Guia de Argumentação
Pelos Animais
EN

Início / A. Senciência e status moral / Parte DIR

A25

"Os animais não sabem que vão morrer, então não tem problema matá-los"

A resposta em uma frase

o mal da morte não está em saber que se vai morrer, e sim no que a morte tira de quem morre: tudo o que ainda viveria. Se não saber tornasse aceitável matar, seria aceitável matar bebês, pessoas com demência avançada ou alguém que dorme e não tem nenhum pressentimento do que vai acontecer. Ninguém aceita isso. E muitos animais, embora talvez não entendam a morte, antecipam o futuro e sentem medo diante do perigo.

Nota: este capítulo trata da antecipação e da relação com o futuro. A questão da dor no momento da morte está em A16

Resposta curta

Não saber que vai morrer não torna a morte inofensiva. Um bebê, uma pessoa com demência avançada ou alguém que dorme tranquilo também não sabem que vão morrer naquele momento, e matá-los seria um dos piores crimes. O mal da morte é o que ela tira: toda a vida que ainda viria. E isso o animal perde, saiba ou não.

Para crianças

Um bebê não sabe o que é morrer. Uma pessoa dormindo também não está pensando nisso. Mesmo assim, todo mundo sabe que machucá-los seria muito errado, porque eles perderiam tudo o que ainda iam viver. Com os animais é igual: não saber que vai morrer não faz a vida deles valer menos para eles.

Devolva com uma pergunta

"Seria aceitável matar alguém que está dormindo, sem dor, só porque ele não sabe o que vai acontecer?"

Como pode aparecer

"Eles não sabem que vão morrer."
Conversa cotidiana
"O animal vive o presente, não faz planos."
Conversa cotidiana
"Não tem noção de futuro, então não perde nada."
Conversa cotidiana
"A vaca não fica angustiada pensando na morte, como a gente."
Redes sociais
"Você acha que a galinha sabe o que é a morte?"
Pergunta retórica
"Seres sem consciência de si ao longo do tempo não têm interesse em continuar vivendo."
Versão acadêmica
"Matar sem dor não é dano." (que é A16)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"O boi não sabe que vai morrer. Ele não sofre com isso, não faz planos. Então que mal tem?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1A morte só é um mal para quem a teme ou para quem tem planos que ela interrompe.
  2. P2Os animais não sabem que vão morrer, então não sofrem por antecipação.
  3. P3Os animais não planejam o futuro nem têm consciência de si ao longo do tempo, então não têm projetos que a morte frustre.
  4. CLogo, matá-los não lhes causa mal, desde que não haja dor.

P2 tem algo de verdadeiro: é provável que a maioria dos animais não tenha um conceito da própria morte como nós temos. P3 é exagerada, como mostram estudos de cognição animal. O problema central está em P1.

O argumento é válido. A solidez falha em P1, que nenhuma pessoa aceita quando a vítima é humana, e em P3, que subestima o que muitos animais sabem do futuro.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento junta duas ideias diferentes sobre por que a morte seria ruim:

    IdeiaO que dizProblema
    A morte é ruim pelo medo que causaQuem não sabe que vai morrer não sofreConfunde o sofrimento de antecipar a morte com o mal da própria morte
    A morte é ruim por frustrar planosQuem não planeja não perde nadaIgnora que se pode perder um futuro bom sem tê-lo planejado
    A morte é ruim pelo que tira (privação)Quem morre perde as experiências boas que ainda teriaVale para qualquer ser com um futuro de experiências, humano ou não

    A terceira ideia é a mais aceita na filosofia, desde Thomas Nagel, e é a única que explica por que matar alguém dormindo é errado. Ela não depende de saber nem de planejar.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. O teste humano, com quem não sabe.

    Bebês não têm ideia do que é a morte. Pessoas com demência avançada ou com deficiência intelectual profunda podem não ter nenhuma noção dela nem fazer planos. Pelo argumento, matá-las sem dor seria aceitável. Ninguém aceita essa conclusão.

    2. O teste humano, com quem sabe, mas não está pensando nisso.

    Um adulto que dorme sabe, em geral, que é mortal, mas naquele momento não tem medo nenhum nem está planejando nada. Se ele for morto durante o sono, sem acordar, não sofre por antecipação. Ainda assim, é um crime gravíssimo, porque ele perde tudo o que ainda viveria. O mesmo vale para quem é morto de surpresa, sem perceber o perigo.

    3. O mal da morte não é o medo da morte.

    O medo de morrer é um sofrimento a mais, que vale a pena evitar. Mas a ausência desse medo não elimina o mal principal: a perda do futuro.

    4. Muitos animais antecipam o futuro.

    Gaios-da-califórnia guardam comida pensando na fome da manhã seguinte. Chimpanzés e orangotangos guardam ferramentas para usar depois. A ideia de que os animais vivem num presente puro não corresponde ao que os estudos mostram, ainda que não saibamos se algum deles entende a própria morte.

    5. Medo não exige entender a morte.

    Animais sentem medo diante de ameaças, e o transporte e o abate são fontes conhecidas de medo e estresse. O animal pode não saber o que é morrer e ainda assim sofrer na hora em que é levado para morrer.

