos, de várias fés, chegam ao vegetarianismo e ao veganismo justamente pela própria religião.

Conexões

Costuma vir antes

D4 Deus nos deu domínio sobre os animaisO domínio bíblico é lido como permissão
D5 Jesus comeu peixeO exemplo religioso vira justificativa
D11este argumento

Costuma vir depois

D2 É cultural, criticar é etnocentrismoA crítica à prática religiosa é vista como desrespeito
D12 Vou pagar pelos meus erros na próxima vidaA questão é entregue à justiça divina
D1 Sempre fizemos issoA tradição é usada como justificativa

Referências