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"Os animais não sabem que vão morrer, então não tem problema matá-los"
o mal da morte não está em saber que se vai morrer, e sim no que a morte tira de quem morre: tudo o que ainda viveria. Se não saber tornasse aceitável matar, seria aceitável matar bebês, pessoas com demência avançada ou alguém que dorme e não tem nenhum pressentimento do que vai acontecer. Ninguém aceita isso. E muitos animais, embora talvez não entendam a morte, antecipam o futuro e sentem medo diante do perigo.
Nota: este capítulo trata da antecipação e da relação com o futuro. A questão da dor no momento da morte está em A16
Resposta curta
Não saber que vai morrer não torna a morte inofensiva. Um bebê, uma pessoa com demência avançada ou alguém que dorme tranquilo também não sabem que vão morrer naquele momento, e matá-los seria um dos piores crimes. O mal da morte é o que ela tira: toda a vida que ainda viria. E isso o animal perde, saiba ou não.
Para crianças
Um bebê não sabe o que é morrer. Uma pessoa dormindo também não está pensando nisso. Mesmo assim, todo mundo sabe que machucá-los seria muito errado, porque eles perderiam tudo o que ainda iam viver. Com os animais é igual: não saber que vai morrer não faz a vida deles valer menos para eles.
"Seria aceitável matar alguém que está dormindo, sem dor, só porque ele não sabe o que vai acontecer?"
Como pode aparecer
"Eles não sabem que vão morrer."
"O animal vive o presente, não faz planos."
"Não tem noção de futuro, então não perde nada."
"A vaca não fica angustiada pensando na morte, como a gente."
"Você acha que a galinha sabe o que é a morte?"
"Seres sem consciência de si ao longo do tempo não têm interesse em continuar vivendo."
"Matar sem dor não é dano." (que é A16)
A versão mais forte
"O boi não sabe que vai morrer. Ele não sofre com isso, não faz planos. Então que mal tem?"
Versão mais forte (steelman):
- P1A morte só é um mal para quem a teme ou para quem tem planos que ela interrompe.
- P2Os animais não sabem que vão morrer, então não sofrem por antecipação.
- P3Os animais não planejam o futuro nem têm consciência de si ao longo do tempo, então não têm projetos que a morte frustre.
- CLogo, matá-los não lhes causa mal, desde que não haja dor.
P2 tem algo de verdadeiro: é provável que a maioria dos animais não tenha um conceito da própria morte como nós temos. P3 é exagerada, como mostram estudos de cognição animal. O problema central está em P1.
O argumento é válido. A solidez falha em P1, que nenhuma pessoa aceita quando a vítima é humana, e em P3, que subestima o que muitos animais sabem do futuro.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento junta duas ideias diferentes sobre por que a morte seria ruim:
Ideia O que diz Problema A morte é ruim pelo medo que causa Quem não sabe que vai morrer não sofre Confunde o sofrimento de antecipar a morte com o mal da própria morte A morte é ruim por frustrar planos Quem não planeja não perde nada Ignora que se pode perder um futuro bom sem tê-lo planejado A morte é ruim pelo que tira (privação) Quem morre perde as experiências boas que ainda teria Vale para qualquer ser com um futuro de experiências, humano ou não A terceira ideia é a mais aceita na filosofia, desde Thomas Nagel, e é a única que explica por que matar alguém dormindo é errado. Ela não depende de saber nem de planejar.
- b
Onde o argumento quebra
1. O teste humano, com quem não sabe.
Bebês não têm ideia do que é a morte. Pessoas com demência avançada ou com deficiência intelectual profunda podem não ter nenhuma noção dela nem fazer planos. Pelo argumento, matá-las sem dor seria aceitável. Ninguém aceita essa conclusão.
2. O teste humano, com quem sabe, mas não está pensando nisso.
Um adulto que dorme sabe, em geral, que é mortal, mas naquele momento não tem medo nenhum nem está planejando nada. Se ele for morto durante o sono, sem acordar, não sofre por antecipação. Ainda assim, é um crime gravíssimo, porque ele perde tudo o que ainda viveria. O mesmo vale para quem é morto de surpresa, sem perceber o perigo.
3. O mal da morte não é o medo da morte.
O medo de morrer é um sofrimento a mais, que vale a pena evitar. Mas a ausência desse medo não elimina o mal principal: a perda do futuro.
4. Muitos animais antecipam o futuro.
Gaios-da-califórnia guardam comida pensando na fome da manhã seguinte. Chimpanzés e orangotangos guardam ferramentas para usar depois. A ideia de que os animais vivem num presente puro não corresponde ao que os estudos mostram, ainda que não saibamos se algum deles entende a própria morte.
5. Medo não exige entender a morte.
Animais sentem medo diante de ameaças, e o transporte e o abate são fontes conhecidas de medo e estresse. O animal pode não saber o que é morrer e ainda assim sofrer na hora em que é levado para morrer.
6. A percepção do tempo pode ser diferente.
Há evidências de que animais menores e com metabolismo mais rápido percebem mudanças visuais em intervalos mais curtos que os nossos. Isso sugere que sua experiência do tempo pode ser mais densa, e não mais pobre, do que imaginamos.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Nagel, *Death* (1970) A morte é ruim para quem morre pelo que o priva, não pelo que ele sente Noûs, 4(1) Raby et al., 2007 Gaios-da-califórnia guardam comida antecipando a fome do dia seguinte, sem estarem com fome no momento Nature, 445 Osvath e Osvath, 2008 Chimpanzés e orangotangos escolhem e guardam ferramentas para uso futuro Animal Cognition, 11 EFSA, 2020, "Welfare of pigs at slaughter" Identifica medo, dor e estresse entre as consequências para o bem-estar dos porcos nas etapas do abate EFSA Journal, 18(6) Healy et al., 2013 Animais menores e com metabolismo mais rápido percebem informação temporal em resolução mais fina Animal Behaviour, 86(4) Questão de Ética, vol. III, cap. 10 Discute a percepção subjetiva do tempo e o dano da morte Ver também os caps. 1, 2 e 4 - d
A melhor réplica: interesses relativos ao tempo
A versão mais séria vem de Jeff McMahan: o mal da morte depende de quanto o ser está psicologicamente ligado ao próprio futuro, por memória, planos e consciência de si. Animais teriam essa ligação mais fraca, e por isso perderiam menos ao morrer do que um adulto humano.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Perder menos não é não perder nada.
A réplica abandona a conclusão de que "não tem problema matar" e passa a discutir o tamanho do dano.
O dano precisa ser pesado contra o benefício.
Do outro lado está um prazer de paladar (J11). Mesmo um dano menor pesa mais.
A mesma conta rebaixaria humanos.
Animais têm ligação com o futuro.
Memória, expectativa e preferências estáveis existem em muitas espécies. A diferença é de grau.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Prova demais
Confusão de conceitos
Epistemológico
A evidência sustenta?
Subestimar a cognição animal
Moral
O critério é coerente?
Dois pesos
Vieses
Negação motivada de mente
Atribuir menos mente aos animais comidos torna a morte deles menos incômoda
Paradoxo da carne
A ideia de que o animal não sabe alivia o conflito entre gostar dele e comê-lo
Viés de grupo
A morte de um humano é mal mesmo sem consciência dela; a de um animal, não
Extrapolações
O princípio testado é: "quem não sabe que vai morrer, ou não está pensando nisso, não é prejudicado por ser morto sem dor".
Se valesse para…BebêsToque para ver
Matá-los sem dor seria aceitável, porque não sabem o que é a morte
Ninguém aceita
Se valesse para…Pessoas com demência avançada ou deficiência intelectual profundaToque para ver
Poderiam ser mortas sem dor, porque não têm noção da morte nem fazem planos
Contraria os direitos humanos
Se valesse para…Adultos dormindoToque para ver
Poderiam ser mortos durante o sono, porque naquele momento não temem nem planejam nada
Seria um dos crimes mais graves
Se valesse para…Vítimas de morte súbitaToque para ver
Quem é morto de surpresa, sem perceber o perigo, não teria sofrido mal nenhum
Contraria o juízo comum de que perderam a vida
Contradições
Mesmo que a vítima não soubesse de nada.
Que não sabem que vão morrer nem fazem planos.
Mesmo que ele não soubesse que ia morrer.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que a antecipação da morte é uma fonte real de sofrimento, que muitos humanos têm e que talvez a maioria dos animais não tenha. Também acerta que há diferenças entre espécies na relação com o futuro, e que elas podem importar em comparações difíceis.
Mas
Mas o mal principal da morte não é saber que ela vem. É perder tudo o que ainda viria. Se não saber tornasse a morte inofensiva, poderíamos matar bebês e pessoas adormecidas. Como ninguém aceita isso, também não serve para os animais.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- A alegação de que ter pouco tempo restante torna a morte um dano pequeno Vol. III, cap. 10
- De que consiste o dano da morte? Vol. III, cap. 1
- Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte? Vol. III, cap. 4
Referências
Filosofia
- Death. *Noûs*, 4(1).
- The Ethics of Killing. Oxford University Press.
Cognição e bem-estar animal
- Planning for the future by western scrub-jays. *Nature*, 445.
- Chimpanzee and orangutan forethought: self-control and pre-experience in the face of future tool use. *Animal Cognition*, 11.
- Welfare of pigs at slaughter. *EFSA Journal*, 18(6).
- Metabolic rate and body size are linked with perception of temporal information. *Animal Behaviour*, 86(4).