    6. A percepção do tempo pode ser diferente.

    Há evidências de que animais menores e com metabolismo mais rápido percebem mudanças visuais em intervalos mais curtos que os nossos. Isso sugere que sua experiência do tempo pode ser mais densa, e não mais pobre, do que imaginamos.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Nagel, *Death* (1970)A morte é ruim para quem morre pelo que o priva, não pelo que ele senteNoûs, 4(1)
    Raby et al., 2007Gaios-da-califórnia guardam comida antecipando a fome do dia seguinte, sem estarem com fome no momentoNature, 445
    Osvath e Osvath, 2008Chimpanzés e orangotangos escolhem e guardam ferramentas para uso futuroAnimal Cognition, 11
    EFSA, 2020, "Welfare of pigs at slaughter"Identifica medo, dor e estresse entre as consequências para o bem-estar dos porcos nas etapas do abateEFSA Journal, 18(6)
    Healy et al., 2013Animais menores e com metabolismo mais rápido percebem informação temporal em resolução mais finaAnimal Behaviour, 86(4)
    Questão de Ética, vol. III, cap. 10Discute a percepção subjetiva do tempo e o dano da morteVer também os caps. 1, 2 e 4
  4. d

    A melhor réplica: interesses relativos ao tempo

    A versão mais séria vem de Jeff McMahan: o mal da morte depende de quanto o ser está psicologicamente ligado ao próprio futuro, por memória, planos e consciência de si. Animais teriam essa ligação mais fraca, e por isso perderiam menos ao morrer do que um adulto humano.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Perder menos não é não perder nada.

    A réplica abandona a conclusão de que "não tem problema matar" e passa a discutir o tamanho do dano.

    O dano precisa ser pesado contra o benefício.

    Do outro lado está um prazer de paladar (J11). Mesmo um dano menor pesa mais.

    A mesma conta rebaixaria humanos.

    Bebês e pessoas com demência avançada também têm ligação psicológica fraca com o futuro. Quase ninguém aceita que matá-los seja um dano pequeno (A12, A16).

    Animais têm ligação com o futuro.

    Memória, expectativa e preferências estáveis existem em muitas espécies. A diferença é de grau.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Prova demais
Autorizaria matar bebês, pessoas com demência e quem dorme
Confusão de conceitos
Trata o medo de morrer como se fosse o mal da morte

Epistemológico

A evidência sustenta?

Subestimar a cognição animal
Supõe que os animais vivem num presente sem futuro

Moral

O critério é coerente?

Dois pesos
Aceita a privação como mal para humanos e a nega para animais

Vieses

Negação motivada de mente

Atribuir menos mente aos animais comidos torna a morte deles menos incômoda

Bastian et al., 2012

Paradoxo da carne

A ideia de que o animal não sabe alivia o conflito entre gostar dele e comê-lo

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Viés de grupo

A morte de um humano é mal mesmo sem consciência dela; a de um animal, não

Caviola, Everett e Faber, 2019

Extrapolações

O princípio testado é: "quem não sabe que vai morrer, ou não está pensando nisso, não é prejudicado por ser morto sem dor".

Se valesse para…BebêsToque para ver

Matá-los sem dor seria aceitável, porque não sabem o que é a morte

Ninguém aceita

Se valesse para…Pessoas com demência avançada ou deficiência intelectual profundaToque para ver

Poderiam ser mortas sem dor, porque não têm noção da morte nem fazem planos

Contraria os direitos humanos

Se valesse para…Adultos dormindoToque para ver

Poderiam ser mortos durante o sono, porque naquele momento não temem nem planejam nada

Seria um dos crimes mais graves

Se valesse para…Vítimas de morte súbitaToque para ver

Quem é morto de surpresa, sem perceber o perigo, não teria sofrido mal nenhum

Contraria o juízo comum de que perderam a vida

Contradições

Considera crime matar alguém dormindo.

Mesmo que a vítima não soubesse de nada.

Protege bebês e pessoas com demência.

Que não sabem que vão morrer nem fazem planos.

Lamenta a morte inesperada de um animal de estimação.

Mesmo que ele não soubesse que ia morrer.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que a antecipação da morte é uma fonte real de sofrimento, que muitos humanos têm e que talvez a maioria dos animais não tenha. Também acerta que há diferenças entre espécies na relação com o futuro, e que elas podem importar em comparações difíceis.

Mas

Mas o mal principal da morte não é saber que ela vem. É perder tudo o que ainda viria. Se não saber tornasse a morte inofensiva, poderíamos matar bebês e pessoas adormecidas. Como ninguém aceita isso, também não serve para os animais.

Conexões

Costuma vir antes

A16 Matar sem dor não é dano.Respondida a dor, alega-se que o animal nem sabe que vai morrer
A1 Animais não são racionais.Sem razão, não haveria noção de futuro
A25este argumento

Costuma vir depois

A12 Bebês humanos têm o potencial de ser racionais.Quando o teste humano aparece, apela-se ao potencial
A22 Humanos sofrem mais que os animaisA antecipação vira medida de quanto se sofre
B5 Tiveram uma vida boa e uma morte rápida.A ignorância da morte vira parte da "morte boa"

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências