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"Olha o que você está perdendo"
a foto do churrasco nos comentários de um post vegano mostra o prato, mas não responde à pergunta que o post fez: o que aconteceu com quem virou o prato. A maioria dos veganos já comeu carne e sabe o gosto que tem; não deixou de comer por desconhecer o sabor, e sim por saber o custo. E é curioso que quem compartilha a foto da picanha raramente queira compartilhar a do abate.
Resposta curta
Eu sei o gosto; comi carne a vida toda antes de mudar. Não parei por não conhecer o sabor, parei por conhecer o custo. A foto mostra o prato, mas não mostra o animal. Se a foto do prato pode ser compartilhada, por que a do abate não pode?
Para crianças
Se alguém mostrasse um bolo lindo feito com o dinheiro que pegou escondido de outra pessoa, o bolo continuaria bonito, mas ninguém acharia certo. Ver uma comida gostosa não muda o que aconteceu para ela existir. Os veganos sabem que carne tem gosto bom; eles escolheram não comer porque o animal queria viver.
"Você postaria também a foto de como esse animal viveu e morreu?"
Como pode aparecer
Foto de churrasco nos comentários de um post vegano
"Hmm, picanha. Tá com inveja?"
"Você não sabe o que está perdendo."
"Come um pedacinho, ninguém vai saber."
"Não dá vontade quando sente o cheiro?"
"Carne é gostosa." (que é J11)
A versão mais forte
Uma foto de picanha suculenta nos comentários de um post vegano, com a legenda "Olha o que você está perdendo".
Versão mais forte (steelman):
- P1O veganismo exige abrir mão de prazeres que a maioria das pessoas valoriza muito.
- P2Ninguém aceitaria uma perda tão grande sem uma razão muito forte.
- P3Mostrar o prazer perdido deixa claro o tamanho do sacrifício.
- CLogo, o veganismo pede demais, e quem o adota está perdendo algo que vale a pena.
P1 tem um fundo verdadeiro: mudar hábitos alimentares custa, sobretudo no começo. O problema está em P2 e P3: a razão existe, e o tamanho do prazer não diz nada sobre o tamanho do dano do outro lado.
O argumento é inválido: do fato de algo ser prazeroso não se segue que seja justo.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
A provocação supõe que o vegano rejeita a carne por desconhecer ou subestimar o prazer. Mas a decisão vegana costuma ter outra estrutura:
O que a foto supõe O que de fato acontece O vegano não sabe o que está perdendo A maioria comeu carne por anos e conhece o sabor O prazer é o único fator O prazer é pesado contra a vida e o sofrimento do animal Ver o prato vai fazer a pessoa mudar de ideia Desejo não é argumento: sentir vontade não torna o ato justo - b
Onde o argumento quebra
1. Saber o gosto não muda o custo.
A pergunta vegana nunca foi "carne é gostosa?". Foi "o sabor justifica o que é feito ao animal?" (J11).
2. A foto esconde metade da história.
Ela mostra o resultado e omite o processo. É a mesma lógica de quem diz "não quero ver esses vídeos" (E7): o prato pode ser visto, o animal não.
3. Tentação não é razão.
Sentir vontade de algo é comum para quem mudou um hábito, e não mostra que o hábito antigo era certo. Quem parou de fumar também sente vontade ao ver um cigarro.
4. O "perder" é relativo.
O vegano deixa de comer um ingrediente, mas continua comendo bem. O animal, se for comido, perde tudo.
5. Muitas vezes é uma provocação para irritar, não para convencer.
Ela não oferece razão nenhuma, só tenta provocar desejo ou reação.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Piazza et al., 2015 "Gostoso" está entre as quatro justificativas mais usadas para comer carne Os "4Ns" Bastian et al., 2012 Lembrar que a carne vem de um animal que sentia gera desconforto, e as pessoas tendem a reduzir a mente atribuída a ele Ajuda a explicar por que só o prato aparece na foto Brehm, A Theory of Psychological Reactance (1966) Liberdade ameaçada gera reafirmação do comportamento O tom de desafio da provocação - d
A melhor réplica: a renúncia mostra que o veganismo é difícil demais
A versão mais séria diz: se até veganos sentem vontade, é porque o veganismo exige uma renúncia constante, e uma moral que exige tanto não é razoável para a maioria das pessoas.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Sentir vontade é comum em qualquer mudança.
Isso mostra que mudar custa no começo, não que a mudança seja errada.
A vontade diminui.
Preferências alimentares mudam com a exposição, e muitos veganos relatam perder o desejo com o tempo.
Dificuldade não é injustiça.
Que algo seja difícil explica por que muita gente ainda não mudou, mas não torna justo o que é feito ao animal (J9).
- f
De volta à questão moral
Mesmo que a foto despertasse vontade em todos os veganos do mundo, a pergunta continuaria a mesma: a vontade de comer um prato justifica a vida e a morte que ele exigiu?
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de questão
Apelo à emoção
Epistemológico
A evidência sustenta?
Omissão seletiva
Moral
O critério é coerente?
Desejo como justificativa
Vieses
Dissociação carne-animal
O prato aparece sem o animal, o que alivia o desconforto
Reatância psicológica
O post vegano é sentido como ameaça à liberdade e gera desafio
Brehm, 1966
Extrapolações
O princípio testado é: "se algo é gostoso, quem abre mão disso está errado".
Se valesse para…Quem parou de fumar ou de beberToque para ver
Mostrar o cigarro ou o copo seria um bom argumento para voltar
Ninguém leva isso a sério
Se valesse para…Produtos de trabalho escravoToque para ver
Se o produto é bom, quem o boicota "está perdendo"
O prazer não apaga a injustiça
Se valesse para…Carne de cãoToque para ver
Uma foto apetitosa tornaria aceitável comê-la
Quase ninguém aceita
Contradições
Quem compartilha a picanha não compartilharia o abatedouro.
Ninguém manda foto de cigarro para quem parou de fumar e acha isso um bom argumento.
Ao apelar ao sabor, não oferece nenhuma outra justificativa.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que mudar hábitos alimentares custa, e que esse custo não deve ser negado nem ridicularizado. Muitos veganos sentem saudade de certos sabores, sobretudo no começo, e dizer isso com honestidade ajuda mais do que fingir que não existe vontade nenhuma.
Mas
Mas a vontade de comer não é uma razão moral. O que se perde de um lado é um prato; do outro, é uma vida.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Referências
Psicologia
- Rationalizing meat consumption. The 4Ns. *Appetite*, 91.
- Don't mind meat? The denial of mind to animals used for human consumption. *Personality and Social Psychology Bulletin*, 38(2).
- A Theory of Psychological Reactance. Academic Press.